quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

TAKAHIKO IIMURA (ON EYE RAPE, 1962)



O japonês Takahiko Iimura (Tóquio, 1937) é considerado um dos expoentes máximos do cinema experimental, arte vídeo e instalação. A sua trajectória artística teve início na Nova Iorque dos anos 60 com a produção de filmes experimentais, ficando associado a artistas de vanguarda como Yoko Ono, a pintores como Genpei Akasegawa e Natsuyuki Nakanishi, e ao bailarino e coreógrafo Tatsumi Hijikata, um dos criadores do Butoh, a mais arrojada — e única — forma de dança contemporânea japonesa.

A sua obra cinematográfica aborda questões tão diversas como a ecologia em
Junk (1962), a imagética erótica e a crítica social em Love (1962) e Onan (1962) ou a relação entre a palavra e a audição, na instalação audiovisual Seeing/Hearing/Speaking (2002), baseada no livro La Voix et le phénomène do filósofo francês Jacques Derrida.

Os seus trabalhos receberam inúmeros prémios e foram exibidos em museus e galerias de renome mundial, designadamente, no Museu de Fotografia de Tóquio, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e no Centro Georges Pompidou, de Paris.


On Eye Rape (1962) “was made with footage I picked out of some trash. It was originally an educational film which recorded a plant growing out of the ground. The content isn't important. I punched almost all the frames with a puncher. I made big holes so that when it was projected, people could barely see what was originally in the frames. I didn't punch every frame; there was a lot of flicker from the holes. People got very annoyed and complained. They were afraid they would get hurt by the light. That film was called, in English, On Eye Rape. In fact, I had also inserted (a few frames of) some porno shots. Pornography was forbidden in Japan; it’s still forbidden..." *

* "An Interview with Taka Iimura", Scott MacDonald,
Journal of the University Film Association, XXXIII, 4 (Fall 1981).

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

NICHT VERSÖHNT ODER ES HILFT NUR GEWALT WO GEWALT HERRSCHT (1965)

Jean-Marie Straub (Metz, 8 de Janeiro de 1933) iniciou a sua carreira no mundo do cinema como animador de cine-clubes no início dos anos cinquenta ao mesmo tempo que estudava Literatura em Estrasburgo e Nancy. Em 1954 mudou-se para Paris onde trabalhou como assistente de realização de Abel Gance (La Tour de Nesle), Jean Renoir (Elena et les Hommes), Robert Bresson (Un condamne a mort s'est echappe) e Jacques Rivette (Le Coup du berger). É também em 1954 que conhece Danièle Huillet, sua futura esposa e colaboradora. Quatro anos depois emigrou para a Alemanha fugindo a uma possível mobilização para a guerra da Argélia. Foi julgado à revelia pelo Tribunal Militar de Metz e condenado a um ano de prisão.

Em 1963 co-realizou com Danièle Huillet a sua primeira curta-metragem, Machorka-Muff, e, dois anos depois, a sua primeira longa-metragem, Nicht versöhnt oder Es hilft nur Gewalt wo Gewalt herrscht. Ambos os filmes adaptam obras de Heinrich Böll e questionam a sobrevivência do nazismo na Alemanha do pós-guerra. Nas décadas seguintes, Straub e Huillet formaram uma das parcerias criativas mais insólitas e estimulantes do mundo da sétima arte, escrevendo, realizando, montando e produzindo todos os seus filmes sem qualquer tipo de interferências exteriores, de modo a manterem uma total independência criativa.


Nicht versöhnt foi inspirado no romance Billard um Halbzehn e abarca cerca de meio século da história da Alemanha, algures entre 1910 e 1960, através de uma família da classe média, o arquitecto Heinrich Fahmel, a sua mulher Joanna e os seus filhos Heinrich, Robert e Otto, e, ainda, Edith, a mulher de Robert e os seus filhos Joseph e Ruth. O filme está dividido em vários episódios em que as personagens, o tempo e os espaços das situações se encontram organizados de forma aparentemente desordenada, saltando sistematicamente entre episódios históricos sem sequência cronológica lógica. De acordo com o próprio Straub, o filme foi construído de forma a eliminar, tanto quanto possível, qualquer auréola histórica seja no guarda-roupa, seja nos adereços e décors. Os acontecimentos são colocados numa espécie de presente comum, de modo a evitar que o espectador possa reordenar os factos ou perceber perfeitamente em que sentido temporal se movem as sequências, quer para a frente quer para trás. Trata-se, em suma, como sublinha Lauro António, de «uma obra extremamente hermética, de difícil leitura e de penetração cultural e social bastante discutível. O filme viria a ser pateado e incompreendido por quase todo o público, aquando da sua estreia, bem assim como saudado por alguns sectores da crítica alemã (e internacional, sobretudo francesa), que nela viram (de alguma forma justificadamente) um sinal de saudável ruptura com um passado mercantil e demissionário do cinema germânico.»


Où gît votre sourire enfoui? é um documentário de Pedro Costa sobre Straub e Huillet. Um curto excerto pode ser visto no YouTube.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

LES PARENTS TERRIBLES (JEAN COCTEAU, 1948)

Yvonne, que tem a alcunha de Sophie, é mãe de Michel, um adolescente bem-parecido por quem ela nutre uma obsessão incestuosa. Michel é um jovem simpático mas, estragado com mimos, desenvolveu uma personalidade fortemente egoísta. O pai de Michel, Georges, é um ser fraco e mulherengo, por quem Léonie, irmã da sua mulher, está secretamente apaixonada. Finalmente, Madeleine, a rapariga com quem Michel tem um romance, é, igualmente, protegida de Georges, embora não saiba que este é o pai de Michel.

Madeleine vai ser o elemento perturbador que destrói o precário equilíbrio em que vive esta família, quando as suas relações com os homens da casa se tornam conhecidas. Os pais e a tia de Michel conspiram e montam entre si uma formidável intriga, de forma a destruir o romance entre Michel e Madeleine. Tudo se resolve, porém, quando Léonie muda de partido na disputa e Sophie se suicida.


Realizado por Jean Cocteau em 1948, Les Parents Terribles é uma rigorosa, inteligente e elaborada adaptação para cinema de uma peça de teatro da autoria do próprio Cocteau que é, em síntese, um estudo sinuoso de uma família neurótica da classe média, construído em cinema de um modo muito teatral, de maneira a manter a mesma atmosfera claustrofóbica e tensa.


Les Parents Terribles mantém a estrutura em três actos da peça no qual se baseia e desenrola-se apenas em dois décors, com cinco personagens. Contudo, graças a um excepcional tratamento fotográfico e a um rigoroso trabalho de câmara e de montagem, Cocteau transforma o filme numa experiência totalmente diferente daquela que consiste em assistir a uma encenação teatral. O génio criativo de Cocteau revela-se, por exemplo, no modo como tira partido dos dois décors para definir a linha narrativa do filme e acrescentar profundidade aos personagens. Ao contrário do moderno e amplo apartamento de Madeleine onde o jovem amor floresce, Michel e os seus terríveis pais vivem num esquálido apartamento, cujo ambiente claustrofóbico sublinha a natureza tensa e repressiva das relações entre os seus ocupantes.


Les Parents Terribles é o quarto grande trabalho cinematográfico de Cocteau e se visualmente não impressiona tanto como os anteriores, nada lhes fica a dever em densidade poética.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

REPULSION (ROMAN POLANSKI, 1965)

Carol Ledoux é uma jovem belga que vive e trabalha em Londres, onde partilha um apartamento com a sua irmã Helen. Introvertida e dada a momentos de pura abstracção, Carol sente-se oprimida pela constante presença de Michael, o namorado da irmã, e passa a vida a queixar-se dos seus objectos pessoais, como a navalha de barbear e a escova de dentes. Colin, um jovem apaixonado por Carol, é incapaz de compreender e aceitar a sua frieza e indiferença.

