terça-feira, 16 de outubro de 2007

LES PARENTS TERRIBLES (JEAN COCTEAU, 1948)

Yvonne, que tem a alcunha de Sophie, é mãe de Michel, um adolescente bem-parecido por quem ela nutre uma obsessão incestuosa. Michel é um jovem simpático mas, estragado com mimos, desenvolveu uma personalidade fortemente egoísta. O pai de Michel, Georges, é um ser fraco e mulherengo, por quem Léonie, irmã da sua mulher, está secretamente apaixonada. Finalmente, Madeleine, a rapariga com quem Michel tem um romance, é, igualmente, protegida de Georges, embora não saiba que este é o pai de Michel.

Madeleine vai ser o elemento perturbador que destrói o precário equilíbrio em que vive esta família, quando as suas relações com os homens da casa se tornam conhecidas. Os pais e a tia de Michel conspiram e montam entre si uma formidável intriga, de forma a destruir o romance entre Michel e Madeleine. Tudo se resolve, porém, quando Léonie muda de partido na disputa e Sophie se suicida.


Realizado por Jean Cocteau em 1948, Les Parents Terribles é uma rigorosa, inteligente e elaborada adaptação para cinema de uma peça de teatro da autoria do próprio Cocteau que é, em síntese, um estudo sinuoso de uma família neurótica da classe média, construído em cinema de um modo muito teatral, de maneira a manter a mesma atmosfera claustrofóbica e tensa.


Les Parents Terribles mantém a estrutura em três actos da peça no qual se baseia e desenrola-se apenas em dois décors, com cinco personagens. Contudo, graças a um excepcional tratamento fotográfico e a um rigoroso trabalho de câmara e de montagem, Cocteau transforma o filme numa experiência totalmente diferente daquela que consiste em assistir a uma encenação teatral. O génio criativo de Cocteau revela-se, por exemplo, no modo como tira partido dos dois décors para definir a linha narrativa do filme e acrescentar profundidade aos personagens. Ao contrário do moderno e amplo apartamento de Madeleine onde o jovem amor floresce, Michel e os seus terríveis pais vivem num esquálido apartamento, cujo ambiente claustrofóbico sublinha a natureza tensa e repressiva das relações entre os seus ocupantes.


Les Parents Terribles é o quarto grande trabalho cinematográfico de Cocteau e se visualmente não impressiona tanto como os anteriores, nada lhes fica a dever em densidade poética.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

REPULSION (ROMAN POLANSKI, 1965)

Carol Ledoux é uma jovem belga que vive e trabalha em Londres, onde partilha um apartamento com a sua irmã Helen. Introvertida e dada a momentos de pura abstracção, Carol sente-se oprimida pela constante presença de Michael, o namorado da irmã, e passa a vida a queixar-se dos seus objectos pessoais, como a navalha de barbear e a escova de dentes. Colin, um jovem apaixonado por Carol, é incapaz de compreender e aceitar a sua frieza e indiferença.

Quando Helen e o namorado partem de férias para Itália, Carol entra rapidamente num estado de apatia que a conduzirá a uma espiral descendente de loucura. É despedida do emprego, fecha-se em casa, desliga o telefone e mergulha num total estado de depressão alucinada marcada por uma profunda aversão à figura masculina.


Colin, preocupado com o aparente desaparecimento de Carol, força a entrada do apartamento e ela, assustada, mata-o, lança o corpo na banheira e volta a barricar-se. Mais tarde, chega o senhorio para cobrar a renda e é, também, morto.


Repulsion é um dos filmes mais marcantes da carreira de Roman Polanski e a sua primeira obra importante realizada fora da Polónia. Trata-se de um filme de “terror psicológico” ou “drama psicológico” povoado por elementos fantásticos e oníricos, onde Polanski expõe de maneira magistral a gradual degradação psicológica de Carol, brilhantemente interpretada por Catherine Deneuve, quer seja através das rachas das paredes do apartamento que aumentam cada vez que o pânico a assalta e do aspecto orgânico, semelhante a barro, dessas mesmas paredes que retêm em si as marcas das suas mãos e do seu rosto, quer seja pelas mãos que brotam das paredes de um corredor e se esticam para a tocar e agarrar. Um trabalho de câmara magnífico, dominado pelo uso inventivo de planos subjectivos e os repetidos grandes planos do rosto da protagonista, a sensação de desassossego imprimida pelos ínfimos detalhes sonoros, a genial partitura de Chico Hamilton e a soberba fotografia a preto e branco de Gilbert Taylor elevam Repulsion à categoria de obra de culto e um dos expoentes máximos do cinema de terror.


