quinta-feira, 29 de novembro de 2007

NICHT VERSÖHNT ODER ES HILFT NUR GEWALT WO GEWALT HERRSCHT (1965)

Jean-Marie Straub (Metz, 8 de Janeiro de 1933) iniciou a sua carreira no mundo do cinema como animador de cine-clubes no início dos anos cinquenta ao mesmo tempo que estudava Literatura em Estrasburgo e Nancy. Em 1954 mudou-se para Paris onde trabalhou como assistente de realização de Abel Gance (La Tour de Nesle), Jean Renoir (Elena et les Hommes), Robert Bresson (Un condamne a mort s'est echappe) e Jacques Rivette (Le Coup du berger). É também em 1954 que conhece Danièle Huillet, sua futura esposa e colaboradora. Quatro anos depois emigrou para a Alemanha fugindo a uma possível mobilização para a guerra da Argélia. Foi julgado à revelia pelo Tribunal Militar de Metz e condenado a um ano de prisão.

Em 1963 co-realizou com Danièle Huillet a sua primeira curta-metragem, Machorka-Muff, e, dois anos depois, a sua primeira longa-metragem, Nicht versöhnt oder Es hilft nur Gewalt wo Gewalt herrscht. Ambos os filmes adaptam obras de Heinrich Böll e questionam a sobrevivência do nazismo na Alemanha do pós-guerra. Nas décadas seguintes, Straub e Huillet formaram uma das parcerias criativas mais insólitas e estimulantes do mundo da sétima arte, escrevendo, realizando, montando e produzindo todos os seus filmes sem qualquer tipo de interferências exteriores, de modo a manterem uma total independência criativa.


Nicht versöhnt foi inspirado no romance Billard um Halbzehn e abarca cerca de meio século da história da Alemanha, algures entre 1910 e 1960, através de uma família da classe média, o arquitecto Heinrich Fahmel, a sua mulher Joanna e os seus filhos Heinrich, Robert e Otto, e, ainda, Edith, a mulher de Robert e os seus filhos Joseph e Ruth. O filme está dividido em vários episódios em que as personagens, o tempo e os espaços das situações se encontram organizados de forma aparentemente desordenada, saltando sistematicamente entre episódios históricos sem sequência cronológica lógica. De acordo com o próprio Straub, o filme foi construído de forma a eliminar, tanto quanto possível, qualquer auréola histórica seja no guarda-roupa, seja nos adereços e décors. Os acontecimentos são colocados numa espécie de presente comum, de modo a evitar que o espectador possa reordenar os factos ou perceber perfeitamente em que sentido temporal se movem as sequências, quer para a frente quer para trás. Trata-se, em suma, como sublinha Lauro António, de «uma obra extremamente hermética, de difícil leitura e de penetração cultural e social bastante discutível. O filme viria a ser pateado e incompreendido por quase todo o público, aquando da sua estreia, bem assim como saudado por alguns sectores da crítica alemã (e internacional, sobretudo francesa), que nela viram (de alguma forma justificadamente) um sinal de saudável ruptura com um passado mercantil e demissionário do cinema germânico.»


Où gît votre sourire enfoui? é um documentário de Pedro Costa sobre Straub e Huillet. Um curto excerto pode ser visto no YouTube.

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