quinta-feira, 12 de junho de 2008

THE HAUNTING (ROBERT WISE, 1963)

Robert Wise (1914-2005) foi um dos cineastas mais ecléticos da história do cinema norte-americano. Começou a sua carreira, em meados dos anos 30, como montador de som dos estúdios da RKO e, em 1939, passou para a área da montagem, integrando a equipa que trabalhou na obra-prima absoluta de Orson Welles, o mítico Citizen Kane (1941). O ano seguinte ficou marcado pela sua ligação a uma das páginas mais negras da história de Holywood, a mutilação da segunda longa-metragem de Orson Welles, The Magnificent Ambersons, ordenada pelos responsáveis dos estúdios da RKO. Em 1944, iniciou-se na realização com The Curse of the Cat People e, desde então, foi responsável por cerca de quarenta títulos que exerceram uma influência decisiva na definição dos diversos géneros cinematográficos que abordou e, em última instância, da própria indústria cinematográfica norte-americana.

A sua obra, vasta e diversificada, que vai da ficção científica (The Day the Earth Stood Still, 1951) ao western (Blood on the Moon, 1948), passando pelo policial (Odds Against Tomorrow, 1959) e pelo filme histórico (Helen of Troy, 1955), pode ser caracterizada por dois traços essenciais: um perfeccionismo técnico absoluto e uma forte vocação humanista. Mesmo em obras tão díspares como West Side Story (1961) e Star Trek: The Motion Picture (1979), o foco da história não assenta nos números musicais, no primeiro caso, ou nas aventuras popularizadas pela série televisiva, no segundo, mas nos conflitos emocionais que resultam da complexidade das relações humanas.

The Haunting (1963) é baseado num dos romances mais representativos do género de terror, The Haunting of Hill House (1959), de Shirley Jackson. O livro desenvolve o tema recorrente da casa assombrada e acrescenta-lhe uma forte dose de psicologia aplicada para explicar as motivações e as relações dos personagens, transformando aquilo que poderia não passar de mais uma corriqueira história de assombrar num estudo profundo dos recantos mais obscuros e inconfessáveis da mente humana.

The Haunting é uma obra-prima de terror sobrenatural, mais psicológico do que físico, que se caracteriza pela possibilidade de vários níveis de leitura. Por um lado, é um filme de horror que retrata o ambiente maléfico de uma casa assombrada e os efeitos que esta exerce sobre todos aqueles que ousam penetrar no seu seio, e, por outro, é um relato sobre o processo de auto-descobrimento da personalidade individual e das tendências sexuais de uma mulher. A essência do filme reside neste último aspecto, enquanto os fenómenos sobrenaturais que aparentemente ocorrem na mansão são elementos secundários que acompanham as transformações sofridas pelo personagem central, autêntica pedra angular em torno da qual giram todos os acontecimentos e peripécias dos outros ocupantes da casa.

O início do filme funciona como um prólogo destinado a integrar o espectador na história perturbada de Hill House. Construída no séc. XIX por um milionário excêntrico para a mulher e os filhos que nunca teve, a mansão ficou marcada por uma aura de tragédias e mistérios que despertam a curiosidade do Dr. Markway, um cientista interessado no sobrenatural. Após muita insistência por parte do Dr. Markway, a proprietária da casa autoriza a realização de uma experiência destinada a estudar a suposta existência de fantasmas na casa, desde que o seu sobrinho, Luke Sanderson, também faça parte dela. Ao Dr. Markway e a Luke, juntam-se Theodora, uma mulher enérgica, arrogante e sensual que supostamente tem poderes de clarividência, e Eleanor, uma solteirona que passou praticamente toda a sua juventude a cuidar da mãe doente, e que agora vive com a irmã e o cunhado. Quando Eleanor era uma criança, a sua casa foi atingida durante vários dias por uma chuva de pedras, facto que ela refuta veementemente.

A história é contada a partir do ponto de vista da tímida e insegura Eleanor, que procura alcançar o controlo do seu próprio destino, libertando-se dos constrangimentos e responsabilidades que desde sempre limitaram a sua existência. Eleanor é uma estranha no mundo em que vive, em relação ao qual alimenta sentimentos de atracção e de repulsa, fruto das contradições que habitam no seu interior. Entre Eleanor e a segura e confiante Theodora desenvolve-se uma relação de cariz claramente lésbico, embora dissimulada, dado o contexto da época. Esta relação, que oscila entre o amor e o ódio, atinge o clímax quando Eleanor começa a mostrar sinais de uma forte afeição pelo Dr. Markway, despertando em Theodora sentimentos de rejeição. Com efeito, Eleanor vive num estado de angústia e dúvida permanente, não só em relação ao lugar fantasmagórico em que se encontra, mas também em relação à sua própria identidade sexual.