Quando Helen e o namorado partem de férias para Itália, Carol entra rapidamente num estado de apatia que a conduzirá a uma espiral descendente de loucura. É despedida do emprego, fecha-se em casa, desliga o telefone e mergulha num total estado de depressão alucinada marcada por uma profunda aversão à figura masculina.


Colin, preocupado com o aparente desaparecimento de Carol, força a entrada do apartamento e ela, assustada, mata-o, lança o corpo na banheira e volta a barricar-se. Mais tarde, chega o senhorio para cobrar a renda e é, também, morto.


Repulsion é um dos filmes mais marcantes da carreira de Roman Polanski e a sua primeira obra importante realizada fora da Polónia. Trata-se de um filme de “terror psicológico” ou “drama psicológico” povoado por elementos fantásticos e oníricos, onde Polanski expõe de maneira magistral a gradual degradação psicológica de Carol, brilhantemente interpretada por Catherine Deneuve, quer seja através das rachas das paredes do apartamento que aumentam cada vez que o pânico a assalta e do aspecto orgânico, semelhante a barro, dessas mesmas paredes que retêm em si as marcas das suas mãos e do seu rosto, quer seja pelas mãos que brotam das paredes de um corredor e se esticam para a tocar e agarrar. Um trabalho de câmara magnífico, dominado pelo uso inventivo de planos subjectivos e os repetidos grandes planos do rosto da protagonista, a sensação de desassossego imprimida pelos ínfimos detalhes sonoros, a genial partitura de Chico Hamilton e a soberba fotografia a preto e branco de Gilbert Taylor elevam Repulsion à categoria de obra de culto e um dos expoentes máximos do cinema de terror.


Repulsion é a febril e inquietante primeira parte de uma trilogia a que se convencionou chamar “The Apartment Trilogy”, que ficou completa com Rosemary’s Baby (1968) e Le Locataire (1976). Nos três filmes, os temas principais são a solidão, o medo e a loucura de personagens que se isolam num apartamento de uma grande cidade e sucumbem aos horrores que provêm não de ameaças externas mas dos medos que povoam as suas mentes.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

8 X 8: A CHESS SONATA IN 8 MOVEMENTS


8x8: A Chess Sonata in 8 Movements (1957) é uma obra-prima do cinema experimental e uma projecção do imaginário surrealista no mundo da sétima arte. Realizado por Hans Richter, é o resultado de três anos de trabalho com Jean Cocteau, com quem Richter já colaborara em Le Sang d'un Poète (1930), o primeiro filme da trilogia de Orpheu.


O título refere-se às inúmeras combinações possíveis num tabuleiro normal de xadrez (8x8), pelo que o filme está também dividido em oito partes, cada uma mais desconcertante que a anterior, onde surrealistas e dadaístas, tais como, Jean Cocteau, Julian Levy, Jacqueline Matisse, Jose Sert, Yves Tanguy, Marcel Duchamp, Max Ernst ou Alexander Calder, se reúnem para prestar um tributo ao jogo que Richter adorava: um jogo de sorte e acaso, servos e senhores, sucessos e desaires — em suma, as mil e uma combinações que a vida nos proporciona.

sábado, 6 de outubro de 2007

BOLWIESER (RAINER WERNER FASSBINDER) 1977

Rainer Werner Fassbinder (1945-82) foi o cineasta mais representativo do que se convencionou chamar Neuer Deutscher Film (Novo Cinema Alemão). Estudou Arte Dramática no Fridl-Leonhard Studio, em Munique. Em 1967, juntou-se ao Action Theater, grupo que passou a liderar depois de este se ter reorganizado sob o nome de Anti-Theater. Escreveu para teatro e subverteu ou converteu ao seu próprio universo criativo Goethe, Sófocles e Lope de Vega, entre outros.

 O gosto pelo cinema de referências, por uma intimidade audaciosa na mise en scène, nos temas e nos personagens, uma invulgar alegria pelo acto de representação, uma inocência inquietante na arte da provocação, um desejo erótico de se expressar e uma obsessão de eterna mobilidade, transformaram Fassbinder num dos cineastas mais invulgares e produtivos de sempre.
 A Alemanha é o grande tema do cinema de Fassbinder. O sonho alemão, o pesadelo alemão e o milagre alemão, não necessariamente nesta ordem, atravessam sempre os seus filmes. É o caso do período nazi em Lili Marleen (1980) e dos compromissos de sobrevivência do pós-guerra em Die Ehe der Maria Braun (1978) ou, ainda, da prosperidade dos tempos de Adenauer, misto de amoralidade e oportunismo marginal, em Lola (1981).
De um modo geral, o cinema de Fassbinder é um cinema de pessoas. De pessoas marginais ou capazes de se deixar marginalizar quando não mesmo marginais. Uma ligação amorosa entre um negro e uma porteira, as atribulações patéticas de um transexual, um homem bem sucedido que massacra a família e depois comete suicídio no escritório, uma equipa de cinema que fica sem dinheiro e que enceta um extraordinário e teatral processo de autodestruição, são situações retratadas nos seus filmes.

Há no cinema de Fassbinder uma vertente de degradação humana que é filmada com uma espécie de comprazimento muito próximo da crueldade. Figuras viscosas, de uma repelência física e moral, disseminam-se na sua obra como se o olhar do realizador estivesse embebido numa forma radical de desgosto global. Bolwieser (A Mulher do Chefe da Estação, 1977), é a condenação dessa vertente numa situação minimal, repetida até à exaustão, com pequenas variações de sintaxe fílmica, mas uma única realidade: um homem é humilhado pela mulher que o engana com amantes também eles desgostantes.

O filme é quase só o progressivo processo de decadência de Xaver Bolwieser — o chefe da estação ferroviária de uma pequena cidade da Alta Baviera, nos anos anteriores à ascensão de Hitler ao poder —, sob as garras da incontinência e da hipocrisia de Hanni, uma mulher de carnes redondas e suor fácil. É um melodrama triste, com escassos e torpes cenários e uma câmara vistuosa que se dedica à tarefa ingrata de encenar um desesperado sarcasmo com um mínimo de meios. Mais do que um brilhante exercício fílmico é uma espantosa lição de cinema enquanto arte de realização, onde o talento transforma a escassez em pujança, não por miserabilismo mas por disciplina.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

LE TESTAMENT DU DOCTEUR CORDELIER (1959)

Jean Renoir pertence à estirpe dos grandes cineastas capazes de desafiar a sua própria imagem, sujeitando a sua evolução, não a uma linearidade calculada, mas a um jogo dinâmico de projectos, acidentes e acasos. Em 1959, realizou dois filmes: Le Déjeneur sur l´Herbe e Le Testament du Docteur Cordelier. Se Déjeneur se impunha como uma exaltação da existência, Le Testament é uma reflexão sobre a presença do Mal no quotidiano, baseando-se nas personagens de The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886), o clássico de Robert Louis Stevenson.

Na origem do filme está o projecto de realizar uma emissão para televisão que, em princípio, seria em directo. Mas a evolução do projecto foi alterando os dados iniciais. Da emissão em directo passou-se para um filme com muitas sequências rodadas na rua, com várias câmaras e som directo.

Não se trata de uma simples actualização da história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, mas uma das adaptações cinematográficas mais surpreendentes desta narrativa mítica, o que não é pouco tendo em conta as inúmeras versões que se conhecem, desde as mais convencionais, como Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1941), de Victor Fleming, até às mais ousadas e profundamente psicológicas, como Mi Nombre es Sombra (1996), de Gonzalo Suárez.

