terça-feira, 28 de agosto de 2007

DAVID SYLVIAN (SECRETS OF THE BEEHIVE, 1987)


O terceiro disco a solo de David Sylvian, Secrets of the Beehive (1987), um dos trabalhos mais aclamados da sua carreira e para muitos a sua obra-prima, reúne um naipe de músicos fabulosos (o multi-instrumentista Ryuichi Sakamoto, que contribui com magníficos arranjos de piano e cordas, os guitarristas David Torn e Phil Palmer, o trompetista Mark Isham, o baixista Danny Thompson e o percussionista Steve Jansen, ex-Japan e irmão de Sylvian) que nos oferecem um punhado de canções de uma beleza arrebatadora.

O que Secrets of the Beehive nos oferece é uma dezena de temas repletos de sugestões visuais assentes na voz profunda e sombria de David Sylvian e envoltas por orquestrações simples, salpicadas por ritmos matizados de jazz, guitarras acústicas, pianos e sopros, algures entre o experimentalismo, a música clássica e a música atmosférica.

Há momentos em que o apelo sensorial se torna mais evidente. Como na faixa de abertura, “September”, onde, por entre o piano e as cordas subtilmente desenhadas por Ryuichi Sakamoto, se adivinha o fim do Verão, ou “Let the Happiness In”, um sussurro melancólico a pairar sobre suaves arranjos de cordas, sublinhado pelos sopros de Isham e as delicadas notas de percussão de Jansen, onde é possível vislumbrar um optimismo em sublime crescendo. “Boy With a Gun” é uma folha rasgada do caderno de apontamentos de Jean Genet e “Maria” soa como se brotasse do fundo de um poço abandonado. E em “Waterfront” é como se estivéssemos à beira do desespero total.

As palavras de Sylvian acentuam o ambiente sombrio e intimista de todo o album, oscilando entre o desespero e a tranquilidade, o optimismo e a desolação: "we say that we're in love/but secretly wishing for rain" ("September"); "but all the hurdles that fell in our laps/were fuel for the fire and straw for our back" ("Orpheus"), "listen to the waves against the docks/I don't know where they've been/I'm waiting for the skies to open up/and let the happiness in" ("Let the Happiness In").

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Secrets of the Beehive encerra a primeira etapa a solo de David Sylvian e constitui o apogeu da dupla criativa que manteve com o japonês Ryuichi Sakamoto.



David Sylvian (David Batt) nasceu em Beckenham, Kent, Inglaterra, no dia 23 de Fevereiro de 1958. Com doze anos começou a tocar guitarra e com dezasseis fundou os Japan, banda que em oito anos de vida (1974-1982) editou cinco álbuns que elevaram a música pop à sua máxima expressão artística. Com a dissolução dos Japan enveredou por uma carreira a solo, que conciliou com colaborações com diversos artistas, tais como, Ryuichi Sakamoto, Holger Czukay e Robert Fripp, e com outras actividades paralelas, como a realização de filmes e a fotografia.

Ainda antes do projecto Japan ter chegado ao fim, Sylvian começou a trabalhar com o compositor Ryuichi Sakamoto, com quem gravou o single Bamboo Houses (1982), dando assim início a uma duradoura relação profissional.
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Em 1983 editou mais um single em parceria com Sakamoto, intitulado Forbidden Colours, composto para a banda sonora do filme Merry Christmas, Mr. Lawrence. No ano seguinte, lançou o seu primeiro álbum a solo, Brilliant Trees, que contou com a participação de Sakamoto e de John Hassell. Nesse mesmo ano, publicou o seu primeiro livro de fotografia, intitulado Perspectives: Polaroids 82/84.
 
Em 1985, realizou o filme-documentário Preparations For The Journey e editou o EP Words With The Shaman.

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No ano seguinte, chegou às lojas o duplo álbum Gone To Earth, gravado com a ajuda de Robert Fripp e Bill Nelson, ao qual sucedeu, em 1987, Secrets Of The Beehive.

Em 1988, trabalhou com o ex-Can Holger Czukay no álbum instrumental Plight And Premonition e, no ano seguinte, participou em Flux + Mutability, quase um disco dos
Can, com Czukay, Jaki Liebezeit e Michael Karoli.
 
Depois de, em 1991, ter participado na segunda encarnação dos Japan, sob a designação de Rain Tree Crow, pela qual lançou um disco homónimo, Sylvian reapareceu em 1993 com Robert Fripp para as gravações do álbum The First Day.

