quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

DANIEL JOHNSTON

Daniel Dale Johnston, um dos mais lendários e idolatrados cantores e compositores da cena indie norte-americana, nasceu a 22 de Janeiro de 1961 na cidade de Sacramento, Califórnia, no seio de uma família fundamentalista cristã.

A sua família mudou-se, primeiro para o Utah e, quando tinha cinco anos de idade, para Cumberland, West Virginia. Aprendeu muito novo a tocar piano com a sua irmã Margy e a ler música com o seu irmão Dick, mas o que marcou profundamente a sua adolescência foi a paixão pelas artes plásticas, sobretudo, a banda desenhada. "Comecei a fazer banda desenhada quando tinha cerca de oito anos," afirmou. "Às vezes desenhava o meu gato. Transformei o meu gato num super-herói. Outras vezes, inspirava-me em histórias da Bíblia, e adorava o Godzilla e o King Kong." Apreciador de músicos como John Lennon, Yoko Ono, Bob Dylan, David Bromberg, Queen, Neil Young, Sex Pistols e, sobretudo, dos Beatles, começou a compor e a fazer gravações caseiras que trocava com os amigos. Após o liceu, inscreveu-se num curso de artes plásticas assistindo, esporadicamente, às aulas.

Em 1983, Johnston mudou-se para o Texas, começando a sofrer os primeiros sintomas maníaco-depressivos. Passou algum tempo com um irmão em Houston e uma breve temporada com uma irmã em San Marcos, onde gravou dois dos registos musicais mais importantes da sua fase caseira de cantautor: Yip/Jump Music e Hi, How Are You. Juntou-se, depois, a uma feira ambulante onde ganhava a vida vendendo cachorros-quentes e, após cinco meses na estrada, decidiu instalar-se em Austin, onde o seu comportamento errático acabou por transformá-lo rapidamente numa lenda local.

Passou de herói local a celebridade nacional quando, em 1985, uma equipa de um dos programas mais importantes da MTV, Cutting Edge, o elegeu, após sugestão das bandas locais, como curioso epicentro da cena musical de Austin numa emissão que focava a cena local. A imprensa especializada nacional e internacional começou a seguir os seus passos com redobrado interesse. Algumas das suas antigas gravações caseiras foram reeditadas em vinil (Continued Story/Hi, How Are You y Yip/Jump Music) e a editora independente Shimmydisc possibilitou-lhe a gravação, em Nova Iorque, de dois álbuns (1990 e Artistic Vice). Em 1992, Kurt Cobain compareceu na cerimónia de entrega dos prémios MTV envergando uma T-shirt que tinha estampado um dos desenhos de Johnston, o que despertou o interesse da editora Elektra. No entanto, Johnston assinou contrato com a Atlantic e, desta união, resultou um álbum, Fun, de 1994, que vendeu cerca de 12000 cópias. Em 1999, Brian Beattie, dos Glass Eye, produziu Rejected Unknown, álbum que acabou por ser lançado dois anos depois pela Gammon Records. Com a ajuda de Mark Linkous dos Sparklehorse editou, em 2003, Fear Yourself, também pela Gammon Records. Em 2004, Mark Linkous lançou o convite a vários dos admiradores de Johnston para que gravassem uma versão de um dos seus temas. O resultado foi um duplo CD, Discovered Covered, The Late Great Daniel Johnston, com 18 versões no primeiro CD e as canções originais no segundo. Entre os participantes encontram-se Gordon Gano, Mercury Rev, Tom Waits, Calvin Johnson, Beck e Eels.


Em 2005, Jeff Feuerzeig lançou um filme sobre a vida de Daniel Johnston, intitulado The Devil and Daniel Johnston, que venceu os prémios para a Melhor Realização no Festival de Sundance e o Melhor Documentário no Festival de São Francisco. Trata-se de uma obra pungente que revela de forma cuidada a história pessoal deste génio atormentado, desde os seus primeiros anos de vida, marcados por uma educação conservadora e profundamente religiosa, até ao diagnóstico, em meados dos anos 80, de doença maníaco-depressiva. O filme apresenta a história de Daniel Johnston através do inteligente cruzamento de entrevistas e testemunhos de familiares e amigos com dezenas de registos áudio e vídeo realizados pelo próprio e imagens de arquivo recolhidas ao longo de mais de uma década, permitindo traçar um perfil completo e convincente, não só de um homem e dos seus demónios, mas também, e sobretudo, de uma personalidade artística brilhante e profundamente complexa.















Em 2006, os seus desenhos foram expostos na Whitney Biennial, organizada pelo Whitney Museum of American Art, de Nova Iorque. A sua obra pictórica continua a ser exposta em galerias de todo o mundo, como a Aquarium Gallery, de Londres, ou a Clementine Gallery, de Nova Iorque.

Actualmente, Daniel vive com os pais em Waller, Texas, um subúrbio de Houston. Passa os dias a desenhar, a tocar piano e a compor música, dando a impressão que os demónios do passado deixaram de o atormentar. Mas a realidade é bem diferente, como o próprio timidamente reconhece: “Continuo tão louco como antes, acreditem!”

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

FRED FRITH (STEP ACROSS THE BORDER, 1990)

Fred Frith (Heathfield, 17 de Fevereiro de 1949) é um compositor, improvisador e multi-instrumentista inglês que se posicionou ao longo de mais de trinta anos na área onde o rock e a música moderna se encontram. Foi membro fundador de duas das mais influentes bandas inglesas de vanguarda, os Henry Cow (1968-78) e os Art Bears (1978-81). Nos finais dos anos 70, mudou-se para Nova Iorque e entrou em contacto com muitos dos músicos com os quais tem estado ligado, incluindo, por exemplo, John Zorn, Ikue Mori, Tom Cora, Zeena Parkins e Bob Ostertag.

Em Nova Iorque, contribuiu com o seu talento musical para projectos como os Massacre (com Bill Laswell e Fred Maher), os Skeleton Crew (com Tom Cora e Zeena Parkins), e os Keep the Dog (Frith, René Lussier, Zeena Parkins, Kevin Norton, Jean Derome e Bob Ostertag), um sexteto formado em 1989 para interpretar as suas próprias composições.

Nos anos 80, Fred Frith começou a escrever para dança, cinema e teatro, de que se destacam apenas alguns projectos: a banda sonora para o filme canadiano The Top of His Head, Long on Logic, para o Rova Saxophone Quartet, The As Usual Dance Towards the Other Flight to What Is Not, para quarteto de guitarras, Allies, para o coreógrafo Bebe Miller e In Memory, uma colaboração com a poetisa Sara Miles e o cineasta de animação Pierre Hébert, comissionada pela Brooklyn Academy of Music. Mais conhecido em todo o mundo como guitarrista de improvisação, Fred Frith tem o nome em mais de 200 álbuns, tendo actuado em variadas áreas, como baixo nos Naked City, de John Zorn, violino na Looping Home Orchestra, do acordeonista sueco Lars Hollmer, e guitarra em gravações dos The Residents, René Lussier ou Brian Eno.

Em 1990, os cineastas alemães Nicolas Humbert e Werner Penzel realizaram Step Across the Border, um documentário sobre a vida e o trabalho de Fred Frith. Gravado entre 1988 e 1990 no Japão, Itália, França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, mostra Frith acompanhado de amigos como René Lussier, Iva Bittová, Tom Cora, Tim Hodkinson, Bob Ostertag ou John Zorn, em ensaios, em espectáculos, nos bastidores de concertos, em entrevistas ou, simplesmente, em momentos de lazer e diversão.

Step Across the Border venceu o prémio de Melhor Documentário no European Film Awards, de 1990. No mesmo ano, a editora RecRec Music lançou o CD com a banda sonora original do filme.

Actualmente, Fred Frith vive nos Estados Unidos e lecciona Composição no Mills College em Oakland, Califórnia.

Excertos do filme Step Across The Border no YouTube:

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

SLACKER (RICHARD LINKLATER, 1991)

Richard Linklater nasceu na cidade de Houston, Texas, em 1960. A sua primeira obra cinematográfica, It's Impossible to Learn to Plow by Reading Books (1988), foi filmada em Super 8 e surgiu três anos depois de ter fundado a Austin Film Society, uma associação de apoio a cineastas independentes. Com o segundo filme, Slacker (1991), filmado em 16 mm por apenas 23000 dólares, chamou a atenção dos cinéfilos e ganhou fama internacional.

Slacker é um filme marcado por uma estrutura narrativa pouco convencional e um ritmo desenvolto que acompanha a vida de cerca de cem personagens, sobretudo jovens excêntricos e boémios, de Austin, Texas, durante 24 horas. A câmara passa rapidamente de um cenário a outro, de um personagem a outro, enquanto se disserta e discute sobre os mais variados assuntos: política, filosofia, metafísica, cinema, literatura, música, ciência, psicologia, sexo, amor, drogas, assassinos famosos, Madonna, Guerra Civil de Espanha…

Richard Linklater é um realizador de diálogos e de jovens e Slacker demonstra-o à exaustão: a par dos lúcidos, hilariantes, ágeis e originais diálogos que apresenta, oferece um acutilante retrato geracional da juventude do início dos anos 90, que oscila entre o desencanto e a ternura, a crítica e a compreensão. Estas características marcam de forma indelével muitas das suas obras posteriores, como Dazed and Confused (1993), Before Sunrise (1995), Suburbia (1996) ou Before Sunset (2004).

O filme tornou popular a expressão “slacker” para descrever toda uma geração de jovens apáticos, pouco ambiciosos e sem objectivos de vida, apesar de Linklater ter desejado que a expressão assumisse uma conotação positiva.