A insatisfação de Eleanor constitui o motor das suas extraordinárias capacidades extra-sensoriais. Se, por um lado, Eleanor parece experimentar verdadeiros encontros com o oculto, por outro, os eventos paranormais que a afectam também podem ser apenas o reflexo da sua mente perturbada e da sua necessidade de aceitação e de pertença a um lugar. Este matiz, claramente psicológico, imprime ao filme um tom ambíguo. Nunca saberemos se o que aconteceu na mansão foi, de facto, real, ou apenas fruto da imaginação delirante de Eleanor. Até o Dr. Markway, um homem de ciência que só acredita naquilo que pode ser comprovado experimentalmente, e Luke, o céptico e impulsivo herdeiro, acabam por se render à influência da sinistra casa, a ponto de começarem a questionar as suas convicções.

O final do filme aponta para a redenção, para a exorcização dos demónios internos que atormentam Eleanor que, cada vez mais identificada com os ocupantes originais da casa e os sinais que esta lhe parece enviar, se convence de que a experiência do Dr. Markway teve como único objectivo a sua permanência, para sempre, naquela misteriosa e doentia casa. O seu destino servirá, assim, para escrever mais algumas páginas sobre a maldição que envolve a mansão Hill.

O que mais surpreende em The Haunting é a forma narrativa que o realizador aplica. A despeito da utilização abusiva de mecanismos, por assim dizer, pouco cinematográficos, como a presença contínua das vozes interiores de Eleanor ou os longos diálogos teatrais, o filme é sustentado por outros recursos de cariz fortemente visual, como a eficaz e acutilante utilização do cinemascope, os elaborados enquadramentos apresentados com uma extrema perícia e o rico e inteligente tratamento de espaços sufocantes que funcionam como contraponto às transformações psicológicas de Eleanor. Parece que estamos perante dois objectos fílmicos antagónicos (um, herdeiro de uma narrativa mais literária, e outro, puramente cinematográfico), mas o rigor da mise en scène dilui esta dicotomia em prol de uma obra plenamente cinematográfica em que as imagens, ao invés das palavras, são os principais instrumentos narrativos. A primazia dos elementos visuais torna-se particularmente evidente nalgumas cenas como, por exemplo, no enquadramento em plano picado de Eleanor quando esta observa a sua imagem reflectida ao entrar na mansão (prenúncio simbólico da relação doentia que vai estabelecer com o edifício), ou o plano impressionante, captado num travelling para trás, que vemos durante a primeira experiência paranormal das duas mulheres, no qual Eleanor surge imersa na mais completa obscuridade.

O filme é também exemplar noutros capítulos técnicos. Wise adapta o romance de Shirley Jackson com uma enorme economia de meios, prescindindo, quase em absoluto, de efeitos especiais. A excepção encontra-se, por exemplo, na porta que palpita como se de um coração se tratasse. A gigantesca mansão é filmada de modo a parecer viva, consciente, verdadeiramente possuída por espíritos maléficos. Os espaços estreitos e sombrios da velha casa são filmados a partir de um ponto de vista subjectivo, muito longe dos tratamentos objectivos e goticistas clássicos. Através do uso de elementos deformantes e amplificadores, como os enquadramentos oblíquos, as reflexões de espelhos, as lentes olho de peixe e uma montagem misteriosa do som e da imagem, Wise dá-nos a conhecer, com um profundo sentimento de estranheza, um mundo que não é mais do que o reflexo da natureza interior de Eleanor.

The Haunting exerceu uma poderosa influência no cinema de terror moderno, tanto no género específico da casa assombrada (com The Shining, de Stanley Kubrick, à cabeça, um filme que mantém o mesmo clima hipnótico e ambíguo da obra de Wise), como na trajectória de alguns cineastas em particular, como é o caso de Tobe Hooper, admirador confesso de The Haunting. Recentemente, subprodutos como The Haunting (Jan De Bont, 1999), um remake deplorável da obra de Wise, The House on Haunted Hill (William Malone, 1999), outro remake dispensável de uma obra homónima realizada por William Castle em 1969, e 13 Ghosts (Steve Beck, 2002), uma produção da dupla Joel Silver/Robert Zemeckis que torna a revisitar uma obra de Castle produzida em 1960, reduziram à mediocridade esta apaixonante visão do terror e do fantástico.

Sem comentários: