sábado, 12 de abril de 2008

LOVE STREAMS (JOHN CASSAVETES, 1984)

Sarah Lawson está à beira do divórcio. Tem andado fora e dentro de instituições psiquiátricas e, subitamente, a sua filha Debbie decide ir viver com o pai, farta do seu obsessivo cerco maternal. Após uma viagem pela Europa, a fim de se recuperar das depressões, Sarah regressa na mesma e é rejeitada pela filha e pelo marido. Decide, então, ir viver com o seu irmão, Robert.

Robert, um escritor divorciado, vive rodeado de belas mulheres, segundo ele, para recolher material para um livro sobre a vida nocturna. Repentinamente, o seu filho Albie, de oito anos, é deixado aos seus cuidados pela ex-mulher e, do dia para a noite, Robert vê-se a braços com uma estranha e inesperada família em casa, que o obriga a mudar todos os seus hábitos, nomeadamente, em matéria de mulheres.

Após uma viagem atribulada a Las Vegas, o padrasto do seu filho vem buscá-lo, enquanto Sarah parece apostada em regenerar a vida do irmão, enchendo-lhe a casa de animais. Mas Sarah acaba por partir numa noite de temporal e Robert fica só com os animais.

David França Martins referiu que os elementos que têm marcado os momentos revolucionários da arte do séc. XX, a saber, a obra em processo, o gesto do protagonista da obra, o herói quotidiano, são, também, aqueles que mais se têm distinguindo na obra de John Cassavetes (1929-1989). O mundo das pessoas mais comuns, da classe média, é meio e objecto de um cinema, o de Cassavetes, que, sob certos aspectos, antecipou, nos Estados Unidos, o cinéma verité europeu.

Consuelo Lins, afirmou, a propósito da importância de Cassavetes na evolução da cinematografia norte-americana na segunda metade do séc. XX, que, ao contrário «das renovações cinematográficas que aconteceram nos anos 60 na França, na Itália, no Brasil, onde grupos de cineastas enfrentaram de forma colectiva e através da reflexão e da crítica o cinema dominante, Cassavetes partiu solitariamente e de forma intuitiva para uma prática que, bem ao lado de Hollywood, rompeu com os clichés do cinema de então. O cinema foi para Cassavetes uma maneira de viver. Criou com a família e os amigos uma espécie de utopia cinematográfica na qual os filmes tinham de ser impregnados da vida de todos os que trabalhavam neles.»

Como outros cineastas-actores, John Cassavetes foi um incansável retratista da ambivalência dos sentimentos e das emoções. O seu primeiro e decisivo instrumento de trabalho é o corpo. Toda a sua mise en scène passa, por isso, pelo actor, nele colhendo o seu método e os seus sentidos. A sua principal matéria compreende tudo aquilo que liga — corpos, desejos, entregas e recusas. Love Streams (1984), o penúltimo título da sua filmografia, realizado depois de Gloria (1980), resume, justamente, essa dimensão essencial. Como o próprio nome indica, trata de correntes de amor, sobressaltos do que, no amor e através dele, aproxima os seres, ao mesmo tempo que expõe a uma nova luz as suas irredutíveis diferenças.

Em Love Streams, Cassavetes contracena com a sua mulher, Gena Rowlands, asumindo as personagens de dois irmãos cruelmente marcados pela vulnerabilidade da sua própria relação e incapazes de expressar o amor de forma lógica e ordenada. Os dois irmãos representam a nostalgia de uma família nunca reencontrada, porque, à sua maneira, Cassavetes foi sempre um cineasta de pequenas tribos sociais e afectivas em constante agitação. Miragem nunca resolvida: a de uma harmonia dos corpos e das suas tensões, do ideal cândido da família e da diversidade das suas personagens.

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