Jean Renoir transpõe a história original da Inglaterra Victoriana para a França dos anos 50 e recorre à frieza agressiva do preto e branco para captar a atmosfera sombria e abstracta, misto de pesadelo e alucinação, que impregna o protagonista do filme, o Dr. Cordelier, um eminente psiquiatra que vive assombrado pela desejo de provar a existência da alma humana através da sua materialização e, assim, modificar o comportamento psicológico dos indivíduos. Tornando-se objecto das suas próprias experiências, Cordelier concebe uma fórmula química que o transforma em Opale, um ser abominável, destrutivo, primitivo e cruel. A pouco e pouco, Cordelier perde o controlo da situação e as suas metamorfoses voluntárias começam a acontecer com naturalidade. O seu alter ego vai mergulhar num universo de perversão e explorar o lado obscuro da vida cujos limites o politicamente correcto, civilizado e famoso Dr. Cordelier sempre recusou. Uma vez imerso num mundo onde as suas perversões ocultas e latentes são postas a nu, Cordelier não vê outra saída que não seja o suicídio para sair de um estado de maldade que, apesar de tudo, lhe permitiu alcançar a plenitude enquanto ser humano, ao libertar os seus instintos mais positivos, mas também os mais cruéis e agressivos.

Apesar das alterações ao nível da situação histórica e temporal, o filme segue de muito perto o espírito da obra de Stevenson, ao assumir um carácter de declarado teor idealista e doutrinário. Se, por um lado, Jean Renoir nos dá uma visão da ciência ao serviço de causas e propósitos errados, por outro, formula as suas teses sobre a natureza humana, as origens do bem e do mal, as causas que despertam as ambições, os ódios e as obsessões dos seres humanos e os meios que utiliza para satisfazer as suas necessidades mais pérfidas, que incluem muitas vezes a violência e não se detêm ante os desejos ou a liberdade dos demais.

Le Testament du Docteur Cordelier é a história da busca de um sonho de liberdade que se transforma em pesadelo e, ao mesmo tempo, a afirmação, em tom pessimista, de que tanto os sentimentos positivos como as suas perversões fazem parte da natureza intrínseca do ser humano e, para alcançarmos a verdadeira plenitude como seres humanos, devemos retornar à nossa natureza animal e instintiva e deixar vir à tona as nossas pulsões mais básicas e primárias, ainda que o risco seja a destruição das estruturas e bases sociais ancestrais.

domingo, 23 de setembro de 2007

ROBERT VAN ACKEREN (DAS ANDERE LÄCHELN, 1978)

Robert van Ackeren pertence ao grupo de cineastas que mais renovaram o cinema alemão nas últimas décadas mas, ao contrário de Fassbinder ou Wim Wenders, revela um gosto exacerbado pelo melodrama que, não raro, o conduz às relações mais secretas e enigmáticas dos corpos.

Nos seus filmes, sempre empenhados em mostrar o normal de um modo estranho, as mulheres rompem por acaso com o absurdo do quotidiano para darem largas a todos os seus desejos mais íntimos.

Por outro lado, o cinema de Robert van Ackeren é marcado pela análise, a um tempo materialista e apaixonada, das relações entre o homem e a mulher. Die Reinheit des Herzens (1979), por exemplo, é um delírio apoteótico acerca de um homem que pede à sua mulher que o traia com outro homem e, em Die Flambierte Frau (1983), uma mulher aspira à pacatez de uma vida burguesa ao mesmo tempo que se entrega aos prazeres sadomasoquistas.


O Outro Sorriso (Das Andere Lächeln, 1978), dá-nos a conhecer Irma, uma bela mulher casada com um negociante de bebidas que, cansada da rotina da vida conjugal e das festas que é obrigada a dar em casa, decide subverter os rituais sociais do marido. Um dia decide convidar a sua amiga Ellen, empregada numa farmácia, a viver em sua casa e a partilhar o quotidiano da família. A pouco e pouco dá-se um estranho fenómeno: Irma e Ellen vão trocando os respectivos papéis.

domingo, 16 de setembro de 2007

KLUTE (ALAN J. PAKULA) 1971

Tom Gruneman, um cientista de uma empresa da Pensilvânia, desaparece misteriosamente de sua casa. A única pista encontrada resume-se a uma carta dactilografada que contém linguagem sexualmente explícita que este homem de família aparentemente feliz terá enviado a uma call girl de Nova Iorque, chamada Bree Daniel. Após seis meses de infrutíferas investigações, John Klute, um jovem detective de polícia de uma pequena cidade de província, abandona a corporação para, por conta da firma para quem o cientista trabalhava e da sua família, de quem é amigo pessoal, continuar sozinho as investigações.

A sua primeira ideia é abordar Bree em Nova Iorque, mas o resultado é nulo. Aluga, então, um quarto no seu sórdido prédio e passa a vigiar cautelosamente todos os passos da rapariga. E, pouco a pouco, Klute vai penetrando num universo desconcertante, desesperante, amargo e violento, que o vai igualmente contagiando.

Klute é, antes de mais, um thriller inteligente e envolvente, primorosamente realizado por Alan J. Pakula, que nos anos seguintes se iria confirmar como um grande realizador na área do policial e do thriller político.

O filme conta com duas grandes interpretações de Jane Fonda (que venceu o Óscar de melhor actriz) e Donald Sutherland, servidas por uma mise en scène atenta, rigorosa e milimétrica, construída sobre jogos de sombras e aparências, numa sociedade de aparências sombrias.

domingo, 9 de setembro de 2007

KÖRKARLEN (1920)

Körkarlen (1920) foi realizado por Victor Sjöström, um dos pioneiros do cinema mudo sueco. Baseado no romance homónimo de Selma Lagerlöf, conta a história de uma lenda sueca segundo a qual um macabro veículo que recolhe as almas dos mortos até ao Além é conduzido pelo último ser humano que morre em estado de pecado na noite do Ano Novo. Esta maldição implica ser testemunha, durante um ano inteiro, da cruel injustiça da Morte e do profundo desespero dos moribundos. Tal sorte caberá a David Holm (brilhantemente interpretado por Sjöström), um alcoólico odioso e autodestrutivo que morre momentos antes de soarem as doze badaladas enquanto aguarda com dois companheiros a chegada do Ano Novo. Assolado por um sentimento de culpa buscará a redenção dos seus pecados, mesmo estando no Além.

Um dos aspectos mais marcantes e originais da estrutura narrativa de Körkarlen resulta da utilização de uma série de flashbacks e, até, de flashbacks dentro de flashbacks que vão desvendando, de um modo não linear ou cronológico mas antes em função dos estados emocionais das personagens, as relações que estas mantêm entre si. Através desta técnica, quase inaudita para a época, Sjöström consegue tornar o enredo do filme complexo, mas de fácil compreensão.

Do ponto de vista formal, Körkarlen destaca-se pelo uso de uma sucessão de exposições duplas que materializam os episódios mais fantásticos: a chegada da carruagem envolta em nevoeiro, a imagem fantasmagórica do seu condutor, o périplo nocturno do veículo recolhendo as almas dos mortos, o encontro entre o fantasma de David e a enfermeira agonizante. O êxito arrebatador que o filme obteve ficou a dever-se, também, ao domínio perfeito da montagem paralela, ao rigor demonstrado no enquadramento e composição dos planos, ao elaborado tratamento fotográfico, à excelência dos encadeamentos da acção e à subtil mistura da dimensão onírica e fantástica da história com o realismo descritivo aplicado ao mundo rural do séc. XIX.

O perfeccionismo de Sjöström e do director de fotografia, Julius Jaenzus, e a complexidade das técnicas utilizadas levaram a que o filme, rodado em Maio de 1920, só estreasse na véspera do Ano Novo de 1921 — escolha da data não terá sido inocente!

