quinta-feira, 1 de maio de 2008

MACUNAÍMA (JOAQUIM PEDRO DE ANDRADE, 1969)









Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) foi um dos mais destacados representantes do chamado Cinema Novo brasileiro. O Cinema Novo, cujas primeiras obras remontam ao final dos anos 50, assumiu-se como um movimento estético, cultural e político que procurou mudar as concepções da produção cinematográfica brasileira, até então completamente dependente da padronização estilística e temática da indústria norte-americana. A frase «Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça», pronunciada por Glauber Rocha, um dos ícones do movimento, tornou-se o lema de um conjunto de cineastas, como Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e Roberto Santos, empenhados em construir um cinema crítico, com preocupações sociais e, acima de tudo, enraizado na cultura brasileira.


Joaquim Pedro de Andrade é, porventura, um dos autores mais fiéis aos princípios do Cinema Novo. O seu cinema é eminentemente nacional-popular, na medida em que nunca perdeu de vista a preocupação inicial de manter sempre vivo o diálogo com o público, usando símbolos da cultura popular brasileira sem, contudo, abdicar das marcas distintas de um cinema de autor.

Na obra cinematográfica de Joaquim Pedro de Andrade sente-se uma pulsação comum, a marca da identidade cultural do povo brasileiro. Mas não se trata de uma busca de identidade, tema recorrente no cinema brasileiro, antes uma revelação dessa mesma identidade. Joaquim Pedro de Andrade move-se de um tema para outro sem nunca abandonar os espaços culturais, históricos, políticos, eróticos e geográficos do Brasil. Ao abordar géneros tão diversos como o drama romântico rural em O Padre e a Moça (1965), o teatro histórico brechtiano em Os Inconfidentes (1972), a comédia burguesa em Guerra Conjugal (1975), a fantasia pornográfica em Vereda Tropical (1977), Joaquim Pedro nunca afasta o olhar da realidade psicológica, social e política do seu país. Mas é com Macunaíma (1969), uma rapsódia da psique brasileira construída com as cores vivas de uma representação que alia a chanchada ao teatro, o circo ao cinema, que Joaquim Pedro de Andrade se aproxima definitivamente do público, do gosto popular, e inaugura um estilo próprio que atravessará toda a sua obra, descrevendo com humor e inteligência o carácter do povo brasileiro.

Macunaíma transporta para a linguagem cinematográfica uma das obras literárias mais significativas para a compreensão da cultura brasileira, o romance modernista de Mário de Andrade, Macunaíma, O Herói Sem Nenhum Caráter, publicado em 1928.

O livro é constituído pelo encontro de mitos e lendas indígenas (sobretudo as amazónicas, recolhidas pelo antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg nos finais do séc. XIX e publicadas na obra monumental Vom Roroima zum Orinoco, entre 1916 e 1924) com registos da vida brasileira quotidiana, misturando superstições, frases feitas, provérbios e tradições populares recolhidas pelo próprio Mário de Andrade.

Mário de Andrade escreveu o livro em quinze dias, no final de 1926, durante umas férias numa fazenda da família, em Araraquara, interior de São Paulo. Em 1928, ao ser lançada a primeira edição, Macunaíma recebe a classificação de «história». Ao publicar o capítulo VII com o título de «Macunaíma», no Diário Nacional de São Paulo em 14 de Julho de 1928, Mário de Andrade usa a classificação «romance folclórico». Só na segunda edição, saída em 1937, o autor resolveu chamá-la de «rapsódia», mais de acordo com a variedade de motivos populares que encerra. Rapsódia é a maneira de cantar dos rapsodos gregos. São também rapsódias os antigos romances versificados e musicados, as canções de gesta de Rolando e, actualmente, as gestas de cangaceiros, entoadas nas feiras do Nordeste brasileiro pelos cantadores. Daí a aproximação com as epopeias medievais.

O filme narra a trajectória atribulada de Macunaíma que deixa a selva onde nasceu e para ela retorna após experimentar uma tumultuosa aventura na cidade.

As sequências do filme podem ser agrupadas em três grandes blocos narrativos que acompanham o nascimento e a infância do protagonista, a vida na grande cidade e o regresso ao mato.

Macunaíma nasce «preto retinto e filho do medo da noite», numa maloca pobre, construída com folhas de bananeira e terra, num lugar chamado Pai da Tocandeira, Brasil. A mãe é que lhe dá o nome, profetizando a sua má sina. «Fica sendo Macunaíma. Nome que começa por má tem má sina». Passa seis anos sem falar, por pura preguiça, e só anda quando ouve o som do dinheiro. Passa o tempo comendo terra, observando o trabalho dos outros, nadando com a famíla no rio e brincando no mato com Sofará, companheira do irmão.

Após a morte da mãe, Macunaíma parte para a cidade na companhia dos seus dois irmãos, Maanape e Jiguê. No caminho encontram uma fonte e Macunaíma transforma-se num homem branco ao beber de suas águas. Na cidade, Macunaíma vive incríveis aventuras. Conhece vigaristas, vadios, mendigos e prostitutas. Envolve-se com Ci, uma guerrilheira urbana, ninfomaníaca e apaixonada por dinheiro, com quem tem um filho preto. Após a morte de Ci e do filho, perde o rumo e vê-se obrigado a enfrentar gigante Venceslau Pietro Pietra, o vilão milionário, para reconquistar o Muiraquitã, a pedra talismã que herdara de Ci.

