sexta-feira, 24 de agosto de 2007

NIPPON KONCHUKI (SHOHEI IMAMURA, 1963)


Nippon konchuki (A Mulher Insecto, na versão portuguesa), realizado por uma das principais figuras do “novo cinema” japonês, o cineasta Shohei Imamura, percorre várias décadas da história do Japão através dos olhos de uma mulher (Sachiko Hidari, com uma brilhante interpretação que lhe valeu o prémio de Melhor Actriz no Festival de Berlim).

As primeiras imagens do filme mostram um insecto que tenta subir, cai e tenta de novo. A escalada deste insecto é uma metáfora da luta pela sobrevivência levada a cabo pela protagonista do filme, Tome Matsuki, uma camponesa com um passado de violência sexual e incesto. Durante a guerra, Tome ruma à cidade para trabalhar numa fábrica, envolve-se nas lutas sindicais, torna-se mãe solteira, dedica-se à prostituição, gere um prostíbulo e trabalha como empregada doméstica. Destroçada pelos amantes, enganada pelos empregados, abandonada pela filha, Tome persiste, apesar dos erros, tal como o insecto que vemos no início.

O tratamento dado à protagonista, uma verdadeira heroína, é algo inteiramente novo no até então moralista cinema japonês. O filme é o primeiro a romper com a imagem tradicional da mulher japonesa, submissa e sempre pronta a sacrificar-se pela família, tal como se pode ver em Ukigumo (Mikio Naruse, 1955) ou em Saikaku Ichidai Onna (Kenji Mizoguchi, 1952).

A rodagem em cenários naturais e a utilização de som directo, prática habitual nos trabalhos de Imamura, conferem a ilusão de espontaneidade à estrutura rígida de Nippon Konchuki.

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