quinta-feira, 5 de junho de 2008

HURLEMENTS EN FAVEUR DE SADE (GUY DEBORD, 1952)

O Movimento Letrista foi fundado pelo artista romeno Isidore Isou em 1945, poucos meses depois de se ter instalado em França, afirmando-se desde logo como a verdadeira vanguarda artística do pós-guerra, continuadora dos caminhos desbravados pelos movimentos Dada e Surrealista. Proclamando a destruição de uma poesia de palavras em detrimento de uma estética baseada na letra e nos signos, o letrismo desenvolveu uma obra proteiforme que, para além de reinventar as ciências da linguagem e de criar novas formas de expressão artística, como a poesia onomatopaica, procurou, graças ao conceito de criação generalizada, transformar a totalidade das áreas do saber e fundar os alicerces de uma sociedade mais justa e igualitária.

O Movimento Letrista desdobrou-se em várias correntes, como a hipergrafia (1950), o ultra-letrismo (1953), a arte infinitesimal (1956), arte super-temporal (1960) e o excoordismo (1992), e a sua acção estendeu-se a uma grande variedade de formas de criação artística, que vão do cinema (Traité de Bave et d'Éternité, de Isidore Isou, 1951) à dança (Chorégraphies lettristes, de Maurice Lemaître), passando pela pintura (Hypergraphies lettristes, de Isou, Lemaître, Roland Sabatier, Micheline Hachette, Alain Satié…) e pelo romance (Manipulitude, de Roland Sabatier, 1963), todas elas suportadas por um corpus teórico sólido e consistente.

Ao contrário das vanguardas dos anos vinte e trinta do séc. XX, que encaravam o cinema como um campo de ensaio das suas teorias pictóricas, musicais ou literárias, o letrismo colocou o cinema no centro das suas preocupações artísticas.

As propostas cinematográficas letristas procuram ultrapassar uma concepção servil do cinema, baseada no aperfeiçoamento dos mecanismos técnicos e na representação fiel da realidade e dos modelos sociais dominantes. As suas bases foram lançadas no início dos anos 50 do século passado por Isidore Isou e Maurice Lemaître, com a cumplicidade circunstancial de, entre outros, Gil J. Wolman, François Dufrêne, Marc’O e Guy Debord: a discrepância entre o som e a imagem; a arquitectura desconstrutiva de imagens arbitrárias; as regras imprevisíveis do acaso; as projecções de filmes concebidas como um acontecimento muito próximo do happening; o cinema infinitesimal, que potencia o imaginário e deita por terra os elementos comuns daquilo a que normalmente chamamos cinema.

No dia 30 de Junho de 1952, o primeiro filme de Guy Debord (1931-1994), Hurlements en faveur de Sade (1952), a sua única obra cinematográfica que se insere no Movimento Letrista, foi estreada no Ciné-Club d’Avant-Gardes do Musée de l’Homme, em Paris. As luzes foram desligadas e a sala mergulhou na escuridão. Com o ecrã completamente branco uma voz inexpressiva anuncia o título do filme e o nome do autor. Outra voz diz que o filme é dedicado a Gil J. Wolman e uma terceira recita: «Artigo 115. Se alguém se ausentar de sua casa e não se tiver notícias dela durante quatro anos, as partes interessadas podem pedir ao Tribunal de Primeira Instância para reconhecer oficialmente o desaparecimento de tal pessoa.» As vozes continuam a declamar fragmentos de textos de diferentes géneros enquanto o ecrã permanece totalmente branco, sem qualquer tipo de imagens. A certo ponto escuta-se a voz de Isidore Isou: «No início da projecção do filme, esperava-se que Guy-Ernest Debord subisse ao palco e fizesse algumas observações introdutórias. Se o tivesse feito, diria simplesmente: ‘Não existe filme. O cinema está morto. Não pode haver mais cinema. Passemos, se quiserem, ao debate.’» Após mais alguns textos lidos desapaixonadamente o ecrã escurece e o silêncio invade a sala durante dois minutos. A audiência começa a revelar sinais de descontentamento — alguns espectadores, entre os quais alguns letristas, irrompem em protestos exaltados, outros abandonam repentinamente a sala, e o director do Ciné-Club, Jean Gauliez, interrompe a projecção. A audiência suportou apenas pouco mais que 10 minutos.

De facto, este filme de Guy Debord, mais tarde chefe de fila dos situacionistas, é, mais do que um filme, uma provocação e um anti-filme. Hurlements en faveur de Sade dá-nos a ouvir, sem nunca recorrer a imagens, uma série de citações provenientes das mais variadas fontes, tais como, artigos do Código Civil, notícias de jornal, diálogos privados e excertos de poemas, tudo interrompido por frequentes silêncios. O ecrã apresenta-se ora branco ora negro. Quando a tela se encontra branca, escutamos fragmentos de textos lidos num tom monótono por Gil J. Wolman (voz 1), Guy Debord (voz 2), Serge Berna (voz 3), Barbara Rosenthal (voz 4) e Isidore Isou (voz 5). Durante a projecção dos silêncios a tela permanece totalmente escura. A sequência final é aterradora — 24 minutos ininterruptos de silêncio e escuridão.

Este evento é um exemplo paradigmático do cepticismo face não só ao cinema, mas também às imagens em geral, que marcou, posteriormente, as posições políticas e teóricas de Debord e dos situacionistas. A ausência de imagens no filme pode ser entendida como uma crítica ao modo como a cultura contemporânea e uma sociedade de controlo totalitário, de consumo espectacular passivo, utiliza a imagem como um instrumento ao serviço da uniformização e alienação típicas do capitalismo.

Ao abandonar a sala durante a projecção do filme, Debord transforma a sua ausência numa forma de presença espelhada na frase: «No início da projecção do filme, esperava-se que Guy-Ernest Debord subisse ao palco e fizesse algumas observações introdutórias.» Não é só o filme que permanece virtual, mas também Debord, o realizador, e o debate nem chega a acontecer. Além de não ter criado um filme, Debord negou o cinema, na medida em que nenhum filme é mostrado. Deste modo, Hurlements en faveur de Sade provoca uma situação paradoxal de aparecimento/desaparecimento — o artigo 115 do Código Civil contém, aliás, os parâmetros para a definição legal de desaparecimento. A ausência de uma obra e do seu autor abriu espaço para a reflexão crítica do espectador e a tomada de consciência de que, em meio século de história, o mundo já havia sido filmado, interessando agora a sua transformação.

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