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Em 1999, lançou Dead Bees On A Cake, um disco fortemente aclamado pela crítica, e que marcou o regresso do músico às edições discográficas após um hiato de cinco anos.
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Everything And Nothing viu a luz do dia em 2000. Um disco em formato duplo que reúne os maiores êxitos de David Sylvian, e acrescenta ainda alguns trabalhos que, por um motivo ou por outro, foram soçobrando ao longo da sua carreira. Em 2002, foi editada a compilação Camphor, quase toda dedicada a temas instrumentais. Seguiu-se, no ano seguinte, o experimental Blemish, que conta com a participação de Derek Bailey e Fennesz.
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Em 2005 saiu o album The Good Son vs. The Only Daughter, constituído por remisturas dos temas de Blemish, e Snow Borne Sorrow, pelos Nine Horses, banda que junta David Sylvian, o seu irmão Steve Jansen, e os músicos Burnt Friedman, Arve Henriksen, Stina Nordenstam e Ryuichi Sakamoto.

Já em 2007, surgiu o EP Money For All, também dos Nine Horses, e When Loud Weather Buffeted Naoshima, constituído por setenta minutos de música feita por encomenda para uma instalação do Naoshima Fukutake Art Museum Foundation, da ilha japonesa de Naoshima.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

AUCH ZWERGE HABEN KLEIN ANGEFANGEN (WERNER HERZOG, 1970)


Even Dwarfs Started Small (Auch Zwerge Haben Klein Angefangen, 1970) é a segunda obra de ficção do cineasta alemão Werner Herzog e um dos mais bizarros filmes alguma vez feitos, tanto que foi rejeitado na Alemanha durante a fase de lançamento e banido em muitos outros países.

A acção do filme decorre numa colónia penal isolada cuja população é inteiramente constituída por anões. Em resposta à detenção de Pepe, os seus companheiros iniciam uma rebelião caótica contra a autoridade onde todos os símbolos de uma sociedade ordeira e civilizada são ridicularizados e deitados por terra.
 
O director da instituição, também ele um anão, é confinado ao seu gabinete e os prisioneiros desencadeiam uma orgia de actos irresponsáveis, num ciclo de violência desregrada, até mesmo contra os seus semelhantes. Sem qualquer tipo de plano preestabelecido ou liderança formal aceite por todos, o grupo de anões pressiona a única autoridade subjugada, através de actos de vandalismo que roçam o ridículo, todos de extrema crueldade: crucificam um macaco e levam-no em procissão; degolam galinhas e arremessam-nas através dos vidros das janelas; organizam lutas de galos; destroem e incendeiam toda a espécie de material da colónia; forçam o casamento dos dois anões mais pequenos do grupo e ridicularizam-nos numa espécie de noite de núpcias onde o noivo não consuma o acto pois, demasiado velho, pequeno e debilitado, não consegue subir para a cama…
 
Rodado na ilha de Lanzarote, cuja paisagem árida e desolada contribui para acentuar a atmosfera de pesadelo, medo e solidão que perpassa todas as imagens, o filme é uma ode à anarquia e um canto apologético, ainda que crítico, à diversidade e à revolução. Próximo do clássico de Tod Browning, Freaks (1932), com quem partilha a visão particular do outro, do diferente e do monstruoso, esta obra insólita deixa antever já algumas das marcas típicas que caracterizam o cinema de Herzog, seja nas personagens que se revoltam contra o sistema social vigente seja na desolação da paisagem como projecção terrena do sofrimento interior dos protagonistas.

sábado, 25 de agosto de 2007

ROGER “SYD” BARRETT (1946-2006)

It's awfully considerate of you to think of me here
And I'm much obliged to you for making it clear that I'm not here.
And I never knew the moon could be so big
And I never knew the moon could be so blue
And I'm grateful that you threw away my old shoes
And brought me here instead dressed in red
And I'm wondering who could be writing this song.

I don't care if the sun don't shine
And I don't care if nothing is mine
And I don't care if I'm nervous with you
I'll do my loving in the winter.

And the sea isn't green
And I love the queen
And what exactly is a dream
And what exactly is a joke.


Syd Barrett, "Jugband Blues", A Saucerful of Secrets, LP – Columbia, 1968.



Syd Barrett, fundador, vocalista e principal compositor da primeira etapa de vida dos Pink Floyd, morreu no dia 7 de Julho de 2006, na sua casa de Cambridge. Os jornais ingleses dizem que foi devido a um cancro, apesar de inicialmente se ter falado em complicações associadas à diabetes.

