terça-feira, 6 de maio de 2008

THE LAST MAN ON EARTH (UBALDO RAGONA E SIDNEY SALKOW, 1964)

The Last Man on Earth (1964) é uma produção italo-americana de baixo orçamento que adquiriu, com todo o mérito, o estatuto de clássico do cinema de série B. Realizado por Ubaldo Ragona e Sidney Salkow, transpõe para o cinema, com elegância e criatividade, um argumento escrito por William P. Leicester e Richard Matheson (sob o pseudónimo de Logan Swanson), baseado na obra-prima deste último, intitulada I Am Legend (1954).

Quatro anos antes do famoso Night of the Living Dead (1968) de George A. Romero, considerado por muitos o primeiro filme de zombies, esta fábula sinistra apresenta já as características mais marcantes do género. Numa cidade deserta dos Estados Unidos, o Dr. Robert Morgan (Vincent Price) acredita ser o último sobrevivente de uma terrível epidemia que reduziu a humanidade a uma horda informe de vampiros que dormem durante o dia e deambulam pela cidade em busca de sangue à noite. Cada dia que passa é para Morgan uma nova batalha contra si próprio e a angústia e o desgosto que o vão consumindo lentamente, provocadas por uma rotina mórbida que já dura há três anos. Noite após noite, uma massa lânguida de mortos-vivos assedia o seu refúgio, esperando pacientemente que ele perca a vontade de viver e ceda.


Ao passo que Night of the Living Dead estabelece a mitologia dos zombies modernos enquanto mortos renascidos ávidos de carne humana, The Last Man on Earth é uma reinterpretação do mito dos vampiros. Se antes o vampirismo era considerado uma maldição e os vampiros eram retratados como seres imortais dotados de poderes sobrenaturais, com o livro de Matheson e a respectiva adaptação cinematográfica, o vampirismo passa a ser encarado como o resultado de uma doença contagiosa que provoca mutações genéticas e transforma a população mundial em monstros noctívagos sedentos de sangue e carne humana, antecipando o terror genético dos primeiros filmes de David Cronenberg. As causas do vampirismo passam a ter uma explicação científica que pode ser encontrada através de pesquisas laboratoriais. Os vampiros deixam de ser criaturas obscuras e sobrenaturais para se transformarem em seres normais assolados por um apetite inusitado por sangue humano. The Last Man on Earth está, portanto, mais próximo de 28 Days Later (Danny Boyle, 2002) do que da grande maioria das versões de Dracula. Ultrapassando os medos e as emoções primárias perseguidas pelos modelos tradicionais do cinema de terror, The Last Man on Earth é um filme mórbido e pessimista que explora a infelicidade pessoal e a solidão de uma forma nunca antes vista, obrigando o espectador a mergulhar num universo pós-apocalíptico onde não se vislumbram quaisquer sinais de esperança.


A maior parte dos críticos atribuiu à obra de Matheson uma conotação mais voltada para a ficção científica do que para o terror propriamente dito. Matheson, inclusive, fez questão de desenvolver essa «cientificidade» através de descrições pormenorizadas acerca dos padrões motivadores do vampirismo e das razões pelas quais os vampiros fogem do Sol, do alho, da prata e dos demais elementos encontrados nas lendas populares.


À primeira vista parece que estamos perante apenas mais uma aventura típica de Vincent Price. Afinal de contas, o mestre do terror interpreta como de costume uma pobre alma solitária consumida pelas recordações da sua mulher e da sua filha, desaparecidas em circunstâncias trágicas. Através dos monólogos interiores expressos vagarosamente em voz off por Vincent Prince no seu tom sombrio e espectral, o espectador é levado a penetrar na vida quotidiana de Morgan e a percorrer os mais ínfimos recantos da sua mente destroçada. Durante o dia, podemos vê-lo a percorrer as ruas desertas da cidade à procura de alimentos, investigando todas as casas e dando caça aos vampiros, transportando e cremando os corpos das suas vítimas ou reforçando as defesas do seu refúgio com cabeças de alho colocadas estrategicamente nas portas, janelas e paredes. À noite, distrai-se a ouvir música, a ler ou a ver antigos filmes da família. Assistimos ainda às suas tentativas desesperadas para encontrar uma cura que possa salvar outros possíveis sobreviventes. Mas, prisioneiro da solitária e exaustiva rotina da sua vida diária, Morgan vai, a pouco e pouco, caindo nas malhas da loucura. Trata-se de uma notável interpretação teatral que se encontra em perfeita simbiose com o tom, muito próximo da novela literária, do argumento escrito por Swanson e Leicester.


O que marca a diferença entre o filme de Salkow e tantas outras produções de terror de baixo orçamento surgidas nos anos 60 é a riqueza da sua alegoria. Considerado por Stephen King o epítome do filme de terror político, The Last Man on Earth aborda de modo pertinente e eficaz a complexidade que envolve o conceito de normalidade. Pensando agir em prol do bem comum, Morgan acaba por transformar-se numa máquina implacável de matar. Perseguindo e matando sem dó nem piedade durante o dia e escondendo-se durante a noite, Morgan passa a ser uma perigosa ameaça à sobrevivência da comunidade, que entretanto se desenvolveu à sua volta, de criaturas que oscilam entre o estado vampiresco e a condição humana. Esta engenhosa mudança de situação é que faz de The Last Man on Earth uma reflexão fascinante sobre a subjectividade da justiça, da ordem e da moral. No final, Morgan é capturado e castigado pelas mortes que provocou. É que sendo ele o único homem normal no mundo, acaba por se tornar na aberração, no anormal. Os vampiros, agora a norma, começam a construir um novo mundo, uma nova ordem e ele persegue-os e mata-os. É, aliás, por aí que o título do livro que o filme adapta encontra o seu significado: tal como os vampiros eram, para os humanos, lendas de medo, de morte, assim Morgan se tornou uma lenda viva para eles.

The Last Man on Earth é, por natureza, uma obra intemporal, na medida em que está impregnado de conotações políticas directas. Se em 1964 podia funcionar como denúncia da repressão sistemática perpetrada pelos regimes comunistas, hoje a força da sua alegoria pode aplicar-se perfeitamente aos métodos aplicados na luta contra o terrorismo. Além do mais torna-se evidente a carga profundamente actual que carrega, devido ao modo como retrata um mundo ameaçado por uma misteriosa epidemia, que tende a dizimar toda a humanidade, e como as populações se relacionam com o assunto, desenvolvendo novas formas de organização social que, em nome da uma certa sobrevivência grupal, se sobrepõem aos direitos e às liberdades individuais.


O livro de Matheson conheceu mais duas adaptações cinematográficas. A primeira, é uma excelente releitura de Boris Sagal, intitulada The Omega Man (1971), e conta com Charlton Heston à frente do elenco. A segunda, é o sofrível I Am Legend (2007), de Francis Lawrence, uma produção tipicamente hollywoodiana protagonizada por Will Smith. The Last Man on Earth é, de longe, a melhor versão, apostando num terror atmosférico e subterrâneo, intimista e despojado, para assim conseguir uma maior conivência com aquele que é, afinal, o tema central do texto: a solidão.

1 comentário:

A.Harff disse...

Esbarrei no seu blog por acaso. Tentando encontrar a ficha técnica do meu mais recente filme "A estrela do Mar, de Man Ray acabei lendo a sinopse aqui.

Texto mt bem escrito, me fez ver detalhes que não tinham me chamado atenção no curta. Suas escolhas diferentes nos filmes chamaram minha atenção, que já sou fã assídua do site de download de filmes raros www.makingoff.org

Seu link já está nos meus favoritos.