terça-feira, 25 de março de 2008

THE HONEYMOON KILLERS (LEONARD KASTLE, 1970)

The Honeymoon Killers começa com a reacção explosiva que resulta da mistura de cloro e amoníaco, anunciando o que está para acontecer quando os destinos de Martha Beck (Shirley Stoler) e Raymond Fernandez (Tony Lo Bianco) finalmente se cruzarem.

Baseado em factos reais ocorridos nos Estados Unidos durante a década de 40, The Honeymoon Killers descreve com uma precisão cirúrgica os crimes cometidos por um casal, Martha e Ray, que se conheceu através de uma agência matrimonial, a Aunt Carries Friendship Club. Ray é um homem selvagem, colérico, que esconde uma personalidade psicótica; Martha é uma mulher profundamente insegura, compulsiva e carente, que sofre de obesidade mórbida. Juntos, traçam um plano baseado na habilidade de Ray para seduzir mulheres ricas e solitárias para depois assassiná-las e ficar com o seu dinheiro, à maneira de um moderno Monsieur Verdoux.

Um dos traços mais inquietantes do filme é que Martha, que começa por ser uma mera cúmplice de Ray, revela com o passar do tempo uma natureza mais deliberadamente cruel que a do seu mentor. Parceiros no crime e mestres do embuste, esta dupla de assassinos acaba inexoravelmente por mostrar o lado obscuro da confiança que os une às suas vítimas numa série de homicídios que vão aumentando de crueldade e de rudeza. A combinação perversa de amor, ciúmes e ambição desmedida que conduz Martha ao homicídio é o resultado de uma vida solitária e alienada e de códigos morais esbatidos pela necessidade de pertencer e possuir. A interpretação de Stoler, uma das mais naturais e descomprometidas da história do cinema, reforça de forma sublime a complexa e monstruosa personalidade de Martha.


The Honeymoon Killers é uma obra inquietante que merece ser redescoberta não só pelo culto que a rodeia mas também pelo desassossego de alma que transmite e pela incómoda aparência das suas imagens. Filmada a preto e branco ao estilo de um documentário, com imagens granuladas, às vezes até toscas, de aspecto aparentemente pouco limpo e preparado, muito próximo do cinéma vérité, esta obra de Leonard Kastle aborda a banalidade do mal de um modo que só foi igualado em filmes posteriores como Henry: Portrait of a Serial Killer (1986), de John McNaughton, ou Las Horas del Día (2003), de Jaime Rosales.

As relações que se estabelecem entre este sinistro casal e as suas vítimas remetem para uma humanidade de essência inumana, em que o amor é o embrião da morte, e para um macabro estado de estranheza que consegue fazer esquecer certos defeitos ao nível dos recursos estilísticos e da estrutura narrativa seguida por Leonard Kastle, marcada, por exemplo, por algumas elipses incompreensíveis.

Após ter escrito o guião para o filme, Leonard Kastle contratou Martin Scorsese, que se tinha estreado recentemente com a obra Who's That Knocking At My Door? (1968). No entanto, após algum tempo de filmagens, apercebeu-se que um orçamento de apenas 250000 dólares não era compatível com as exigências de Scorsese. Decidiu, então, despedir o realizador e assumiu, ele próprio, a direcção dos trabalhos, apesar de não ter qualquer experiência no ramo. Kastle era um compositor, não um cineasta, mas tinha uma opinião bem formada sobre o que queria ver no filme e tinha o espírito e a determinação necessárias para concluir o projecto. O resultado foi um dos filmes independentes mais assombrosos dos últimos quarenta anos e uma das obras cinematográficas norte-americanas mais queridas de François Truffaut.

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