Roger Keith “Syd” Barrett nasceu em Cambridge, Inglaterra, a 6 de Janeiro de 1946. Na adolescência tocou em grupos de blues até ir para Londres, em 1964, com o vizinho Roger Waters — Barrett para estudar pintura na Camberwell School of Arts, Waters para seguir arquitectura no Regent Street Polytechnic. No ano seguinte fundou uma banda com Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright. O grupo foi baptizado a partir do nome de dois bluesman obscuros — Pink Anderson e Floyd Council.

A carreira de Barrett durou apenas nove anos, desde a fundação dos Floyd, em 1965, até à última vez que entrou num estúdio, em 1974. Gravou três singles e um álbum com os Pink Floyd — The Piper at The Gates of Dawn, editado em 1967, que se afirmou com a obra maior do psicadelismo. No segundo álbum da banda, A Saucerful of Secrets, publicado em Junho de 1968, participou apenas com o tema "Jugband Blues". A solo registou dois álbuns, The Madcap Laughs e Barrett, ambos de 1970, e Opel, publicado em 1988, constituído por sobras de anteriores sessões de gravação.

Pouco após a edição de The Piper at The Gates of Dawn começam a surgir os primeiros sinais de que algo de grave se passa com a saúde do músico. Num concerto não tocou senão um acorde. Num outro desafinou a guitarra ao som de Interstellar Overdrive. Quando a banda passou pelo American Brandstand, nos EUA, não abriu a boca durante o playback televisivo. Deixa de aparecer para os concertos e ensaios, o que forçou a banda a contratar o guitarrista David Gilmour, que conhecia Syd desde a adolescência, para o substituir. Após um curto período como quinteto, a saída de Barrett dos Pink Floyd é oficializada a 6 de Abril de 1968.

Em 1972 forma uma nova banda, os Stars, mas abandona-a pouco tempo depois. A disponibilidade de Barrett para as gravações vai-se deteriorando, as aparições ao vivo escasseando, até que se retira definitivamente para a casa de infância, em Cambridge, onde vive as três últimas décadas, pintando, cuidando do jardim e esquivando-se dos jornalistas e fãs que o abordavam.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

NIPPON KONCHUKI (SHOHEI IMAMURA, 1963)


Nippon konchuki (A Mulher Insecto, na versão portuguesa), realizado por uma das principais figuras do “novo cinema” japonês, o cineasta Shohei Imamura, percorre várias décadas da história do Japão através dos olhos de uma mulher (Sachiko Hidari, com uma brilhante interpretação que lhe valeu o prémio de Melhor Actriz no Festival de Berlim).

As primeiras imagens do filme mostram um insecto que tenta subir, cai e tenta de novo. A escalada deste insecto é uma metáfora da luta pela sobrevivência levada a cabo pela protagonista do filme, Tome Matsuki, uma camponesa com um passado de violência sexual e incesto. Durante a guerra, Tome ruma à cidade para trabalhar numa fábrica, envolve-se nas lutas sindicais, torna-se mãe solteira, dedica-se à prostituição, gere um prostíbulo e trabalha como empregada doméstica. Destroçada pelos amantes, enganada pelos empregados, abandonada pela filha, Tome persiste, apesar dos erros, tal como o insecto que vemos no início.

O tratamento dado à protagonista, uma verdadeira heroína, é algo inteiramente novo no até então moralista cinema japonês. O filme é o primeiro a romper com a imagem tradicional da mulher japonesa, submissa e sempre pronta a sacrificar-se pela família, tal como se pode ver em Ukigumo (Mikio Naruse, 1955) ou em Saikaku Ichidai Onna (Kenji Mizoguchi, 1952).

A rodagem em cenários naturais e a utilização de som directo, prática habitual nos trabalhos de Imamura, conferem a ilusão de espontaneidade à estrutura rígida de Nippon Konchuki.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

FAUST (THE FAUST TAPES, 1973)

[Faust circa 1972: Jochen, Zappi, Rudolf, Jean, Gunther]

O álbum The Faust Tapes, vendido originalmente a preço de single, contém uma compilação das gravações mais raras do arquivo privado dos Faust. Apresenta um cocktail de melodias pop pseudocanterburyanas como “Flasback Caruso” e “Der Baum”, psico-rock-repetitivo em "J'ai Mal Aux Dents", um monólogo surreal embalado por delicadas tramas de guitarra acústica no magnífico “Chére Chambre” e uma sequência de peças de curta duração: improvisações electroacústicas, ruídos ambientais, experiências minimais, colagens noise… Uma pequena obra-prima, deliciosamente extravagante, em forma de diário sonoro das sessões mais estranhas que a banda gravou em Wümme entre 1971 e 1973.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