Körkarlen pode ser colocado a par de outras grandes obras como Broken Blossoms (1919), de D. W. Griffith, Sunrise (1927), de Friedrich Wilhelm Murnau, ou La Passion de Jeanne d'Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer, todos eles tributos gloriosos à dignidade de um estilo cinematográfico marcado por um carácter experimental e inovador, fruto da visão pessoal dos seus criadores.

Ingmar Bergman, que considerava Victor Sjöström um dos seus mestres, disse que via o filme pelo menos uma vez por ano.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

ZNR (ZAZOU’N’RACAILLE)

Os ZNR, banda liderada pelos excêntricos franceses Hector Zazou e Joseph Racaille, foram uma das formações musicais mais bizarras de todos os tempos. Lançaram apenas dois álbuns na segunda metade da década de 70 do século passado, onde misturam ao rock e ao jazz a música de câmara com harmonias impressionistas e um claro perfil surrealista e cruzam espíritos tão díspares como Frank Zappa, Captain Beefheart, Erik Satie ou Igor Stravinsky.

Após o fim da banda, ambos os músicos enveredaram por carreiras individuais bem sucedidas, sobretudo Hector Zazou que se veio a tornar um dos mais inovadores e imprevisíveis compositores franceses, o que é demonstrado pela sua rica discografia a solo e as inúmeras colaborações criativas que foi estabelecendo com nomes como Bony Biyake, Ryuichi Sakamoto, John Cale, David Sylvian ou Bill Laswell.


O primeiro álbum da carreira dos ZNR, Barricade 3 (1977), foi gravado sob o signo de Erik Satie com recursos técnicos bastante modestos.

A herança espiritual de Satie torna-se evidente, desde logo, pelos títulos dos temas e as descrições dos instrumentos utilizados, como “Naive Description de la Formation d’Un Sentiment” ou “La Pointe de tes Seins est Comme Un Petale de Pavot”, que conta com Zazou no “piano eléctrico inspirado” no primeiro movimento. Ou, ainda, como em “Annie La Telie”, onde Racaille participa com “vocalizações desastradas” e “Solo Un Dia”, onde Fernan D’Arlès colabora com a sua “estranha e infalível bateria”.

Os temas são curtos e quase todos instrumentais e as poucas palavras, quando surgem, recordam os surrealistas e a tradição do cadáver esquisito, o que só aumenta o sentimento de estranheza. O som do álbum é dominado pela utilização dos sintetizadores VCS3 e ARP2600 (muito em voga nos meados da década de 70), piano eléctrico, instrumentos de sopro, vozes processadas e toda a sorte de experimentações sonoras, o que remete os ZNR para a família sonora de Pascal Comelade, com os seus instrumentos de brincar, ou dos Aksak Maboul, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração e minimalismo kitsch.

A envolvência dos sons extraídos dos sintetizadores e a delicadeza que emana dos instrumentos acústicos, com destaque para o saxofone e o clarinete, dão corpo a uma espécie de música de câmara demasiado bizarra para se tornar sentimental e tão próxima do brilhantismo como do mau gosto.


O segundo e último álbum da curta carreira dos ZNR, Traité de Mécanique Populaire (1978), continua assombrado pelo fantasma de Satie. Estilisticamente, não se afasta muito de Barricade 3, contudo, a sua audição permite vislumbrar um mundo sonoro predominantemente acústico. Os sintetizadores e as guitarras eléctricas dão lugar ao piano, às guitarras acústicas, ao violino e aos instrumentos de sopro como o saxofone e o clarinete. O baixo e o piano eléctricos surgem apenas ocasionalmente.

Temas curtos, arranjos simples, melodias melancólicas e títulos desconcertantes como “Memoire d’un Chien”, “Samedi pour les Sourds-Muets” ou “Dimanche, Concert Dansand au Profit des Paralysés”, fazem da música de Traité de Mécanique Populaire uma experiência a um só tempo exigente e relaxante.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

DER GOLEM, WIE ER IN DIE WELT KAM (PAUL WEGENER, 1920)

O Golem é um dos mais fascinantes mitos judaicos. Trata-se de uma criatura de barro (tal como Adão), concebida por artes mágicas para servir o seu criador.

Após ter realizado Der Student von Prag (1913), uma narrativa fantástica baseada na lenda de Fausto e num conto de Edgar Allan Poe, William Wilson (1839), Paul Wegener fez, entre 1914 e 1920, três filmes tendo o Golem por tema. O primeiro, Der Golem (1914), remete já para a temática do terror e do fantástico. A segunda, Der Golem und die Tänzerin (1917), considerada a primeira sequela da história do cinema, é uma fantasia ligeira onde o Golem contracena com uma bailarina. A primeira versão foi destruída durante a I Guerra Mundial e, da segunda, restam apenas cinco minutos numa cinemateca de Munique. A terceira versão, Der Golem, wie er in die Welt kam (1920), rodada nos estúdios da UFA e estreada em Berlim em 1926, retoma a história do rabi Loew tal como foi contada no romance Der Golem (1915) de Gustav Meyrink.

A acção do filme decorre na Praga do séc. XVI. O líder espiritual da comunidade judaica, o rabi Loew observa as estrelas e conclui que uma terrível ameaça paira sobre o seu povo. Quando o Imperador decreta a expulsão de todos os judeus da cidade, o rabi põe em prática os seus conhecimentos arcanos e invoca o demónio Astaroth que revela a palavra mágica e dá vida ao Golem, um ser feito a partir do barro cujo propósito é proteger os judeus dos seus agressores. O rabi e o Golem são recebidos em audiência no palácio do Imperador, para reivindicar a anulação do decreto mas as autoridades recusam-se a fazê-lo. O Palácio começa a ruir e o Golem sustém os pilares, salvando a vida do Imperador que, assim, decide perdoar os judeus. De volta a casa, o rabi retira o sopro de vida ao Golem. Mas o seu assistente, Famulus, devolve a vida ao Golem para derrotar o seu rival Florian, na conquista dos favores amorosos da filha do rabi, a bela Miriam. A criatura apaixona-se também por Miriam e começa a destruir tudo o que coloca no seu caminho, até que uma inocente menina põe termo à sua fúria.

Realizado, produzido e protagonizado por Paul Wegener, Der Golem, wie er in die Welt kam é uma obra-prima do expressionismo alemão e é considerado o verdadeiro precursor de todos os filmes de criaturas não humanas animadas. O sociólogo e crítico de cinema alemão Siegfried Kracauer destacou Der Golem, wie er in die Welt kam como um dos quatro mais significativos filmes da época arcaica da indústria cinematográfica alemã.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

DAVID SYLVIAN (SECRETS OF THE BEEHIVE, 1987)


O terceiro disco a solo de David Sylvian, Secrets of the Beehive (1987), um dos trabalhos mais aclamados da sua carreira e para muitos a sua obra-prima, reúne um naipe de músicos fabulosos (o multi-instrumentista Ryuichi Sakamoto, que contribui com magníficos arranjos de piano e cordas, os guitarristas David Torn e Phil Palmer, o trompetista Mark Isham, o baixista Danny Thompson e o percussionista Steve Jansen, ex-Japan e irmão de Sylvian) que nos oferecem um punhado de canções de uma beleza arrebatadora.

O que Secrets of the Beehive nos oferece é uma dezena de temas repletos de sugestões visuais assentes na voz profunda e sombria de David Sylvian e envoltas por orquestrações simples, salpicadas por ritmos matizados de jazz, guitarras acústicas, pianos e sopros, algures entre o experimentalismo, a música clássica e a música atmosférica.

