sábado, 6 de outubro de 2007

BOLWIESER (RAINER WERNER FASSBINDER) 1977

Rainer Werner Fassbinder (1945-82) foi o cineasta mais representativo do que se convencionou chamar Neuer Deutscher Film (Novo Cinema Alemão). Estudou Arte Dramática no Fridl-Leonhard Studio, em Munique. Em 1967, juntou-se ao Action Theater, grupo que passou a liderar depois de este se ter reorganizado sob o nome de Anti-Theater. Escreveu para teatro e subverteu ou converteu ao seu próprio universo criativo Goethe, Sófocles e Lope de Vega, entre outros.

 O gosto pelo cinema de referências, por uma intimidade audaciosa na mise en scène, nos temas e nos personagens, uma invulgar alegria pelo acto de representação, uma inocência inquietante na arte da provocação, um desejo erótico de se expressar e uma obsessão de eterna mobilidade, transformaram Fassbinder num dos cineastas mais invulgares e produtivos de sempre.
 A Alemanha é o grande tema do cinema de Fassbinder. O sonho alemão, o pesadelo alemão e o milagre alemão, não necessariamente nesta ordem, atravessam sempre os seus filmes. É o caso do período nazi em Lili Marleen (1980) e dos compromissos de sobrevivência do pós-guerra em Die Ehe der Maria Braun (1978) ou, ainda, da prosperidade dos tempos de Adenauer, misto de amoralidade e oportunismo marginal, em Lola (1981).
De um modo geral, o cinema de Fassbinder é um cinema de pessoas. De pessoas marginais ou capazes de se deixar marginalizar quando não mesmo marginais. Uma ligação amorosa entre um negro e uma porteira, as atribulações patéticas de um transexual, um homem bem sucedido que massacra a família e depois comete suicídio no escritório, uma equipa de cinema que fica sem dinheiro e que enceta um extraordinário e teatral processo de autodestruição, são situações retratadas nos seus filmes.

Há no cinema de Fassbinder uma vertente de degradação humana que é filmada com uma espécie de comprazimento muito próximo da crueldade. Figuras viscosas, de uma repelência física e moral, disseminam-se na sua obra como se o olhar do realizador estivesse embebido numa forma radical de desgosto global. Bolwieser (A Mulher do Chefe da Estação, 1977), é a condenação dessa vertente numa situação minimal, repetida até à exaustão, com pequenas variações de sintaxe fílmica, mas uma única realidade: um homem é humilhado pela mulher que o engana com amantes também eles desgostantes.

O filme é quase só o progressivo processo de decadência de Xaver Bolwieser — o chefe da estação ferroviária de uma pequena cidade da Alta Baviera, nos anos anteriores à ascensão de Hitler ao poder —, sob as garras da incontinência e da hipocrisia de Hanni, uma mulher de carnes redondas e suor fácil. É um melodrama triste, com escassos e torpes cenários e uma câmara vistuosa que se dedica à tarefa ingrata de encenar um desesperado sarcasmo com um mínimo de meios. Mais do que um brilhante exercício fílmico é uma espantosa lição de cinema enquanto arte de realização, onde o talento transforma a escassez em pujança, não por miserabilismo mas por disciplina.

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