Repulsion é a febril e inquietante primeira parte de uma trilogia a que se convencionou chamar “The Apartment Trilogy”, que ficou completa com Rosemary’s Baby (1968) e Le Locataire (1976). Nos três filmes, os temas principais são a solidão, o medo e a loucura de personagens que se isolam num apartamento de uma grande cidade e sucumbem aos horrores que provêm não de ameaças externas mas dos medos que povoam as suas mentes.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

8 X 8: A CHESS SONATA IN 8 MOVEMENTS


8x8: A Chess Sonata in 8 Movements (1957) é uma obra-prima do cinema experimental e uma projecção do imaginário surrealista no mundo da sétima arte. Realizado por Hans Richter, é o resultado de três anos de trabalho com Jean Cocteau, com quem Richter já colaborara em Le Sang d'un Poète (1930), o primeiro filme da trilogia de Orpheu.


O título refere-se às inúmeras combinações possíveis num tabuleiro normal de xadrez (8x8), pelo que o filme está também dividido em oito partes, cada uma mais desconcertante que a anterior, onde surrealistas e dadaístas, tais como, Jean Cocteau, Julian Levy, Jacqueline Matisse, Jose Sert, Yves Tanguy, Marcel Duchamp, Max Ernst ou Alexander Calder, se reúnem para prestar um tributo ao jogo que Richter adorava: um jogo de sorte e acaso, servos e senhores, sucessos e desaires — em suma, as mil e uma combinações que a vida nos proporciona.

sábado, 6 de outubro de 2007

BOLWIESER (RAINER WERNER FASSBINDER) 1977

Rainer Werner Fassbinder (1945-82) foi o cineasta mais representativo do que se convencionou chamar Neuer Deutscher Film (Novo Cinema Alemão). Estudou Arte Dramática no Fridl-Leonhard Studio, em Munique. Em 1967, juntou-se ao Action Theater, grupo que passou a liderar depois de este se ter reorganizado sob o nome de Anti-Theater. Escreveu para teatro e subverteu ou converteu ao seu próprio universo criativo Goethe, Sófocles e Lope de Vega, entre outros.

 O gosto pelo cinema de referências, por uma intimidade audaciosa na mise en scène, nos temas e nos personagens, uma invulgar alegria pelo acto de representação, uma inocência inquietante na arte da provocação, um desejo erótico de se expressar e uma obsessão de eterna mobilidade, transformaram Fassbinder num dos cineastas mais invulgares e produtivos de sempre.
 A Alemanha é o grande tema do cinema de Fassbinder. O sonho alemão, o pesadelo alemão e o milagre alemão, não necessariamente nesta ordem, atravessam sempre os seus filmes. É o caso do período nazi em Lili Marleen (1980) e dos compromissos de sobrevivência do pós-guerra em Die Ehe der Maria Braun (1978) ou, ainda, da prosperidade dos tempos de Adenauer, misto de amoralidade e oportunismo marginal, em Lola (1981).
De um modo geral, o cinema de Fassbinder é um cinema de pessoas. De pessoas marginais ou capazes de se deixar marginalizar quando não mesmo marginais. Uma ligação amorosa entre um negro e uma porteira, as atribulações patéticas de um transexual, um homem bem sucedido que massacra a família e depois comete suicídio no escritório, uma equipa de cinema que fica sem dinheiro e que enceta um extraordinário e teatral processo de autodestruição, são situações retratadas nos seus filmes.

Há no cinema de Fassbinder uma vertente de degradação humana que é filmada com uma espécie de comprazimento muito próximo da crueldade. Figuras viscosas, de uma repelência física e moral, disseminam-se na sua obra como se o olhar do realizador estivesse embebido numa forma radical de desgosto global. Bolwieser (A Mulher do Chefe da Estação, 1977), é a condenação dessa vertente numa situação minimal, repetida até à exaustão, com pequenas variações de sintaxe fílmica, mas uma única realidade: um homem é humilhado pela mulher que o engana com amantes também eles desgostantes.