Há momentos em que o apelo sensorial se torna mais evidente. Como na faixa de abertura, “September”, onde, por entre o piano e as cordas subtilmente desenhadas por Ryuichi Sakamoto, se adivinha o fim do Verão, ou “Let the Happiness In”, um sussurro melancólico a pairar sobre suaves arranjos de cordas, sublinhado pelos sopros de Isham e as delicadas notas de percussão de Jansen, onde é possível vislumbrar um optimismo em sublime crescendo. “Boy With a Gun” é uma folha rasgada do caderno de apontamentos de Jean Genet e “Maria” soa como se brotasse do fundo de um poço abandonado. E em “Waterfront” é como se estivéssemos à beira do desespero total.

As palavras de Sylvian acentuam o ambiente sombrio e intimista de todo o album, oscilando entre o desespero e a tranquilidade, o optimismo e a desolação: "we say that we're in love/but secretly wishing for rain" ("September"); "but all the hurdles that fell in our laps/were fuel for the fire and straw for our back" ("Orpheus"), "listen to the waves against the docks/I don't know where they've been/I'm waiting for the skies to open up/and let the happiness in" ("Let the Happiness In").

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Secrets of the Beehive encerra a primeira etapa a solo de David Sylvian e constitui o apogeu da dupla criativa que manteve com o japonês Ryuichi Sakamoto.



David Sylvian (David Batt) nasceu em Beckenham, Kent, Inglaterra, no dia 23 de Fevereiro de 1958. Com doze anos começou a tocar guitarra e com dezasseis fundou os Japan, banda que em oito anos de vida (1974-1982) editou cinco álbuns que elevaram a música pop à sua máxima expressão artística. Com a dissolução dos Japan enveredou por uma carreira a solo, que conciliou com colaborações com diversos artistas, tais como, Ryuichi Sakamoto, Holger Czukay e Robert Fripp, e com outras actividades paralelas, como a realização de filmes e a fotografia.

Ainda antes do projecto Japan ter chegado ao fim, Sylvian começou a trabalhar com o compositor Ryuichi Sakamoto, com quem gravou o single Bamboo Houses (1982), dando assim início a uma duradoura relação profissional.
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Em 1983 editou mais um single em parceria com Sakamoto, intitulado Forbidden Colours, composto para a banda sonora do filme Merry Christmas, Mr. Lawrence. No ano seguinte, lançou o seu primeiro álbum a solo, Brilliant Trees, que contou com a participação de Sakamoto e de John Hassell. Nesse mesmo ano, publicou o seu primeiro livro de fotografia, intitulado Perspectives: Polaroids 82/84.
 
Em 1985, realizou o filme-documentário Preparations For The Journey e editou o EP Words With The Shaman.

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No ano seguinte, chegou às lojas o duplo álbum Gone To Earth, gravado com a ajuda de Robert Fripp e Bill Nelson, ao qual sucedeu, em 1987, Secrets Of The Beehive.

Em 1988, trabalhou com o ex-Can Holger Czukay no álbum instrumental Plight And Premonition e, no ano seguinte, participou em Flux + Mutability, quase um disco dos
Can, com Czukay, Jaki Liebezeit e Michael Karoli.
 
Depois de, em 1991, ter participado na segunda encarnação dos Japan, sob a designação de Rain Tree Crow, pela qual lançou um disco homónimo, Sylvian reapareceu em 1993 com Robert Fripp para as gravações do álbum The First Day.

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Em 1999, lançou Dead Bees On A Cake, um disco fortemente aclamado pela crítica, e que marcou o regresso do músico às edições discográficas após um hiato de cinco anos.
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Everything And Nothing viu a luz do dia em 2000. Um disco em formato duplo que reúne os maiores êxitos de David Sylvian, e acrescenta ainda alguns trabalhos que, por um motivo ou por outro, foram soçobrando ao longo da sua carreira. Em 2002, foi editada a compilação Camphor, quase toda dedicada a temas instrumentais. Seguiu-se, no ano seguinte, o experimental Blemish, que conta com a participação de Derek Bailey e Fennesz.
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Em 2005 saiu o album The Good Son vs. The Only Daughter, constituído por remisturas dos temas de Blemish, e Snow Borne Sorrow, pelos Nine Horses, banda que junta David Sylvian, o seu irmão Steve Jansen, e os músicos Burnt Friedman, Arve Henriksen, Stina Nordenstam e Ryuichi Sakamoto.

Já em 2007, surgiu o EP Money For All, também dos Nine Horses, e When Loud Weather Buffeted Naoshima, constituído por setenta minutos de música feita por encomenda para uma instalação do Naoshima Fukutake Art Museum Foundation, da ilha japonesa de Naoshima.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

AUCH ZWERGE HABEN KLEIN ANGEFANGEN (WERNER HERZOG, 1970)


Even Dwarfs Started Small (Auch Zwerge Haben Klein Angefangen, 1970) é a segunda obra de ficção do cineasta alemão Werner Herzog e um dos mais bizarros filmes alguma vez feitos, tanto que foi rejeitado na Alemanha durante a fase de lançamento e banido em muitos outros países.

A acção do filme decorre numa colónia penal isolada cuja população é inteiramente constituída por anões. Em resposta à detenção de Pepe, os seus companheiros iniciam uma rebelião caótica contra a autoridade onde todos os símbolos de uma sociedade ordeira e civilizada são ridicularizados e deitados por terra.
 
O director da instituição, também ele um anão, é confinado ao seu gabinete e os prisioneiros desencadeiam uma orgia de actos irresponsáveis, num ciclo de violência desregrada, até mesmo contra os seus semelhantes. Sem qualquer tipo de plano preestabelecido ou liderança formal aceite por todos, o grupo de anões pressiona a única autoridade subjugada, através de actos de vandalismo que roçam o ridículo, todos de extrema crueldade: crucificam um macaco e levam-no em procissão; degolam galinhas e arremessam-nas através dos vidros das janelas; organizam lutas de galos; destroem e incendeiam toda a espécie de material da colónia; forçam o casamento dos dois anões mais pequenos do grupo e ridicularizam-nos numa espécie de noite de núpcias onde o noivo não consuma o acto pois, demasiado velho, pequeno e debilitado, não consegue subir para a cama…
 
Rodado na ilha de Lanzarote, cuja paisagem árida e desolada contribui para acentuar a atmosfera de pesadelo, medo e solidão que perpassa todas as imagens, o filme é uma ode à anarquia e um canto apologético, ainda que crítico, à diversidade e à revolução. Próximo do clássico de Tod Browning, Freaks (1932), com quem partilha a visão particular do outro, do diferente e do monstruoso, esta obra insólita deixa antever já algumas das marcas típicas que caracterizam o cinema de Herzog, seja nas personagens que se revoltam contra o sistema social vigente seja na desolação da paisagem como projecção terrena do sofrimento interior dos protagonistas.

sábado, 25 de agosto de 2007

ROGER “SYD” BARRETT (1946-2006)

It's awfully considerate of you to think of me here
And I'm much obliged to you for making it clear that I'm not here.
And I never knew the moon could be so big
And I never knew the moon could be so blue
And I'm grateful that you threw away my old shoes
And brought me here instead dressed in red
And I'm wondering who could be writing this song.

I don't care if the sun don't shine
And I don't care if nothing is mine
And I don't care if I'm nervous with you
I'll do my loving in the winter.

And the sea isn't green
And I love the queen
And what exactly is a dream
And what exactly is a joke.


Syd Barrett, "Jugband Blues", A Saucerful of Secrets, LP – Columbia, 1968.



Syd Barrett, fundador, vocalista e principal compositor da primeira etapa de vida dos Pink Floyd, morreu no dia 7 de Julho de 2006, na sua casa de Cambridge. Os jornais ingleses dizem que foi devido a um cancro, apesar de inicialmente se ter falado em complicações associadas à diabetes.

Roger Keith “Syd” Barrett nasceu em Cambridge, Inglaterra, a 6 de Janeiro de 1946. Na adolescência tocou em grupos de blues até ir para Londres, em 1964, com o vizinho Roger Waters — Barrett para estudar pintura na Camberwell School of Arts, Waters para seguir arquitectura no Regent Street Polytechnic. No ano seguinte fundou uma banda com Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright. O grupo foi baptizado a partir do nome de dois bluesman obscuros — Pink Anderson e Floyd Council.

A carreira de Barrett durou apenas nove anos, desde a fundação dos Floyd, em 1965, até à última vez que entrou num estúdio, em 1974. Gravou três singles e um álbum com os Pink Floyd — The Piper at The Gates of Dawn, editado em 1967, que se afirmou com a obra maior do psicadelismo. No segundo álbum da banda, A Saucerful of Secrets, publicado em Junho de 1968, participou apenas com o tema "Jugband Blues". A solo registou dois álbuns, The Madcap Laughs e Barrett, ambos de 1970, e Opel, publicado em 1988, constituído por sobras de anteriores sessões de gravação.

Pouco após a edição de The Piper at The Gates of Dawn começam a surgir os primeiros sinais de que algo de grave se passa com a saúde do músico. Num concerto não tocou senão um acorde. Num outro desafinou a guitarra ao som de Interstellar Overdrive. Quando a banda passou pelo American Brandstand, nos EUA, não abriu a boca durante o playback televisivo. Deixa de aparecer para os concertos e ensaios, o que forçou a banda a contratar o guitarrista David Gilmour, que conhecia Syd desde a adolescência, para o substituir. Após um curto período como quinteto, a saída de Barrett dos Pink Floyd é oficializada a 6 de Abril de 1968.

Em 1972 forma uma nova banda, os Stars, mas abandona-a pouco tempo depois. A disponibilidade de Barrett para as gravações vai-se deteriorando, as aparições ao vivo escasseando, até que se retira definitivamente para a casa de infância, em Cambridge, onde vive as três últimas décadas, pintando, cuidando do jardim e esquivando-se dos jornalistas e fãs que o abordavam.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

NIPPON KONCHUKI (SHOHEI IMAMURA, 1963)


Nippon konchuki (A Mulher Insecto, na versão portuguesa), realizado por uma das principais figuras do “novo cinema” japonês, o cineasta Shohei Imamura, percorre várias décadas da história do Japão através dos olhos de uma mulher (Sachiko Hidari, com uma brilhante interpretação que lhe valeu o prémio de Melhor Actriz no Festival de Berlim).

As primeiras imagens do filme mostram um insecto que tenta subir, cai e tenta de novo. A escalada deste insecto é uma metáfora da luta pela sobrevivência levada a cabo pela protagonista do filme, Tome Matsuki, uma camponesa com um passado de violência sexual e incesto. Durante a guerra, Tome ruma à cidade para trabalhar numa fábrica, envolve-se nas lutas sindicais, torna-se mãe solteira, dedica-se à prostituição, gere um prostíbulo e trabalha como empregada doméstica. Destroçada pelos amantes, enganada pelos empregados, abandonada pela filha, Tome persiste, apesar dos erros, tal como o insecto que vemos no início.

O tratamento dado à protagonista, uma verdadeira heroína, é algo inteiramente novo no até então moralista cinema japonês. O filme é o primeiro a romper com a imagem tradicional da mulher japonesa, submissa e sempre pronta a sacrificar-se pela família, tal como se pode ver em Ukigumo (Mikio Naruse, 1955) ou em Saikaku Ichidai Onna (Kenji Mizoguchi, 1952).

A rodagem em cenários naturais e a utilização de som directo, prática habitual nos trabalhos de Imamura, conferem a ilusão de espontaneidade à estrutura rígida de Nippon Konchuki.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

FAUST (THE FAUST TAPES, 1973)

[Faust circa 1972: Jochen, Zappi, Rudolf, Jean, Gunther]

O álbum The Faust Tapes, vendido originalmente a preço de single, contém uma compilação das gravações mais raras do arquivo privado dos Faust. Apresenta um cocktail de melodias pop pseudocanterburyanas como “Flasback Caruso” e “Der Baum”, psico-rock-repetitivo em "J'ai Mal Aux Dents", um monólogo surreal embalado por delicadas tramas de guitarra acústica no magnífico “Chére Chambre” e uma sequência de peças de curta duração: improvisações electroacústicas, ruídos ambientais, experiências minimais, colagens noise… Uma pequena obra-prima, deliciosamente extravagante, em forma de diário sonoro das sessões mais estranhas que a banda gravou em Wümme entre 1971 e 1973.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

YUKE YUKE NIDOME NO SHOJO (KOJI WAKAMATSU, 1969)

Yuke, Yuke, Nidome No Shojo (Koji Wakamatsu, 1969) acompanha a história insólita de dois adolescentes unidos por um passado de violência sexual e um estranho desejo de vingança. A acção decorre quase na sua totalidade no terraço de um edifício de apartamentos onde, ao cair da noite, uma jovem (Poppo) é vítima de uma violação em grupo. Ao invés de se afastar, Poppo permanece no terraço e é violada uma segunda vez. Em ambas as vezes, não mostra qualquer emoção, parecendo aceitar passivamente a humilhação a que está sujeita. Recusa-se a partir e faz do terraço a sua casa e do bando de abusadores a sua nova família. No terraço encontra-se outro jovem (Tsukio) que observa placidamente o decorrer dos acontecimentos sem esboçar qualquer intenção de intervir. Na manhã seguinte, Poppo e Tsukio começam a partilhar detalhes íntimos das suas vidas, incluindo o facto de Tsukio ter assassinado recentemente quatro pessoas que o forçaram a participar numa orgia e de Poppo ter sido violada continuadamente pelos seus pais. À medida que os dois jovens se enredam numa espiral de desilusão e tristeza, engendram a vingança para os crimes de que foram vítimas. E é então que decidem tomar a atitude que porá termo de uma vez por todas ao infortúnio das suas vidas.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

THE KÖLN CONCERT (KEITH JARRETT, 1975)


No dia 24 de Janeiro de 1975, perante uma Opera House de Colónia apinhada e ansiosa, Keith Jarrett sentou-se defronte do piano e entregou-se a um improviso que durou mais de uma hora. Dominado por uma inesgotável inspiração, teceu uma urdidura sobre a qual a melodia é minuciosamente trabalhada até atingir picos de exaltação, para depois baixar gradualmente de intensidade, até se tornar solene e caminhar em direcção a um ritmo rápido e repetitivo que a leva de volta ao início.

O talento improvisador de Jarrett conduz-nos através de uma música em permanente transformação, feita de transições brilhantemente resolvidas, em que o sentimento da descoberta vai a par de uma rara riqueza melódica e poética.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

LA JETÉE (CHRIS MARKER)


Num mundo devastado pela Terceira Guerra Mundial, os sobreviventes são obrigados a viver no subsolo. A única esperança para o renascimento da humanidade reside nas viagens no tempo e na mobilização de conhecimentos e fontes de energia advindas desse artifício. O escolhido para estas viagens é um homem assaltado por recordações de uma infância feliz na superfície, em tempos anteriores à guerra, quando costumava ser levado pelos pais para admirar os aviões no aeroporto de Orly.

