sexta-feira, 28 de março de 2008

JOANNA NEWSOM

A cantora, compositora e instrumentista Joanna Newsom, nascida a 18 de Julho de 1982 em Nevada City, California, converteu-se numa das grandes revelações do panorama musical norte-americano no ano de 2004, graças a uma folk poética e naif, coroada por um tom de voz invulgar, de timbre meio infantil, a fazer lembrar Kate Bush ou Meredith Monk.

Oriunda de uma família de músicos, Joanna Newsom começou a tocar piano desde muito cedo até que se enamorou pelos sons da harpa, tornando-se numa especialista deste instrumento. Estudou composição e teoria musical no Mills College, na California, alimentando a sua curiosidade musical através da investigação de sonoridades tradicionais de diferentes regiões do planeta, como a música celta, senegalesa, venezuelana ou a folk dos Apalaches.

Colaborou, como teclista, nas bandas Golden Shoulders e The Pleased, e no grupo experimental Nervous Cop, onde tocava harpa. Os seus dois primeiros registos individuais, publicados a expensas próprias, foram os EPs Walnut Whales (2002) e Yarn and Glue (2003). Após uma série de apresentações com Will Oldham, assinou contrato com a editora Drag City e lançou o seu primeiro álbum, The Milk-Eyed Mender, em 2004. Logo a seguir, partiu em digressão com Devendra Banhart e os Vetiver.

O trabalho de Joanna Newsom começou a tornar-se conhecido do público e a destacar-se na cena indie norte-americana graças, sobretudo, a uma série de apresentações ao vivo e às participações no programa televisivo da ABC, The Jimmy Kimmel Show.

Em Novembro de 2006, lançou o seu segundo álbum, Ys, com arranjos de Van Dyke Parks, produção de Steve Albini e misturas de Jim O´Rourke. No ano seguinte foi editado Joanna Newsom & The Ys Street Band EP, gravado ao vivo num estúdio californiano meses depois de Ys. Constituído apenas por três temas, o EP apresenta o inédito “Colleen”, mas também “Cosmia”, de Ys, e “Clam, Crab, Cockle, Cowrie”, de The Milk-Eyed Mender, com novos arranjos orquestrais.

Actualmente, Joanna Newsom é considerada pela crítica um dos nomes mais proeminentes do movimento Psych Folk, embora ela afirme não estar ligada a qualquer cena musical em particular. A sua música incorpora elementos de estilos musicais muito diversos, como o bluegrass, o jazz, as sonoridades celtas e africanas e influências de Victoria Williams ou Ruth Crawford Seeger.

quarta-feira, 26 de março de 2008

LA LUNA (BERNARDO BERTOLUCCI, 1979)

Numa aldeia costeira do mar Mediterrâneo, um bebé entorna mel numa perna que a sua mãe lambe deliciada. A mãe, Caterina, dança ao entardecer com um homem, enquanto o bebé brinca com um novelo de lã. Mais tarde, Caterina pedala numa estrada com o bebé metido no cesto do velocípede, parecendo avançar ao encontro de uma lua feérica.

Anos mais tarde, em Nova Iorque, Caterina, uma cantora de ópera, prepara-se para partir em tournée pela Itália, quando o marido morre subitamente com um ataque cardíaco. Caterina insiste então que Joe, o seu filho adolescente, a acompanhe na digressão. Em Roma, conhece uma rapariga chamada Arianna. Caterina organiza uma festa de aniversário para o seu filho e descobre que ele se injecta com heroína, auxiliado por Arianna. As relações entre mãe e filho quase chegam a um ponto de ruptura e Caterina decide deixar de cantar. Depois, é ela própria que lhe compra heroína e o satisfaz sexualmente durante uma crise. Mais tarde, viajam pelo interior de Itália, onde as suas relações incestuosas atingem momentos delirantes. Numa tentativa desesperada de afastar o filho da droga, Caterina decide revelar ao filho a identidade do seu verdadeiro pai, cuja existência ela sempre manteve em segredo, e Joe parte à sua procura.

La Luna (1979), de Bernardo Bertolucci, é um dos mais complexos, sinuosos e elípticos filmes do realizador italiano, mas nem por isso deixa de ser um dos seus mais fascinantes e belos. Jogando com um argumento que deita explicitamente mãos ao melodrama, Bertolucci constrói uma história complexa, de profunda análise e reflexão, do universo interior de um conjunto de personagens em conflito com o seu próprio inconsciente.

REMBRANDT (ALEXANDER KORDA, 1936)

Rembrandt Harmenszoon van Rijn (15 de Julho de 1606, Leiden – 4 de Outubro de 1669, Amesterdão), nome central da pintura holandesa da sua época, é tradicionalmente reconhecido como um dos maiores génios artísticos de sempre. A sua vida foi, contudo, atribulada e inconstante, sobretudo, na última fase quando, em 1656, se declarou falido e todas as suas propriedades e colecções foram vendidas em hasta pública.

