domingo, 23 de setembro de 2007

ROBERT VAN ACKEREN (DAS ANDERE LÄCHELN, 1978)

Robert van Ackeren pertence ao grupo de cineastas que mais renovaram o cinema alemão nas últimas décadas mas, ao contrário de Fassbinder ou Wim Wenders, revela um gosto exacerbado pelo melodrama que, não raro, o conduz às relações mais secretas e enigmáticas dos corpos.

Nos seus filmes, sempre empenhados em mostrar o normal de um modo estranho, as mulheres rompem por acaso com o absurdo do quotidiano para darem largas a todos os seus desejos mais íntimos.

Por outro lado, o cinema de Robert van Ackeren é marcado pela análise, a um tempo materialista e apaixonada, das relações entre o homem e a mulher. Die Reinheit des Herzens (1979), por exemplo, é um delírio apoteótico acerca de um homem que pede à sua mulher que o traia com outro homem e, em Die Flambierte Frau (1983), uma mulher aspira à pacatez de uma vida burguesa ao mesmo tempo que se entrega aos prazeres sadomasoquistas.


O Outro Sorriso (Das Andere Lächeln, 1978), dá-nos a conhecer Irma, uma bela mulher casada com um negociante de bebidas que, cansada da rotina da vida conjugal e das festas que é obrigada a dar em casa, decide subverter os rituais sociais do marido. Um dia decide convidar a sua amiga Ellen, empregada numa farmácia, a viver em sua casa e a partilhar o quotidiano da família. A pouco e pouco dá-se um estranho fenómeno: Irma e Ellen vão trocando os respectivos papéis.

domingo, 16 de setembro de 2007

KLUTE (ALAN J. PAKULA) 1971

Tom Gruneman, um cientista de uma empresa da Pensilvânia, desaparece misteriosamente de sua casa. A única pista encontrada resume-se a uma carta dactilografada que contém linguagem sexualmente explícita que este homem de família aparentemente feliz terá enviado a uma call girl de Nova Iorque, chamada Bree Daniel. Após seis meses de infrutíferas investigações, John Klute, um jovem detective de polícia de uma pequena cidade de província, abandona a corporação para, por conta da firma para quem o cientista trabalhava e da sua família, de quem é amigo pessoal, continuar sozinho as investigações.

A sua primeira ideia é abordar Bree em Nova Iorque, mas o resultado é nulo. Aluga, então, um quarto no seu sórdido prédio e passa a vigiar cautelosamente todos os passos da rapariga. E, pouco a pouco, Klute vai penetrando num universo desconcertante, desesperante, amargo e violento, que o vai igualmente contagiando.

Klute é, antes de mais, um thriller inteligente e envolvente, primorosamente realizado por Alan J. Pakula, que nos anos seguintes se iria confirmar como um grande realizador na área do policial e do thriller político.

O filme conta com duas grandes interpretações de Jane Fonda (que venceu o Óscar de melhor actriz) e Donald Sutherland, servidas por uma mise en scène atenta, rigorosa e milimétrica, construída sobre jogos de sombras e aparências, numa sociedade de aparências sombrias.

domingo, 9 de setembro de 2007

KÖRKARLEN (1920)

Körkarlen (1920) foi realizado por Victor Sjöström, um dos pioneiros do cinema mudo sueco. Baseado no romance homónimo de Selma Lagerlöf, conta a história de uma lenda sueca segundo a qual um macabro veículo que recolhe as almas dos mortos até ao Além é conduzido pelo último ser humano que morre em estado de pecado na noite do Ano Novo. Esta maldição implica ser testemunha, durante um ano inteiro, da cruel injustiça da Morte e do profundo desespero dos moribundos. Tal sorte caberá a David Holm (brilhantemente interpretado por Sjöström), um alcoólico odioso e autodestrutivo que morre momentos antes de soarem as doze badaladas enquanto aguarda com dois companheiros a chegada do Ano Novo. Assolado por um sentimento de culpa buscará a redenção dos seus pecados, mesmo estando no Além.

