sexta-feira, 25 de abril de 2008

ANEMIC CINEMA (MARCEL DUCHAMP, 1926)

A curta-metragem Anemic Cinema (1926), realizada por Marcel Duchamp no estúdio de Man Ray, com a colaboração de Marc Allégret e Calvin Tomkins, é um clássico do cinema experimental. À semelhança de outras obras produzidas no seio da vanguarda cinematográfica francesa dos anos 20, é uma obra empenhada na busca de um “cinema puro” ou “cinema absoluto”, caracterizada pela ausência de personagens e o desprezo pelas estruturas narrativas convencionais.

O filme é constituído por uma sucessão de planos fixos de dezanove discos giratórios em movimento. Nove discos contêm fragmentos textuais dispostos em espiral que se lêem de fora para dentro e os outros dez são simplesmente espirais que, ao girarem, provocam no espectador um efeito hipnótico.

Os jogos de palavras que surgem no filme são da autoria de Rrose Sélavy (“Eros c’est la vie”), o pseudónimo do alter-ego feminino de Marcel Duchamp, e estão carregados de nonsense e conotações sexuais ("On demande des moustiques domestiques (demi-stock) pour cure d'azote sur la Côte d'Azur", "Esquivons les ecchymoses des esquimaux aux mots exquis" ou "Avez-vous mis la moelle de l'épée dans le poêle de l'aimée") que o movimento rotativo das esferas desvela e amplia.


A sensação que se tem é de que se, por um lado, a sexualidade pode ser reconhecida como o subtexto do filme, por outro lado, as circunferências rotatórias também permitem uma dupla leitura, que é a tridimensionalidade. No decorrer do filme, as palavras inscritas nas esferas começam a sobrepor-se e a fundir-se na subjectividade do espectador, o que desloca o acto de ver e ler, do campo do puramente visual ou retiniano para o domínio do inconsciente.


Mais do que interessado na investigação visual do suporte fílmico, Duchamp procurava trabalhar sobre a experiência sensorial desenvolvida pelo movimento da obra. Os seus esforços centravam-se na percepção, mais precisamente, numa falsa percepção que, partindo de uma bidimensionalidade, cria a ilusão de uma terceira dimensão. Com isto, Duchamp procurava relacionar a visão com o desejo, utilizando a ilusão como uma alavanca ou dispositivo para despertar as operações inconscientes da visão e tornar a percepção independente do espectador, fazer da percepção o objecto da imagem, colocando-a nas coisas, nos objectos e não nas pessoas.

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