quinta-feira, 4 de outubro de 2007

LE TESTAMENT DU DOCTEUR CORDELIER (1959)

Jean Renoir pertence à estirpe dos grandes cineastas capazes de desafiar a sua própria imagem, sujeitando a sua evolução, não a uma linearidade calculada, mas a um jogo dinâmico de projectos, acidentes e acasos. Em 1959, realizou dois filmes: Le Déjeneur sur l´Herbe e Le Testament du Docteur Cordelier. Se Déjeneur se impunha como uma exaltação da existência, Le Testament é uma reflexão sobre a presença do Mal no quotidiano, baseando-se nas personagens de The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886), o clássico de Robert Louis Stevenson.

Na origem do filme está o projecto de realizar uma emissão para televisão que, em princípio, seria em directo. Mas a evolução do projecto foi alterando os dados iniciais. Da emissão em directo passou-se para um filme com muitas sequências rodadas na rua, com várias câmaras e som directo.

Não se trata de uma simples actualização da história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, mas uma das adaptações cinematográficas mais surpreendentes desta narrativa mítica, o que não é pouco tendo em conta as inúmeras versões que se conhecem, desde as mais convencionais, como Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1941), de Victor Fleming, até às mais ousadas e profundamente psicológicas, como Mi Nombre es Sombra (1996), de Gonzalo Suárez.

Jean Renoir transpõe a história original da Inglaterra Victoriana para a França dos anos 50 e recorre à frieza agressiva do preto e branco para captar a atmosfera sombria e abstracta, misto de pesadelo e alucinação, que impregna o protagonista do filme, o Dr. Cordelier, um eminente psiquiatra que vive assombrado pela desejo de provar a existência da alma humana através da sua materialização e, assim, modificar o comportamento psicológico dos indivíduos. Tornando-se objecto das suas próprias experiências, Cordelier concebe uma fórmula química que o transforma em Opale, um ser abominável, destrutivo, primitivo e cruel. A pouco e pouco, Cordelier perde o controlo da situação e as suas metamorfoses voluntárias começam a acontecer com naturalidade. O seu alter ego vai mergulhar num universo de perversão e explorar o lado obscuro da vida cujos limites o politicamente correcto, civilizado e famoso Dr. Cordelier sempre recusou. Uma vez imerso num mundo onde as suas perversões ocultas e latentes são postas a nu, Cordelier não vê outra saída que não seja o suicídio para sair de um estado de maldade que, apesar de tudo, lhe permitiu alcançar a plenitude enquanto ser humano, ao libertar os seus instintos mais positivos, mas também os mais cruéis e agressivos.

Apesar das alterações ao nível da situação histórica e temporal, o filme segue de muito perto o espírito da obra de Stevenson, ao assumir um carácter de declarado teor idealista e doutrinário. Se, por um lado, Jean Renoir nos dá uma visão da ciência ao serviço de causas e propósitos errados, por outro, formula as suas teses sobre a natureza humana, as origens do bem e do mal, as causas que despertam as ambições, os ódios e as obsessões dos seres humanos e os meios que utiliza para satisfazer as suas necessidades mais pérfidas, que incluem muitas vezes a violência e não se detêm ante os desejos ou a liberdade dos demais.

Le Testament du Docteur Cordelier é a história da busca de um sonho de liberdade que se transforma em pesadelo e, ao mesmo tempo, a afirmação, em tom pessimista, de que tanto os sentimentos positivos como as suas perversões fazem parte da natureza intrínseca do ser humano e, para alcançarmos a verdadeira plenitude como seres humanos, devemos retornar à nossa natureza animal e instintiva e deixar vir à tona as nossas pulsões mais básicas e primárias, ainda que o risco seja a destruição das estruturas e bases sociais ancestrais.

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