YUKE YUKE NIDOME NO SHOJO (KOJI WAKAMATSU, 1969)

Yuke, Yuke, Nidome No Shojo (Koji Wakamatsu, 1969) acompanha a história insólita de dois adolescentes unidos por um passado de violência sexual e um estranho desejo de vingança. A acção decorre quase na sua totalidade no terraço de um edifício de apartamentos onde, ao cair da noite, uma jovem (Poppo) é vítima de uma violação em grupo. Ao invés de se afastar, Poppo permanece no terraço e é violada uma segunda vez. Em ambas as vezes, não mostra qualquer emoção, parecendo aceitar passivamente a humilhação a que está sujeita. Recusa-se a partir e faz do terraço a sua casa e do bando de abusadores a sua nova família. No terraço encontra-se outro jovem (Tsukio) que observa placidamente o decorrer dos acontecimentos sem esboçar qualquer intenção de intervir. Na manhã seguinte, Poppo e Tsukio começam a partilhar detalhes íntimos das suas vidas, incluindo o facto de Tsukio ter assassinado recentemente quatro pessoas que o forçaram a participar numa orgia e de Poppo ter sido violada continuadamente pelos seus pais. À medida que os dois jovens se enredam numa espiral de desilusão e tristeza, engendram a vingança para os crimes de que foram vítimas. E é então que decidem tomar a atitude que porá termo de uma vez por todas ao infortúnio das suas vidas.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

THE KÖLN CONCERT (KEITH JARRETT, 1975)


No dia 24 de Janeiro de 1975, perante uma Opera House de Colónia apinhada e ansiosa, Keith Jarrett sentou-se defronte do piano e entregou-se a um improviso que durou mais de uma hora. Dominado por uma inesgotável inspiração, teceu uma urdidura sobre a qual a melodia é minuciosamente trabalhada até atingir picos de exaltação, para depois baixar gradualmente de intensidade, até se tornar solene e caminhar em direcção a um ritmo rápido e repetitivo que a leva de volta ao início.

O talento improvisador de Jarrett conduz-nos através de uma música em permanente transformação, feita de transições brilhantemente resolvidas, em que o sentimento da descoberta vai a par de uma rara riqueza melódica e poética.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

LA JETÉE (CHRIS MARKER)


Num mundo devastado pela Terceira Guerra Mundial, os sobreviventes são obrigados a viver no subsolo. A única esperança para o renascimento da humanidade reside nas viagens no tempo e na mobilização de conhecimentos e fontes de energia advindas desse artifício. O escolhido para estas viagens é um homem assaltado por recordações de uma infância feliz na superfície, em tempos anteriores à guerra, quando costumava ser levado pelos pais para admirar os aviões no aeroporto de Orly.

Único filme de ficção “pura” de Chris Marker, La Jetée é uma curta-metragem constituída por uma sequência de imagens estáticas/fotografias a preto e branco acompanhadas por uma narração dos acontecimentos ou, como Marker o baptizou, um “foto-romance”.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

MAX ROACH (1924-2007)


O baterista Max Roach, um dos pioneiros do jazz moderno, morreu ontem em Nova Iorque aos 83 anos de idade, vítima de doença prolongada. Maxwell Lemuel Roach, nascido na Carolina do Norte em 10 de Janeiro de 1924 e criado no bairro nova-iorquino de Brooklyn, fica na história como um virtuoso da percussão e um dos reinventores do jazz moderno. As improvisações e inovações rítmicas que introduzia nas suas composições ajudaram a definir o som do bepop jazz nos anos 40. A sua atitude heterodoxa marcaria toda uma carreira, em que ultrapassou as fronteiras do jazz ao colaborar com coros de gospel, grupos de hip-hop, artistas plásticos e toda a sorte de iniciativas musicais. As suas primeiras actuações, com apenas 16 anos, abriram-lhe as portas do mítico Milton’s Playhouse do Harlem, onde travou conhecimento com o saxofonista Charlie Parker e o trompetista Dizzy Gillespie. Em 1944, Roach protagonizou uma das primeiras sessões de gravação de bepop ao lado de Gillespie e do saxofonista Coleman Hawkins. Também colaborou com Miles Davis e a Capiyol Orchestra em várias sessões de gravação. Envolveu-se directamente no movimento de defesa dos direitos civis dos negros norte-americanos com álbuns como We Insist! Freedom Now Suite, de 1960. Nos anos 70 tornou-se o primeiro músico de jazz a leccionar como professor titular de música na Universidade de Massachusetts, actividade que desempenhou até ao final dos anos 90. Permaneceu activo com o seu quarteto até ao ano de 2000. O seu último trabalho como compositor aconteceu em 2002, quando escreveu e interpretou a música do documentário How to Draw a Bunny, sobre o artista Ray Johnson.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

CHRONOPOLIS

Chronopolis
França,1977-82
Realização de Piotr Kamler e música de Luc Ferrari.