O filme é quase só o progressivo processo de decadência de Xaver Bolwieser — o chefe da estação ferroviária de uma pequena cidade da Alta Baviera, nos anos anteriores à ascensão de Hitler ao poder —, sob as garras da incontinência e da hipocrisia de Hanni, uma mulher de carnes redondas e suor fácil. É um melodrama triste, com escassos e torpes cenários e uma câmara vistuosa que se dedica à tarefa ingrata de encenar um desesperado sarcasmo com um mínimo de meios. Mais do que um brilhante exercício fílmico é uma espantosa lição de cinema enquanto arte de realização, onde o talento transforma a escassez em pujança, não por miserabilismo mas por disciplina.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

LE TESTAMENT DU DOCTEUR CORDELIER (1959)

Jean Renoir pertence à estirpe dos grandes cineastas capazes de desafiar a sua própria imagem, sujeitando a sua evolução, não a uma linearidade calculada, mas a um jogo dinâmico de projectos, acidentes e acasos. Em 1959, realizou dois filmes: Le Déjeneur sur l´Herbe e Le Testament du Docteur Cordelier. Se Déjeneur se impunha como uma exaltação da existência, Le Testament é uma reflexão sobre a presença do Mal no quotidiano, baseando-se nas personagens de The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886), o clássico de Robert Louis Stevenson.

Na origem do filme está o projecto de realizar uma emissão para televisão que, em princípio, seria em directo. Mas a evolução do projecto foi alterando os dados iniciais. Da emissão em directo passou-se para um filme com muitas sequências rodadas na rua, com várias câmaras e som directo.

Não se trata de uma simples actualização da história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, mas uma das adaptações cinematográficas mais surpreendentes desta narrativa mítica, o que não é pouco tendo em conta as inúmeras versões que se conhecem, desde as mais convencionais, como Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1941), de Victor Fleming, até às mais ousadas e profundamente psicológicas, como Mi Nombre es Sombra (1996), de Gonzalo Suárez.

Jean Renoir transpõe a história original da Inglaterra Victoriana para a França dos anos 50 e recorre à frieza agressiva do preto e branco para captar a atmosfera sombria e abstracta, misto de pesadelo e alucinação, que impregna o protagonista do filme, o Dr. Cordelier, um eminente psiquiatra que vive assombrado pela desejo de provar a existência da alma humana através da sua materialização e, assim, modificar o comportamento psicológico dos indivíduos. Tornando-se objecto das suas próprias experiências, Cordelier concebe uma fórmula química que o transforma em Opale, um ser abominável, destrutivo, primitivo e cruel. A pouco e pouco, Cordelier perde o controlo da situação e as suas metamorfoses voluntárias começam a acontecer com naturalidade. O seu alter ego vai mergulhar num universo de perversão e explorar o lado obscuro da vida cujos limites o politicamente correcto, civilizado e famoso Dr. Cordelier sempre recusou. Uma vez imerso num mundo onde as suas perversões ocultas e latentes são postas a nu, Cordelier não vê outra saída que não seja o suicídio para sair de um estado de maldade que, apesar de tudo, lhe permitiu alcançar a plenitude enquanto ser humano, ao libertar os seus instintos mais positivos, mas também os mais cruéis e agressivos.

Apesar das alterações ao nível da situação histórica e temporal, o filme segue de muito perto o espírito da obra de Stevenson, ao assumir um carácter de declarado teor idealista e doutrinário. Se, por um lado, Jean Renoir nos dá uma visão da ciência ao serviço de causas e propósitos errados, por outro, formula as suas teses sobre a natureza humana, as origens do bem e do mal, as causas que despertam as ambições, os ódios e as obsessões dos seres humanos e os meios que utiliza para satisfazer as suas necessidades mais pérfidas, que incluem muitas vezes a violência e não se detêm ante os desejos ou a liberdade dos demais.

Le Testament du Docteur Cordelier é a história da busca de um sonho de liberdade que se transforma em pesadelo e, ao mesmo tempo, a afirmação, em tom pessimista, de que tanto os sentimentos positivos como as suas perversões fazem parte da natureza intrínseca do ser humano e, para alcançarmos a verdadeira plenitude como seres humanos, devemos retornar à nossa natureza animal e instintiva e deixar vir à tona as nossas pulsões mais básicas e primárias, ainda que o risco seja a destruição das estruturas e bases sociais ancestrais.