quinta-feira, 15 de maio de 2008

SHOCK CORRIDOR (SAMUEL FULLER, 1963)

O cinema de Samuel Fuller (1912-1997) é um cinema de um ex-jornalista e de um veterano de guerra, e é daí que parece provir o seu estilo directo, visceral, gráfico, selvagem e controverso. Alguns críticos desdenharam a sua obra por a considerarem primitiva, mas outros elevaram-na ao estatuto de culto valendo-se do mesmo adjectivo. François Truffaut escreveu que «o cinema de Fuller não é o de um principiante, é o de um primitivo; o seu trabalho não é rudimentar, mas rude; os seus filmes não são simplistas, mas simples.» Os filmes de Fuller são, à semelhança do seu carácter, excessivos, bruscos e cheios de arestas, o que levou Martin Scorsese a considerá-lo um especialista da violência. Para Bertrand Tavernier, Fuller é um democrata, generoso, idealista, cínico e, ao mesmo tempo, um visionário. Jean-Luc Godard apodou Fuller de bárbaro e prestou-lhe tributo, colocando-o, na obra-prima Pierrot Le Fou (1965), a declamar o seu célebre credo: «Um filme é como um campo de batalha. Amor, ódio, acção, violência, morte. Numa palavra: emoção.»

Shock Corridor (1963) é um dos filmes de Samuel Fuller mais aclamados tanto pela crítica como pelo público. O protagonista de Shock Corridor é Johnny Barrett, um repórter obcecado pela fama que está disposto a tudo para ganhar o Prémio Pulitzer, o mais importante do jornalismo norte-americano. Para alcançar este objectivo, Barrett congemina, com a conivência do seu chefe e de um psiquiatra amigo e a ajuda relutante da sua namorada, um plano para se fazer passar por louco e conseguir ser admitido num estabelecimento psiquiátrico, de modo a investigar e resolver um crime que permanece insolúvel.

Mas Shock Corridor não se resume à história de uma investigação criminal nem se limita a propor uma reflexão séria sobre o jornalismo de investigação, os exageros do jornalismo sensacionalista ou as práticas inumanas de alguns estabelecimentos psiquiátricos. O alvo de Samuel Fuller é muito mais vasto e abrangente. A acção decorre na rua, o espaço público por excelência. No entanto, não se trata da rua na verdadeira acepção da palavra, ou seja, da via pública percorrida todos os dias por homens e mulheres no pleno gozo dos seus direitos de cidadania. Trata-se, antes, do corredor principal (claramente expresso no título do filme) de uma instituição psiquiátrica que os funcionários, sarcasticamente, resolveram apelidar com o nome de «rua». Neste sentido, aquilo que pertence ao domínio público passa para a esfera do privado e o que é exclusivo do exterior passa a ser, também, interior, graças a uma estrutura dramática que copia para o espaço confinado de um hospício a hierarquia social do exterior e a um lote de personagens que funcionam como caixas de ressonância dos discursos militares, políticos, científicos, jornalísticos e xenófobos. Esta redução de espaços permitiu criar um ambiente concentracionário que Samuel Fuller utiliza para, através de uma brilhante habilidade narrativa e um vasto leque de mecanismos cinematográficos, proceder a uma crítica global à sociedade norte-americana.

Cada um dos pacientes do hospício com quem Barrett trava contacto, a fim de descobrir o autor do crime, representa uma das facetas mais negras e obscuras da história da sociedade norte-americana: o racismo, a xenofobia e a ameaça atómica.

Trent é um estudante negro, o primeiro a ingressar, ao abrigo de um projecto de integração racial nas escolas do país, numa Universidade exclusiva para brancos do sul dos Estados Unidos. Exposto a frustrações e humilhações diárias por parte dos seus colegas brancos, Trent acaba por atingir uma situação de colapso psicológico que o leva a refugiar-se num mundo imaginário em que acredita ser um dos mais duros militantes da organização racista Ku Klux Klan. No manicómio, passa o tempo a fazer capuzes do Ku Klux Klan com fronhas de almofada, a proferir discursos inflamados em defesa da supremacia branca e a perseguir e a maltratar os negros da instituição.

Stuart é um homem simples educado no sul dos Estados Unidos no seio de uma família xenófoba e intolerante. Capturado e convertido ao comunismo durante a Guerra da Coreia, Stuart passa a auxiliar os seus correligionários na realização de interrogatórios aos prisioneiros norte-americanos até ao dia em que é «desprogramado» pelo Sargento Callowed e regressa a casa para enfrentar a dura realidade que o seu país reserva aos veteranos de guerra. Votado ao ostracismo e considerado um pária da sociedade, acaba por forjar e viver intensamente uma nova personalidade — Jeb Stuart, um General sulista da Guerra de Secessão, arquitecto de múltiplas batalhas onde norte-americanos se degladiam entre si na defesa de convicções ideológicas.

O Dr. Boden é um cientista brilhante que enlouqueceu após ter colaborado no desenvolvimento da bomba atómica, passando a apresentar a idade mental de uma criança de seis anos que se diverte a desenhar e a brincar às escondidas.

O verdadeiro motor de Shock Corridor é a história de Barrett, um homem ultrapassado pelo seu desejo de fama e reconhecimento social, que Samuel Fuller extrapola de forma alegórica, criando uma poderosa parábola que nos revela uma verdade aterradora: se um homem pode alcançar a destruição por via da sua imersão em pensamentos irracionais e desligados da realidade, o mesmo pode acontecer a toda uma sociedade. Samuel Fuller descreve os Estados Unidos como uma sociedade egocêntrica, em que os fins justificam os meios, dominada pela alienação corporativa das grandes instituições, aqui representadas pelo jornal e a clínica psiquiátrica, que arrastam consigo tudo o que encontram pelo caminho. O comportamento do jornalista é, neste contexto, paradigmático. À medida que prossegue as suas investigações e se aproxima da solução do enigma, a sua sanidade mental começa a dar sinais de forte instabilidade. No final do filme, podemos vê-lo como um vencedor vencido, já na posse do nome do autor e do móbil do crime mas totalmente confinado à loucura. Como o sádico Dr. Menkin ironicamente observa, Barrett acaba por tornar-se um louco mudo laureado com o Prémio Pulitzer.

1 comentário:

Anónimo disse...

Fantático