Chronopolis é uma cidade fabulosa perdida na imensidão do espaço. Para os seus habitantes, dotados de imortalidade, a única ocupação e fonte de prazer é fabricar tempo. Assim, inventam jogos enigmáticos, aproveitando cada momento de suas vidas. Mesmo com a monotonia da imortalidade, vivem na expectativa de um importante evento que possa colocá-los em contacto com algum ser humano. E fazem de tudo para que isso aconteça…

terça-feira, 14 de agosto de 2007

PIPILLOTI RIST

[Pipilotti Rist, Homo sapiens sapiens, 2005; Video-Audio-Installation, Church San Stae Venedig]

Pipilotti Rist é uma das artistas mais importantes e influentes da sua geração. De origem suíça (nasceu em Grabs, em 1962), estudou arte comercial, ilustração e fotografia, no Instituto de Artes Aplicadas de Viena (1982-86) e comunicação áudio-visual, na escola de Design em Basel (1986-88). Desenvolve o seu trabalho na área dos media e vídeo arte experimental. Com ajuda de efeitos especiais, distorções picturais e efeitos estéticos retirados dos videoclips, Pipilotti centra os seus temas no amor, morte, violência, nascimento e na experiência do quotidiano. Uma das características marcantes dos seus trabalhos, são as formas de expressão feminina, tais como o maquilhar-se e o vestir-se. Rist trabalha a partir destes clichés femininos, transformando-os em efeitos alucinantes. Pipilloti sempre se mostrou interessada em compreender como as pessoas comuns ocupam os espaços mais banais. Como, por exemplo, uma japonesa move uma cadeira de maneira diferente de uma americana. É este olhar sobre o comportamento do outro e o seu próprio, que motiva o trabalho de Pipilloti.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

NEW WEIRD AMERICA

[Devendra Banhart]

Psych Folk, Freak Folk, Free Folk ou New Weird America são designações para aquilo que pode ser descrito como um movimento musical que reúne, num mesmo rótulo, músicos e bandas influenciados por tradições e formas musicais tão diversas como o psicadelismo e a folk dos anos 60 e 70, o free jazz, a música electrónica, o tropicalismo e, claro, a folk americana, em especial a da primeira metade do século XX.


Foi em Agosto de 2003, na revista britânica Wire, que David Keenan baptizou o então emergente Free Folk como New Weird America, a propósito da reunião recente de um grupo de músicos apostados em revisitar as raízes da folk no Brattleboro Free Folk Festival.

Figura de proa deste movimento é o norte-americano
Devendra Banhart que em 2004 organizou para a Arthur Magazine aquela que é considerada a compilação definitiva da New Weird America — The Golden Apples of the Sun. Aqui se reúnem, para além do próprio Devendra Banhart, nomes como Vetiver, Joanna Newsom, Iron & Wine ou Six Organs Of Admittance.


DEVENDRA BANHART
The Golden Apples of the Sun"
(Bastet 0001)

This is a compilation of current underground folk music, as selected by Devendra Banhart. Features artwork and handlettering by Devendra on cover, back cover, sleeve, tray and the disk itself.
Track listing:

1.
Vetiver (with Hope Sandoval) - "Angel's Share"
2. Joanna Newsom - "
Bridges And Balloons"
3.
Six Organs of Admittance - "Hazy SF"
4. Viking Moses - "
Crosses"
5.
Josephine Foster - "Little Life"
6.
Espers - "Byss & Abyss"
7.
Vashti Bunyan & Devendra Banhart - "Rejoicing In The Hands"
8.
Jana Hunter - "Farm, CA"
9.
Currituck Co - "The Tropics Of Cancer"
10.
White Magic - "Don't Need"
11.
Iron & Wine - "Fever Dream"
12.
Diane Cluck - "Heat From Every Corner"
13. Matt Valentine - "Mountains of Yaffa"
14.
Entrance - "You Must Turn"
15.
Jack Rose - "White Mule"
16.
Little Wings - "Look At What The Light Did Now"
17.
Scout Niblett - "Wet Road"
18. Troll - "Mexicana"
19.
CocoRosie - "Good Friday"
20.
Antony - "The Lake"

EDITION INFORMATION
First Edition of 1000 copies
Second Edition of 1000 – SOLD OUT

+ info:
Freak Folk Flies High

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

16 POEMAS ZEN


[So Happy Together]

Para poder caminhar através do infinito vazio,
a vaca de aço deve transpirar.