Único filme de ficção “pura” de Chris Marker, La Jetée é uma curta-metragem constituída por uma sequência de imagens estáticas/fotografias a preto e branco acompanhadas por uma narração dos acontecimentos ou, como Marker o baptizou, um “foto-romance”.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

MAX ROACH (1924-2007)


O baterista Max Roach, um dos pioneiros do jazz moderno, morreu ontem em Nova Iorque aos 83 anos de idade, vítima de doença prolongada. Maxwell Lemuel Roach, nascido na Carolina do Norte em 10 de Janeiro de 1924 e criado no bairro nova-iorquino de Brooklyn, fica na história como um virtuoso da percussão e um dos reinventores do jazz moderno. As improvisações e inovações rítmicas que introduzia nas suas composições ajudaram a definir o som do bepop jazz nos anos 40. A sua atitude heterodoxa marcaria toda uma carreira, em que ultrapassou as fronteiras do jazz ao colaborar com coros de gospel, grupos de hip-hop, artistas plásticos e toda a sorte de iniciativas musicais. As suas primeiras actuações, com apenas 16 anos, abriram-lhe as portas do mítico Milton’s Playhouse do Harlem, onde travou conhecimento com o saxofonista Charlie Parker e o trompetista Dizzy Gillespie. Em 1944, Roach protagonizou uma das primeiras sessões de gravação de bepop ao lado de Gillespie e do saxofonista Coleman Hawkins. Também colaborou com Miles Davis e a Capiyol Orchestra em várias sessões de gravação. Envolveu-se directamente no movimento de defesa dos direitos civis dos negros norte-americanos com álbuns como We Insist! Freedom Now Suite, de 1960. Nos anos 70 tornou-se o primeiro músico de jazz a leccionar como professor titular de música na Universidade de Massachusetts, actividade que desempenhou até ao final dos anos 90. Permaneceu activo com o seu quarteto até ao ano de 2000. O seu último trabalho como compositor aconteceu em 2002, quando escreveu e interpretou a música do documentário How to Draw a Bunny, sobre o artista Ray Johnson.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

CHRONOPOLIS

Chronopolis
França,1977-82
Realização de Piotr Kamler e música de Luc Ferrari.


Chronopolis é uma cidade fabulosa perdida na imensidão do espaço. Para os seus habitantes, dotados de imortalidade, a única ocupação e fonte de prazer é fabricar tempo. Assim, inventam jogos enigmáticos, aproveitando cada momento de suas vidas. Mesmo com a monotonia da imortalidade, vivem na expectativa de um importante evento que possa colocá-los em contacto com algum ser humano. E fazem de tudo para que isso aconteça…

terça-feira, 14 de agosto de 2007

PIPILLOTI RIST

[Pipilotti Rist, Homo sapiens sapiens, 2005; Video-Audio-Installation, Church San Stae Venedig]

Pipilotti Rist é uma das artistas mais importantes e influentes da sua geração. De origem suíça (nasceu em Grabs, em 1962), estudou arte comercial, ilustração e fotografia, no Instituto de Artes Aplicadas de Viena (1982-86) e comunicação áudio-visual, na escola de Design em Basel (1986-88). Desenvolve o seu trabalho na área dos media e vídeo arte experimental. Com ajuda de efeitos especiais, distorções picturais e efeitos estéticos retirados dos videoclips, Pipilotti centra os seus temas no amor, morte, violência, nascimento e na experiência do quotidiano. Uma das características marcantes dos seus trabalhos, são as formas de expressão feminina, tais como o maquilhar-se e o vestir-se. Rist trabalha a partir destes clichés femininos, transformando-os em efeitos alucinantes. Pipilloti sempre se mostrou interessada em compreender como as pessoas comuns ocupam os espaços mais banais. Como, por exemplo, uma japonesa move uma cadeira de maneira diferente de uma americana. É este olhar sobre o comportamento do outro e o seu próprio, que motiva o trabalho de Pipilloti.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

NEW WEIRD AMERICA

[Devendra Banhart]

Psych Folk, Freak Folk, Free Folk ou New Weird America são designações para aquilo que pode ser descrito como um movimento musical que reúne, num mesmo rótulo, músicos e bandas influenciados por tradições e formas musicais tão diversas como o psicadelismo e a folk dos anos 60 e 70, o free jazz, a música electrónica, o tropicalismo e, claro, a folk americana, em especial a da primeira metade do século XX.


Foi em Agosto de 2003, na revista britânica Wire, que David Keenan baptizou o então emergente Free Folk como New Weird America, a propósito da reunião recente de um grupo de músicos apostados em revisitar as raízes da folk no Brattleboro Free Folk Festival.

Figura de proa deste movimento é o norte-americano
Devendra Banhart que em 2004 organizou para a Arthur Magazine aquela que é considerada a compilação definitiva da New Weird America — The Golden Apples of the Sun. Aqui se reúnem, para além do próprio Devendra Banhart, nomes como Vetiver, Joanna Newsom, Iron & Wine ou Six Organs Of Admittance.


DEVENDRA BANHART
The Golden Apples of the Sun"
(Bastet 0001)

This is a compilation of current underground folk music, as selected by Devendra Banhart. Features artwork and handlettering by Devendra on cover, back cover, sleeve, tray and the disk itself.
Track listing:

1.
Vetiver (with Hope Sandoval) - "Angel's Share"
2. Joanna Newsom - "
Bridges And Balloons"
3.
Six Organs of Admittance - "Hazy SF"
4. Viking Moses - "
Crosses"
5.
Josephine Foster - "Little Life"
6.
Espers - "Byss & Abyss"
7.
Vashti Bunyan & Devendra Banhart - "Rejoicing In The Hands"
8.
Jana Hunter - "Farm, CA"
9.
Currituck Co - "The Tropics Of Cancer"
10.
White Magic - "Don't Need"
11.
Iron & Wine - "Fever Dream"
12.
Diane Cluck - "Heat From Every Corner"
13. Matt Valentine - "Mountains of Yaffa"
14.
Entrance - "You Must Turn"
15.
Jack Rose - "White Mule"
16.
Little Wings - "Look At What The Light Did Now"
17.
Scout Niblett - "Wet Road"
18. Troll - "Mexicana"
19.
CocoRosie - "Good Friday"
20.
Antony - "The Lake"

EDITION INFORMATION
First Edition of 1000 copies
Second Edition of 1000 – SOLD OUT

+ info:
Freak Folk Flies High

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

16 POEMAS ZEN


[So Happy Together]

Para poder caminhar através do infinito vazio,
a vaca de aço deve transpirar.

A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos,
ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.

De tarde o galo anuncia a aurora,
brilha o sol vivamente à meia-noite.

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

Se tirares água, pensarás que as montanhas se movem;
se levantares o véu, verás a fuga das falésias.

Cantam à meia-noite os galos de madeira,
e os cães de palha ladram para o céu límpido.

Se acaso vires na rua um homem iluminado,
não o abordes com palavras, não o abordes com o silêncio.

Conduz o teu cavalo sobre o fio de uma espada,
oculta-te como puderes no meio das labaredas.

Há tantos anos vive o pássaro na gaiola
que hoje pode voar entre as nuvens.

Quando o peixe se move, turvam-se as águas;
quando o pássaro voa, uma pena.

No fundo das montanhas está guardado um tesouro
para aquele que nunca o procurar.

As colinas são azuis por elas mesmas;
por elas mesmas, brancas são as nuvens.

Sentada calmamente sem coisa alguma fazer
aparece a Primavera, e cresce a erva.

Os rochedos levantam-se no céu,
o fogo brilha no fundo da água.

Colhe flores, e as tuas vestes ficarão perfumadas;
tira água, e a lua estará nas tuas mãos.

O vento pára, as flores caem, um pássaro canta
— a montanha conserva o seu mistério.