Corre o ano de 1642 e Rembrandt vive cercado de fama e de fortuna mas, com a morte de Saskia van Uylenburgh, sua esposa e musa inspiradora, o seu trabalho entra numa nova fase, mais pessoal e anticonformista. Realiza, então, obras notáveis em que o colorido se torna mais luminoso, dando maior expressividade e conteúdo emocional aos seus quadros de pincelada ampla e cores pastosas.

Rembrandt, realizado em 1936 por Alexander Korda, é possivelmente um dos seus mais inteligentes filmes que, longe de cair na biografia romanceada de Rembrandt, nos coloca frente a um elaborado e sensível estudo psicológico do último período da vida e da obra do grande mestre holandês, recriado de forma magistral pelo espantoso Charles Laughton.

O filme acompanha as relações de Rembrandt com a governanta de sua casa, o seu amor pela criada Hendrickje Stoffels, passando pelo seu filho Titus, ou pelo seu regresso ao moinho de Leiden, onde viviam o seu pai e o seu irmão e, naturalmente, pela criação do seu último período pictórico, com destaque para o célebre A Ronda Nocturna.

terça-feira, 25 de março de 2008

THE HONEYMOON KILLERS (LEONARD KASTLE, 1970)

The Honeymoon Killers começa com a reacção explosiva que resulta da mistura de cloro e amoníaco, anunciando o que está para acontecer quando os destinos de Martha Beck (Shirley Stoler) e Raymond Fernandez (Tony Lo Bianco) finalmente se cruzarem.

Baseado em factos reais ocorridos nos Estados Unidos durante a década de 40, The Honeymoon Killers descreve com uma precisão cirúrgica os crimes cometidos por um casal, Martha e Ray, que se conheceu através de uma agência matrimonial, a Aunt Carries Friendship Club. Ray é um homem selvagem, colérico, que esconde uma personalidade psicótica; Martha é uma mulher profundamente insegura, compulsiva e carente, que sofre de obesidade mórbida. Juntos, traçam um plano baseado na habilidade de Ray para seduzir mulheres ricas e solitárias para depois assassiná-las e ficar com o seu dinheiro, à maneira de um moderno Monsieur Verdoux.

Um dos traços mais inquietantes do filme é que Martha, que começa por ser uma mera cúmplice de Ray, revela com o passar do tempo uma natureza mais deliberadamente cruel que a do seu mentor. Parceiros no crime e mestres do embuste, esta dupla de assassinos acaba inexoravelmente por mostrar o lado obscuro da confiança que os une às suas vítimas numa série de homicídios que vão aumentando de crueldade e de rudeza. A combinação perversa de amor, ciúmes e ambição desmedida que conduz Martha ao homicídio é o resultado de uma vida solitária e alienada e de códigos morais esbatidos pela necessidade de pertencer e possuir. A interpretação de Stoler, uma das mais naturais e descomprometidas da história do cinema, reforça de forma sublime a complexa e monstruosa personalidade de Martha.


The Honeymoon Killers é uma obra inquietante que merece ser redescoberta não só pelo culto que a rodeia mas também pelo desassossego de alma que transmite e pela incómoda aparência das suas imagens. Filmada a preto e branco ao estilo de um documentário, com imagens granuladas, às vezes até toscas, de aspecto aparentemente pouco limpo e preparado, muito próximo do cinéma vérité, esta obra de Leonard Kastle aborda a banalidade do mal de um modo que só foi igualado em filmes posteriores como Henry: Portrait of a Serial Killer (1986), de John McNaughton, ou Las Horas del Día (2003), de Jaime Rosales.

As relações que se estabelecem entre este sinistro casal e as suas vítimas remetem para uma humanidade de essência inumana, em que o amor é o embrião da morte, e para um macabro estado de estranheza que consegue fazer esquecer certos defeitos ao nível dos recursos estilísticos e da estrutura narrativa seguida por Leonard Kastle, marcada, por exemplo, por algumas elipses incompreensíveis.

Após ter escrito o guião para o filme, Leonard Kastle contratou Martin Scorsese, que se tinha estreado recentemente com a obra Who's That Knocking At My Door? (1968). No entanto, após algum tempo de filmagens, apercebeu-se que um orçamento de apenas 250000 dólares não era compatível com as exigências de Scorsese. Decidiu, então, despedir o realizador e assumiu, ele próprio, a direcção dos trabalhos, apesar de não ter qualquer experiência no ramo. Kastle era um compositor, não um cineasta, mas tinha uma opinião bem formada sobre o que queria ver no filme e tinha o espírito e a determinação necessárias para concluir o projecto. O resultado foi um dos filmes independentes mais assombrosos dos últimos quarenta anos e uma das obras cinematográficas norte-americanas mais queridas de François Truffaut.