Reconquistada a pedra, Macunaíma retorna ao mato carregado de electrodomésticos, inúteis troféus da civilização, mas na terra onde nasceu espera-o um fim triste, tão antropofágico quanto a sua própria vida.

Obra ambiciosa, Macunaíma procura reflectir alguns dos elementos formativos da cultura brasileira, como a mestiçagem, a negação da identidade e o diálogo e o conflito entre culturas, que dão corpo à obra homónima de Mário de Andrade. O filme não é uma versão literal do livro, mas uma releitura, à luz do contexto da sociedade brasileira dos finais dos anos sessenta, de muitos dos aspectos abordados pelo modernista Oswald de Andrade no seu Manifesto Antropófago (1928). Com efeito, as grandes transformações económicas, políticas e culturais que então ocorriam no Brasil, resultantes do aumento da dependência externa, do desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão, do surgimento do tropicalismo ou das tendências mais populares da produção posterior ao Cinema Novo influenciaram de forma marcante tanto o seu discurso como a sua linguagem.

No dizer de Joaquim Pedro de Andrade, na sociedade brasileira e na sociedade latino-americana em geral «os homens se devoram uns aos outros. Macunaíma trata dessa realidade antropofágica através de um personagem irreverente, que rompe com nossa coerção educativa.»

«A antropofagia é uma forma de consumo que os subdesenvolvidos usaram de maneira exemplar. Os índios brasileiros, notadamente, logo ao serem descobertos pelos nossos primeiros colonizadores, tiveram a felicidade de escolher o bispo português D. Pero Fernandes Sardinha, para comê-lo em ato memorável. Não foi a toa portanto que os modernistas de 22 dataram o seu manifesto antropófago: ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha.»

«Todo consumo é redutível, em última análise, ao canibalismo. As relações de trabalho, como as relações entre as pessoas, as relações sociais, políticas e econômicas, são ainda basicamente antropofágicas. Quem pode come o outro, por interposto produto ou diretamente, como nas relações sexuais. A antropofagia se institucionaliza e se disfarça. Os novos heróis, à procura da consciência coletiva, partem para devorar quem nos devora, mas são fracos ainda.»

«Mais numerosamente, o Brasil, enquanto isso, devora os brasileiros. Macunaíma é a história de um herói brasileiro que foi comido pelo Brasil.»

«Macunaíma é um encontro latino-americano, o descobrimento de fronteiras ideológicas mais amplas. É um filme que encontra a América Latina em todos os sentidos, em uma busca nacional. [...] Outra coisa importante: a representação da antropofagia. Vemos que as coisas não mudaram desde a colonização, quando os índios comeram os portugueses... Como somos fracos, ainda, nossa única defesa é a antropofagia. Modernizada se assim se quiser, mas a relação entre os homens é ainda antropofágica. O filme não é de modo algum simbólico, seria um tratamento fraco. Quis mostrar que aqueles personagens da lenda se repetem, são representativos, de certos povos, da América Latina, do Terceiro Mundo. O que existe sim, é uma exacerbação de elementos que vem a ser reveladora.»

Macunaíma foi lançado em plena época da ditadura militar, enfrentando grandes dificuldades devido a problemas com a censura. O censor que avaliou o filme admitiu desconhecer o livro de Mário de Andrade. No entanto, acabou por sugerir 15 cortes, incluindo todas as cenas de nudez protagonizadas por Dina Sfat (a guerrilheira Ci), o texto «muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são», as cenas em que aparece nas vestes de Joana Fomm (Sofara) o símbolo da Aliança para o Progresso, organização norte-americana odiada pelos militares, e a sequência memorável na qual Macunaíma propõe a uma das suas namoradas «juntar pêlo com pêlo para cobrir o pelado», que não passa de um bem-humorado convite à fornicação.

Após um processo atribulado que envolveu conversações com o Chefe da Polícia Federal, então superior ao Chefe da Censura, uma sessão privada para a mulher do Chefe da Polícia e um grupo de amigas e uma chamada de atenção para a crítica internacional, o número de cortes foi reduzido para três.

A versão censurada de Macunaíma foi lançada no Rio de Janeiro a 3 de Setembro de 1969. No ano seguinte, foi distribuída em França por Claude Lelouch, com o slogan «Um filme estúpido e cruel». Ganhou o Grande Condor de Ouro, o prémio para Melhor Filme no Festival de Mar del Plata, na Argentina, e foi aclamado pela crítica no Festival de Veneza. No Brasil, recebeu o prémio Golfinho de Ouro do Conselho do Museu da Imagem e do Som e tornou-se um enorme sucesso de bilheteiras.

2 comentários:

Mom disse...

Olá,
Macunaíma não é do Oswald, mas sim do Mário de Andrade.

Eugénio Vital disse...

Como se diz no parágrafo décimo segundo: "O filme não é uma versão literal do livro, mas uma releitura, à luz do contexto da sociedade brasileira dos finais dos anos sessenta, de muitos dos aspectos abordados pelo modernista Oswald de Andrade no seu Manifesto Antropófago (1928)."
Oswald escreveu o Manifesto, Mário escreveu o romance (ver parágrafo quarto) e Joaquim fez o filme.