Herberto Hélder

[O colectivo So Happy Together, trio composto pelas guitarras portuguesas mutantes de Vítor Rua e Nuno Rebelo e a voz da coreógrafa e dançarina Vera Mantero, musicou e interpretou os poemas. «A interpretação criativamente subversiva dos poemas, por parte de Vera Mantero, levou à necessidade de apresentar visualmente os poemas, sendo a projecção vídeo o meio escolhido para o fazer. Este facto deu origem a 16 animações vídeo criadas por Nuno Rebelo que, para além da função primeira de apresentarem os poemas na sua forma original, são também criadoras da cenografia do espectáculo numa lúdica interpretação plástica dos próprios poemas.» Dois dos vídeos estão acessíveis via YouTube e outros no MySpace.]

terça-feira, 7 de agosto de 2007

LEE HAZLEWOOD (1929-2007)


Kiss all the pretty ones goodbye
Give everyone a penny that cry
You can throw all my tranquil' pills away
Let my blood pressure go on its way
For my autumn's done come
My autumn's done come.


Lee Hazlewood, My Autumn's Done Come


Lee Hazlewood morreu no sábado, dia 4 de Agosto, em Henderson, Nevada, vítima de um cancro renal que já o afectava há três anos.

Barton Lee Hazlewood nasceu a 9 de Julho de 1929 numa pequena vila do Oklahoma. Começou a sua carreira musical como DJ em Coolidge, Arizona, onde colaborou com o guitarrista Duane Eddy e começou a escrever canções. Em 1955 criou a editora Viv Records e no ano seguinte passou a dedicar-se em exclusivo à produção e à composição. No início dos anos 60, montou a produtora discográfica LHI e editou o seu primeiro álbum a solo, Trouble is a Lonesome Town.

Nos meados dos anos 60, iniciou a colaboração com Nancy Sinatra, traduzida em temas como These Boots Were Made For Walking ou Some Velvet Morning e nos álbuns Nancy & Lee (1968) ou Nancy & Lee Again (1972).

No início dos anos 70, procurando evitar que o seu filho fosse mobilizado para a guerra no Vietname, fez as malas e partiu para a Suécia, onde continuou a gravar até ao esquecimento.

Redescoberto nos anos 90, por uma nova geração de músicos como Nick Cave, Lambchop ou Tindersticks, Lee Hazlewood ressuscitou. Regressou aos palcos e às gravações e alguns dos seus discos são reeditados em CD na editora do baterista dos Sonic Youth, Steve Shelley. No seu último álbum, Cake or Death, canta: “In this place they call forever/Will there be any songs to sing?” (“Nesse lugar a que chamam para sempre/Haverá canções para cantar?”).

domingo, 15 de julho de 2007

MOMMY, MOMMY, WHERE'S MY BRAIN?

1986, 10 minutes, 16mm
SCREENINGS

Asian American International Film Festival, SF
PS 1, Long Island City
PS 122, NYC
Millenium NYC
CREDITS
starring: Robert Erskine, Afshin Gharib, Fernanda Moore, Lawrence James
written, directed and produced by: Jon Moritsugu
















JON MORITSUGU was born in Honolulu, HI and attended Brown University, where he made the short DER ELVIS, chosen by the Village Voice as "one of the top 50 films of the 80's".
He has since completed six features and four more shorts which have screened worldwide to critical and popular acclaim. His most recent movie, SCUMROCK, has won two awards on the festival circuit and is currently being released theatrically in the US and Europe.
Moritsugu lives in Seattle, WA and is penning his newest script.

MOONDOG, O VIKING DA SEXTA AVENIDA


Moondog, de seu nome real Louis Thomas Hardin, nasceu em Marysville, Kansas, no dia 26 de Maio de 1916 e mudou-se cedo, com a família para Fort Bridger, Wyoming, onde viveu numa cabana de troncos de madeira como as dos pioneiros, pescou e caçou, ia à escola de cavalo e contactava com tribos nativas, recordando frequentemente o episódio em que, ainda criança, se sentou ao colo do chefe Yellow Calf e este o deixou tocar no taumtaum de pele de búfalo (experiência que acabaria por marcar a sua música mais tarde, tão frequentes que se tornariam as referências a ritmos nativos nas suas composições).

Depois de cegar, aos 16 anos, estudou música numa escola para cegos, mas a grande parte da sua formação teórica fê-la ele mesmo, lendo em Braille sobre história da música e teoria musical. Começou a escrever peças, compondo em Braille.

Em 1943 mudou-se para Nova Iorque onde contactou com nomes como Bernstein ou Toscanini, mais tarde com Charlie Parker e Benny Goodman. Exposto a novos horizontes, mas herdeiro de uma vivência invulgar, Moondog projectou a sua música num sentido visionário, trabalhando temas modais expandidos por técnicas de contraponto sofisticadas, antecipando formas mais tarde atribuídas ao pós-modernismo. Philip Glass e Steve Reich, mais tarde, apontaram em si a génese do minimalismo. De finais de 50 em diante a sua obra cresceu versátil, viva, surpreendente, plena de um sentido transversal a diversas visões e sensibilidades da América, das expressões eruditas contemporâneas ao jazz, da exploração da canção à velha admiração pela música nativa.

Com longas barbas e vestido à navegador viking, escudo e lança incluídos, segundo ele para se distinguir da “cristandade”, o seu aspecto físico teve correspondência na música que fez. Inventor e construtor de instrumentos, experimentador de soluções inéditas (foi dos primeiros a utilizar os sons ambiente como matéria musical, muito antes de se falar em “field recordings” ou em ecologia sonora), a perda da visão não o impediu de ser um visionário, antes pelo contrário, contribuiu até para que surgisse com uma voz única. A esquina da rua 54 com a Sexta Avenida, em Manhattan, era o seu paradeiro mais regular. Tanto que acabou designada como a "Moondog’s Corner". Apesar de reconhecido nos meios musicais, só depois de velho conheceu a atenção merecida, com actividade editorial e de palco mais intensa nos anos 70 a 90. Moondog morreu na Alemanha em 8 de Setembro de 1999. Tinha 83 anos.

Discografia
(Data: Título - Editora)

1949-1950: Snaketimes Rhythm - SMC
1949-1950: Moondog's Symphony - SMC
1949-1950: Organ Rounds - SMC
1949-1950: Obe Rounds - SMC
1953: Improvisations At A Jazz Concert - Brunswick
1953: Moondog And His Friends - Epic
1953: Moondog On The Streets Of New York - Decca/Mars
c. 1953: Surf Session - SMC
1954: New York 19 - Folkways
1955: Moondog And His Honking Geese - Moondog Records
1955: Jazztime USA - Brunswick
1956: Moondog/Caribea - Prestige
1956: Caribea - Moondog Records
1956: More Moondog - Prestige
1957: The Story Of Moondog - Prestige
1957: Tell It Again - Angel/Capital
1959: Moondog Suite - MGM
1969: Moondog - Columbia
1970: Fill Your Head With Rock - CBS
1970: Stamping Ground - CBS
1971: Moondog 11 - Columbia
1977: Moondog In Europe - Kopf
1978: Moondog - Selected Works - Musical Heritage Society
1978: H'Art Songs - Kopf
1978: Canons On The Keys - Unreleased
1979: A New Sound Of An Old Instrument - Kopf
1981: Facets - MC Managarm
1986: Bracelli - Kakaphone
1992: Elpmas - Kopf
1992: Moondog – Compilation - Columbia
1994: Sax Pax For A Sax - Kopf
1995: Big Band - Trimba
1995: Alphorn Of Plenty - Hat Art
1996: To A Grain Of Rice - Paradise Records
1997: Early Music - Nonesuch
1998: Trees Against The Sky - SHI-RA-Nui 360°
1998: The Big Lebowski - Mercury
2000: FSUK Vol. 3 - Unkown
2000: Moondog Vol. 1 & 2 - Beat Goes On
2000: Miniatures 2 - Cherry Red
2000: Noodle Shop Moon Dog Girl - Sparkling Beatnik