quarta-feira, 28 de maio de 2008

PORCILE (PIER PAOLO PASOLINI, 1969)

Ao nível internacional, Pier Paolo Pasolini é recordado, sobretudo, como um dos cineastas mais importantes surgidos na nova vaga do cinema italiano do pós-guerra, mas, em Itália, o seu nome é associado a muito mais do que uma obra cinematográfica inovadora e singular.

Quando aparece o seu primeiro filme, Accattone (1961), Pasolini já tinha atrás de si um longo passado como argumentista de Fellini e Bolognini, entre outros, e um enorme prestígio como poeta (L’Usignolo della Chiesa Cattolica, 1943-49; La Meglio Gioventù, 1954; La Cenere di Gramsci, 1957; La Religione del mio Tempo, 1961) e romancista (Ragazzi di Vita, 1955; Una Vita Violenta, 1959).

Nos 15 anos que se seguiram, até à sua morte em 1975 (foi brutalmente assassinado num campo de Ostia), realizou cerca de vinte filmes, apresentando muitas vezes perspectivas controversas que lhe valeram inúmeros processos judiciais, traduziu e escreveu peças de teatro (Orgia, Porcile, Calderón, Affabulazione, Pilade, Bestia da Stile), publicou vários volumes de poesia e foi muito activo como crítico (de política, teatro, cinema, literatura…) em vários diários e revistas, actividade que deu vida a muitas publicações, parcialmente póstumas (Empirismo Eretico, 1972; Scritti Corsari, 1975; Descrizioni di Descrizioni, 1979), e o estabeleceu como uma das vozes mais importantes e polémicas do panorama político e intelectual italiano do séc. XX.

Porcile (1969) é um filme formado por dois episódios mostrados em alternância através da montagem paralela. Uma das histórias decorre nas encostas áridas de um vulcão, onde um jovem leva uma vida de crime e violência, que incluem o assassinato e o canibalismo. Aos poucos, o jovem junta à sua volta um pequeno número de proscritos que se dedicam a assaltar e a matar os viajantes, até ao dia em que os soldados de uma cidade próxima resolvem acabar com as suas atrocidades. O grupo é capturado e os seus membros são condenados à morte. Enquanto alguns elementos do grupo admitem, de imediato, a culpa, o jovem líder não mostra quaisquer sinais de arrependimento. A outra história tem lugar na Alemanha dos anos 60 e tem como protagonista Julian, filho de um grande industrial de Bona, chamado Klotz. Julian sofre de uma anomalia sexual invulgar: só obtém satisfação sexual através de relações com porcos. O amor inusitado pelos porcos impede Julian de participar com a namorada numa manifestação estudantil em Berlim e afasta-o dos negócios do pai. Mas este fetiche é descoberto por Herdhitze, um ex-criminoso nazi, que aproveita a situação para chantagear o pai de Julian, seu rival nos negócios. Para se defender, Klotz ameaça revelar o passado político de Herdhitze. No fim de tudo, Klotz e Herdhitze decidem, como bons capitalistas, unir esforços ao invés de se enredarem numa luta desastrosa para a reputação e os negócios de ambos. Enquanto celebram uma futura parceria económica, recebem a notícia de que Julian foi comido pelos porcos. Após se terem certificado de que não restam vestígios do corpo de Julian, os dois homens resolvem firmar um pacto de silêncio sobre o ocorrido e prosseguir com os seus planos económicos.

Porcile é uma obra pensada entre os anos 1965 e 1967, ao mesmo tempo que Teorema e outras tragédias em verso que Pasolini escreveu durante um período de convalescença. Trata-se, como referiu o autor, de uma obra surgida no período que precede o movimento estudantil que já tinha produzido formas revolucionárias e contestárias, mas ainda não conscientes de si, ainda não inseridas no pensamento marxista, mas puramente anárquicas e românticas. Porcile nasce, assim, num momento de total pessimismo, um momento da crise do marxismo, do estalinismo ainda não totalmente superado, da restauração neo-capitalista e da revolta cultural da vanguarda, profundamente académica e reaccionária.

O filme desenvolve, sobretudo, o tema do canibalismo moderno, justapondo duas narrativas cujo contraponto decorre da analogia das situações: o canibalismo de um bando de foras-da-lei, ritualista, devoradores de carne humana e a burguesia alemã actual que prolonga a grande barbárie nazi e destrói, através do símbolo dos porcos devoradores do filho ímpio, todos os que não obedecem ao sistema.

Segundo Pasolini, os dois episódios estão unidos pelo mesmo fio condutor, isto é, obedecer ou morrer. Em comum têm, ainda, um aspecto formal que é saber alternar um episódio mudo e meta-histórico com um episódio falado e histórico.

No episódio do vulcão, o protagonista é uma espécie de santo, mas às avessas. As suas últimas palavras antes do suplício: «Matei o meu pai, comi carne humana, tremo de alegria», são semelhantes às de um mártir. Sabendo que vai morrer, exprime a sua fé e glorifica o pecado através do qual pôde rebelar-se contra a sociedade, ela própria canibal. O canibalismo assume aqui toda a sua carga alegórica: um símbolo da revolta levado até às últimas consequências.

No outro episódio, Julian leva uma vida secreta, irracional, completamente contrária às regras de uma sociedade racional e que, por isso mesmo, o acaba por devorar. O que o leva a comunicar com o universo místico e o subtrai, em parte, ao domínio da sua família burguesa e à autoridade do pai, é o seu amor pelos porcos. É um amor simbólico, análogo ao canibalismo, mas com uma pequena diferença. Enquanto o canibalismo é o símbolo de uma revolta absoluta na sua forma mais hedionda, o amor pelos porcos fica a meio caminho.

Pasolini salientou que a moral do filme, se é que tem alguma, é que a sociedade actual destrói os seus filhos obedientes e, também, os que se comprazem na ambiguidade. Assim como no episódio do vulcão se vê como a sociedade devora o filho desobediente, também no episódio dos industriais alemães vemos como ela devora o filho que não é obediente nem desobediente. Em última instância, o que se pretende dizer é que a sociedade enquanto instituição é sempre repressiva.

1 comentário:

kadgi disse...

Desculpa que te diga, mas desconfio que Pasolini está a ser sobrevalorizado outra vez, pelo menos no seu braço cinematográfico. Não vi este e vou tentar, mas... Fogo, eu odeio Pasolini.