Um dos aspectos mais marcantes e originais da estrutura narrativa de Körkarlen resulta da utilização de uma série de flashbacks e, até, de flashbacks dentro de flashbacks que vão desvendando, de um modo não linear ou cronológico mas antes em função dos estados emocionais das personagens, as relações que estas mantêm entre si. Através desta técnica, quase inaudita para a época, Sjöström consegue tornar o enredo do filme complexo, mas de fácil compreensão.

Do ponto de vista formal, Körkarlen destaca-se pelo uso de uma sucessão de exposições duplas que materializam os episódios mais fantásticos: a chegada da carruagem envolta em nevoeiro, a imagem fantasmagórica do seu condutor, o périplo nocturno do veículo recolhendo as almas dos mortos, o encontro entre o fantasma de David e a enfermeira agonizante. O êxito arrebatador que o filme obteve ficou a dever-se, também, ao domínio perfeito da montagem paralela, ao rigor demonstrado no enquadramento e composição dos planos, ao elaborado tratamento fotográfico, à excelência dos encadeamentos da acção e à subtil mistura da dimensão onírica e fantástica da história com o realismo descritivo aplicado ao mundo rural do séc. XIX.

O perfeccionismo de Sjöström e do director de fotografia, Julius Jaenzus, e a complexidade das técnicas utilizadas levaram a que o filme, rodado em Maio de 1920, só estreasse na véspera do Ano Novo de 1921 — escolha da data não terá sido inocente!

Körkarlen pode ser colocado a par de outras grandes obras como Broken Blossoms (1919), de D. W. Griffith, Sunrise (1927), de Friedrich Wilhelm Murnau, ou La Passion de Jeanne d'Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer, todos eles tributos gloriosos à dignidade de um estilo cinematográfico marcado por um carácter experimental e inovador, fruto da visão pessoal dos seus criadores.

Ingmar Bergman, que considerava Victor Sjöström um dos seus mestres, disse que via o filme pelo menos uma vez por ano.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

ZNR (ZAZOU’N’RACAILLE)

Os ZNR, banda liderada pelos excêntricos franceses Hector Zazou e Joseph Racaille, foram uma das formações musicais mais bizarras de todos os tempos. Lançaram apenas dois álbuns na segunda metade da década de 70 do século passado, onde misturam ao rock e ao jazz a música de câmara com harmonias impressionistas e um claro perfil surrealista e cruzam espíritos tão díspares como Frank Zappa, Captain Beefheart, Erik Satie ou Igor Stravinsky.

Após o fim da banda, ambos os músicos enveredaram por carreiras individuais bem sucedidas, sobretudo Hector Zazou que se veio a tornar um dos mais inovadores e imprevisíveis compositores franceses, o que é demonstrado pela sua rica discografia a solo e as inúmeras colaborações criativas que foi estabelecendo com nomes como Bony Biyake, Ryuichi Sakamoto, John Cale, David Sylvian ou Bill Laswell.


O primeiro álbum da carreira dos ZNR, Barricade 3 (1977), foi gravado sob o signo de Erik Satie com recursos técnicos bastante modestos.

A herança espiritual de Satie torna-se evidente, desde logo, pelos títulos dos temas e as descrições dos instrumentos utilizados, como “Naive Description de la Formation d’Un Sentiment” ou “La Pointe de tes Seins est Comme Un Petale de Pavot”, que conta com Zazou no “piano eléctrico inspirado” no primeiro movimento. Ou, ainda, como em “Annie La Telie”, onde Racaille participa com “vocalizações desastradas” e “Solo Un Dia”, onde Fernan D’Arlès colabora com a sua “estranha e infalível bateria”.

Os temas são curtos e quase todos instrumentais e as poucas palavras, quando surgem, recordam os surrealistas e a tradição do cadáver esquisito, o que só aumenta o sentimento de estranheza. O som do álbum é dominado pela utilização dos sintetizadores VCS3 e ARP2600 (muito em voga nos meados da década de 70), piano eléctrico, instrumentos de sopro, vozes processadas e toda a sorte de experimentações sonoras, o que remete os ZNR para a família sonora de Pascal Comelade, com os seus instrumentos de brincar, ou dos Aksak Maboul, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração e minimalismo kitsch.

