domingo, 6 de abril de 2008

L’ÉTOILE DE MER (MAN RAY, 1928)

Um homem e uma mulher caminham juntos ao longo de uma vereda. A mulher detém-se e puxa para cima a meia que lhe cobre a perna esquerda. O homem e a mulher sobem uma escada que os conduz a um quarto, onde a mulher começa a despojar-se das roupas, até ficar nua sobre a cama. O homem despede-se e parte. Mais tarde, o homem depara com a mulher que se encontra na rua a vender jornais e esta oferece-lhe uma estrela-do-mar encerrada num frasco. De volta ao quarto, o homem observa fascinado a estranha oferta. Nas palmas das mãos do homem surgem linhas desenhadas. A mulher torna a subir a escada que leva ao quarto. Numa das mãos carrega um punhal. O homem e a mulher reencontram-se no campo, mas um segundo homem aparece e arrebata a mulher.

A curta-metragem L’Étoile de Mer, realizada por Man Ray em 1928, é uma das obras clássicas do cinema surrealista dos anos 20 do século passado. Trata-se de uma inquietante história de amor onde se cruzam personagens insólitas, ora próximas, ora distantes, inspirada na peça de teatro La Place de L'Etoile, escrita um ano antes por Robert Desnos, um dos maiores poetas surrealistas.

Grande parte das sequências do filme foi conseguida através de processos pouco ortodoxos, como a utilização de lentes embaciadas que enchem as imagens de formas esbatidas e fugidias, contribuindo para a criação de uma atmosfera fluida e onírica.

A par das referências óbvias ao desejo sexual inconsciente, presente na maioria dos trabalhos surrealistas da época, L’Étoile de Mer é marcado pelos pontos de contacto que estabelece entre o ideal de mulher inalcançável e a estrela-do-mar do título. A enigmática estrela-do-mar é um dos símbolos primordiais da iconografia surrealista, surgindo no filme sempre que se adivinham sinais de conflito ou ameaça à frágil relação dos protagonistas.

Ao contrário da crueldade das imagens da curta-metragem Un Chien Andalou, outro clássico do cinema surrealista, produzido no mesmo ano por Salvador Dali e Luis Buñuel, L’Étoile de Mer é mais lírico e sensual, evocando com um profundo sentido de mistério e desejo inato os conceitos de Maravilhoso e Belo expressos por André Breton no Manifesto Surrealista de 1924.

O filme conta com a participação de Kiki de Montparnasse, à época companheira e musa de Man Ray, André de la Rivière e do próprio Robert Desnos. Kiki de Montparnasse interpreta de forma soberba a musa primeva, a heroína vertiginosa do imaginário surrealista, despindo-se sem pudores numa cena, escondendo o olhar perverso por detrás de um jornal noutra, ou subindo lentamente uma escada de punhal reluzente na mão numa das últimas cenas.

Com L’Étoile de Mer, Man Ray demonstra que estava à frente do seu tempo, antecipando várias técnicas e recursos estilísticos que só seriam devidamente aprofundadas na segunda metade do séc. XX, como a descontinuidade narrativa, os cortes sem transição, a femme fatale ou as sequências de sonhos.

1 comentário:

Obaldino disse...

É o sonho de qualquer sonho sonhar-se assim, tal qual esse filme.