quinta-feira, 6 de setembro de 2007

ZNR (ZAZOU’N’RACAILLE)

Os ZNR, banda liderada pelos excêntricos franceses Hector Zazou e Joseph Racaille, foram uma das formações musicais mais bizarras de todos os tempos. Lançaram apenas dois álbuns na segunda metade da década de 70 do século passado, onde misturam ao rock e ao jazz a música de câmara com harmonias impressionistas e um claro perfil surrealista e cruzam espíritos tão díspares como Frank Zappa, Captain Beefheart, Erik Satie ou Igor Stravinsky.

Após o fim da banda, ambos os músicos enveredaram por carreiras individuais bem sucedidas, sobretudo Hector Zazou que se veio a tornar um dos mais inovadores e imprevisíveis compositores franceses, o que é demonstrado pela sua rica discografia a solo e as inúmeras colaborações criativas que foi estabelecendo com nomes como Bony Biyake, Ryuichi Sakamoto, John Cale, David Sylvian ou Bill Laswell.


O primeiro álbum da carreira dos ZNR, Barricade 3 (1977), foi gravado sob o signo de Erik Satie com recursos técnicos bastante modestos.

A herança espiritual de Satie torna-se evidente, desde logo, pelos títulos dos temas e as descrições dos instrumentos utilizados, como “Naive Description de la Formation d’Un Sentiment” ou “La Pointe de tes Seins est Comme Un Petale de Pavot”, que conta com Zazou no “piano eléctrico inspirado” no primeiro movimento. Ou, ainda, como em “Annie La Telie”, onde Racaille participa com “vocalizações desastradas” e “Solo Un Dia”, onde Fernan D’Arlès colabora com a sua “estranha e infalível bateria”.

Os temas são curtos e quase todos instrumentais e as poucas palavras, quando surgem, recordam os surrealistas e a tradição do cadáver esquisito, o que só aumenta o sentimento de estranheza. O som do álbum é dominado pela utilização dos sintetizadores VCS3 e ARP2600 (muito em voga nos meados da década de 70), piano eléctrico, instrumentos de sopro, vozes processadas e toda a sorte de experimentações sonoras, o que remete os ZNR para a família sonora de Pascal Comelade, com os seus instrumentos de brincar, ou dos Aksak Maboul, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração e minimalismo kitsch.

A envolvência dos sons extraídos dos sintetizadores e a delicadeza que emana dos instrumentos acústicos, com destaque para o saxofone e o clarinete, dão corpo a uma espécie de música de câmara demasiado bizarra para se tornar sentimental e tão próxima do brilhantismo como do mau gosto.


O segundo e último álbum da curta carreira dos ZNR, Traité de Mécanique Populaire (1978), continua assombrado pelo fantasma de Satie. Estilisticamente, não se afasta muito de Barricade 3, contudo, a sua audição permite vislumbrar um mundo sonoro predominantemente acústico. Os sintetizadores e as guitarras eléctricas dão lugar ao piano, às guitarras acústicas, ao violino e aos instrumentos de sopro como o saxofone e o clarinete. O baixo e o piano eléctricos surgem apenas ocasionalmente.

Temas curtos, arranjos simples, melodias melancólicas e títulos desconcertantes como “Memoire d’un Chien”, “Samedi pour les Sourds-Muets” ou “Dimanche, Concert Dansand au Profit des Paralysés”, fazem da música de Traité de Mécanique Populaire uma experiência a um só tempo exigente e relaxante.

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