DEMENTIA 13

Dementia 13 (1963) é considerada a primeira longa-metragem realizada por Francis Ford Coppola e faz parte de uma longa lista de filmes produzidos por Roger Corman e assinados por realizadores que rapidamente se tornariam nomes de primeira linha do cinema norte-americano, após terem deixado a chamada “Escola Corman”. Esta exigia-lhes apenas que filmassem depressa, gastando o menos dinheiro possível.

O filme conta a história da maldição que paira sobre uma nobre família irlandesa que vive no Castelo Haloran e que foi atingida por uma tragédia envolvendo a morte de Kathleen, o membro mais jovem do clã que se afogou no lago da residência enquanto brincava com o seu irmão Billy.

Após o acidente fatal, a família separa-se, ficando apenas a matriarca Lady Haloran e os criados Arthur e Lillian. Porém, todos os anos os irmãos John, Richard e Billy retornam a casa para celebrar o memorial da morte da irmã, cuja sepultura nos jardins do castelo é mantida sempre revestida de flores por Lady Haloran, que nunca superou o desaparecimento prematuro da filha.

Nas vésperas de um desses macabros rituais John e a esposa, Louise, decidem dar um passeio nocturno de barco, no decorrer do qual John diz a Louise que a detesta e que ela nunca receberá um cêntimo da fortuna da sua família. Na discussão que, entretanto, se gera, John, que sofre do coração, tem um ataque cardíaco e morre. Louise decide ocultar o corpo para que Lady Haloran não saiba da morte do filho e possa inclui-la no testamento da família.

Durante a reunião da família, estranhos acontecimentos começam a ter lugar. Um assassino começa a actuar nas imediações do castelo e, após o desaparecimento de Louise, mortalmente golpeada com machadadas, e de um vizinho, Simon, decepado violentamente enquanto caçava furtivamente coelhos, além da loucura tomar conta da mente de Lady Haloran, o médico da família, Dr. Justin Cale, é chamado para ajudar a investigar a maldição que ronda o local da morte da jovem Katleen.

Dementia 13 transformou-se num clássico do cinema de terror psicológico sendo, por vezes, comparado, com as devidas ressalvas, a Psycho (1960), de Alfred Hitchcock.

segunda-feira, 24 de março de 2008

BLOW-UP (MICHELANGELO ANTONIONI, 1966)

Blow-Up é um dos mais célebres filmes de culto dos anos 60 e um dos títulos mais frequentemente referenciados do cineasta italiano Michelangelo Antonioni.

Thomas, um fotógrafo de moda londrino, decide vaguear pela cidade depois de uma sessão de trabalho. Sempre de máquina na mão, fotografa, num jardim, um casal que se beija. A mulher repara e corre para ele exigindo o negativo do filme. Thomas recusa e regressa ao estúdio onde é interrompido, antes de revelar a película, pela mulher do parque, que insiste na necessidade de ter esses negativos. Thomas acede e dá-lhe outro rolo de filme. Ao revelar as fotografias obtidas no parque, fica intrigado por uma forma bizarra que tinha escapado ao seu olhar mas não à objectiva da câmara. De ampliação em ampliação, descobre que tinha sido testemunha involuntária de um assassínio.

Blow-Up capta o ambiente febril vivido na capital inglesa, em meados dos anos 60, a mítica Swinging London, com o amor livre, as modas vibrantes, as paixões, as festas, os movimentos de contracultura, a lânguida coolness e a música (a banda sonora foi composta pelo jazzman Herbie Hancock e numa das cenas finais podemos ver os lendários Yardbirds, de Jimmy Page e Jeff Beck, a interpretar o clássico Stroll On). Segundo Guillermo Arias, na revista online de música e cinema Feedback-zine, Blow-Up «es un film íntimamente ligado al tiempo en el que fue hecho: Londres, mediados de los 60, basado en un cuento de Julio Cortázar [Las Babas del Diablo] que cuestiona el poder de la veracidad de la imagen a través de la historia de un fotógrafo que asegura porder resolver el enigma de un crimen a partir del análisis de una serie de fotografías que él había realizado y que amplía en sucesivos “blow-ups”.

Filme desconcertante e insólito nas suas propostas dramáticas e narrativas, onde nem a intriga nem as personagens se assumem e desenvolvem de forma tradicional, Blow-Up não é de forma alguma um filme acessível, mas não deixa por isso de ser um trabalho admirável de cinema e um espantoso exercício de investigação e reflexão sobre as relações entre a realidade e a ilusão, entre aquilo que vemos e deixamos de ver.