A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos,
ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.

De tarde o galo anuncia a aurora,
brilha o sol vivamente à meia-noite.

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

Se tirares água, pensarás que as montanhas se movem;
se levantares o véu, verás a fuga das falésias.

Cantam à meia-noite os galos de madeira,
e os cães de palha ladram para o céu límpido.

Se acaso vires na rua um homem iluminado,
não o abordes com palavras, não o abordes com o silêncio.

Conduz o teu cavalo sobre o fio de uma espada,
oculta-te como puderes no meio das labaredas.

Há tantos anos vive o pássaro na gaiola
que hoje pode voar entre as nuvens.

Quando o peixe se move, turvam-se as águas;
quando o pássaro voa, uma pena.

No fundo das montanhas está guardado um tesouro
para aquele que nunca o procurar.

As colinas são azuis por elas mesmas;
por elas mesmas, brancas são as nuvens.

Sentada calmamente sem coisa alguma fazer
aparece a Primavera, e cresce a erva.

Os rochedos levantam-se no céu,
o fogo brilha no fundo da água.

Colhe flores, e as tuas vestes ficarão perfumadas;
tira água, e a lua estará nas tuas mãos.

O vento pára, as flores caem, um pássaro canta
— a montanha conserva o seu mistério.

Herberto Hélder

[O colectivo So Happy Together, trio composto pelas guitarras portuguesas mutantes de Vítor Rua e Nuno Rebelo e a voz da coreógrafa e dançarina Vera Mantero, musicou e interpretou os poemas. «A interpretação criativamente subversiva dos poemas, por parte de Vera Mantero, levou à necessidade de apresentar visualmente os poemas, sendo a projecção vídeo o meio escolhido para o fazer. Este facto deu origem a 16 animações vídeo criadas por Nuno Rebelo que, para além da função primeira de apresentarem os poemas na sua forma original, são também criadoras da cenografia do espectáculo numa lúdica interpretação plástica dos próprios poemas.» Dois dos vídeos estão acessíveis via YouTube e outros no MySpace.]

terça-feira, 7 de agosto de 2007

LEE HAZLEWOOD (1929-2007)


Kiss all the pretty ones goodbye
Give everyone a penny that cry
You can throw all my tranquil' pills away
Let my blood pressure go on its way
For my autumn's done come
My autumn's done come.


Lee Hazlewood, My Autumn's Done Come


Lee Hazlewood morreu no sábado, dia 4 de Agosto, em Henderson, Nevada, vítima de um cancro renal que já o afectava há três anos.

Barton Lee Hazlewood nasceu a 9 de Julho de 1929 numa pequena vila do Oklahoma. Começou a sua carreira musical como DJ em Coolidge, Arizona, onde colaborou com o guitarrista Duane Eddy e começou a escrever canções. Em 1955 criou a editora Viv Records e no ano seguinte passou a dedicar-se em exclusivo à produção e à composição. No início dos anos 60, montou a produtora discográfica LHI e editou o seu primeiro álbum a solo, Trouble is a Lonesome Town.

Nos meados dos anos 60, iniciou a colaboração com Nancy Sinatra, traduzida em temas como These Boots Were Made For Walking ou Some Velvet Morning e nos álbuns Nancy & Lee (1968) ou Nancy & Lee Again (1972).

No início dos anos 70, procurando evitar que o seu filho fosse mobilizado para a guerra no Vietname, fez as malas e partiu para a Suécia, onde continuou a gravar até ao esquecimento.

Redescoberto nos anos 90, por uma nova geração de músicos como Nick Cave, Lambchop ou Tindersticks, Lee Hazlewood ressuscitou. Regressou aos palcos e às gravações e alguns dos seus discos são reeditados em CD na editora do baterista dos Sonic Youth, Steve Shelley. No seu último álbum, Cake or Death, canta: “In this place they call forever/Will there be any songs to sing?” (“Nesse lugar a que chamam para sempre/Haverá canções para cantar?”).