A envolvência dos sons extraídos dos sintetizadores e a delicadeza que emana dos instrumentos acústicos, com destaque para o saxofone e o clarinete, dão corpo a uma espécie de música de câmara demasiado bizarra para se tornar sentimental e tão próxima do brilhantismo como do mau gosto.


O segundo e último álbum da curta carreira dos ZNR, Traité de Mécanique Populaire (1978), continua assombrado pelo fantasma de Satie. Estilisticamente, não se afasta muito de Barricade 3, contudo, a sua audição permite vislumbrar um mundo sonoro predominantemente acústico. Os sintetizadores e as guitarras eléctricas dão lugar ao piano, às guitarras acústicas, ao violino e aos instrumentos de sopro como o saxofone e o clarinete. O baixo e o piano eléctricos surgem apenas ocasionalmente.

Temas curtos, arranjos simples, melodias melancólicas e títulos desconcertantes como “Memoire d’un Chien”, “Samedi pour les Sourds-Muets” ou “Dimanche, Concert Dansand au Profit des Paralysés”, fazem da música de Traité de Mécanique Populaire uma experiência a um só tempo exigente e relaxante.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

DER GOLEM, WIE ER IN DIE WELT KAM (PAUL WEGENER, 1920)

O Golem é um dos mais fascinantes mitos judaicos. Trata-se de uma criatura de barro (tal como Adão), concebida por artes mágicas para servir o seu criador.

Após ter realizado Der Student von Prag (1913), uma narrativa fantástica baseada na lenda de Fausto e num conto de Edgar Allan Poe, William Wilson (1839), Paul Wegener fez, entre 1914 e 1920, três filmes tendo o Golem por tema. O primeiro, Der Golem (1914), remete já para a temática do terror e do fantástico. A segunda, Der Golem und die Tänzerin (1917), considerada a primeira sequela da história do cinema, é uma fantasia ligeira onde o Golem contracena com uma bailarina. A primeira versão foi destruída durante a I Guerra Mundial e, da segunda, restam apenas cinco minutos numa cinemateca de Munique. A terceira versão, Der Golem, wie er in die Welt kam (1920), rodada nos estúdios da UFA e estreada em Berlim em 1926, retoma a história do rabi Loew tal como foi contada no romance Der Golem (1915) de Gustav Meyrink.

A acção do filme decorre na Praga do séc. XVI. O líder espiritual da comunidade judaica, o rabi Loew observa as estrelas e conclui que uma terrível ameaça paira sobre o seu povo. Quando o Imperador decreta a expulsão de todos os judeus da cidade, o rabi põe em prática os seus conhecimentos arcanos e invoca o demónio Astaroth que revela a palavra mágica e dá vida ao Golem, um ser feito a partir do barro cujo propósito é proteger os judeus dos seus agressores. O rabi e o Golem são recebidos em audiência no palácio do Imperador, para reivindicar a anulação do decreto mas as autoridades recusam-se a fazê-lo. O Palácio começa a ruir e o Golem sustém os pilares, salvando a vida do Imperador que, assim, decide perdoar os judeus. De volta a casa, o rabi retira o sopro de vida ao Golem. Mas o seu assistente, Famulus, devolve a vida ao Golem para derrotar o seu rival Florian, na conquista dos favores amorosos da filha do rabi, a bela Miriam. A criatura apaixona-se também por Miriam e começa a destruir tudo o que coloca no seu caminho, até que uma inocente menina põe termo à sua fúria.

Realizado, produzido e protagonizado por Paul Wegener, Der Golem, wie er in die Welt kam é uma obra-prima do expressionismo alemão e é considerado o verdadeiro precursor de todos os filmes de criaturas não humanas animadas. O sociólogo e crítico de cinema alemão Siegfried Kracauer destacou Der Golem, wie er in die Welt kam como um dos quatro mais significativos filmes da época arcaica da indústria cinematográfica alemã.