quinta-feira, 26 de junho de 2008

PICNIC AT HANGING ROCK (PETER WEIR, 1975)

Durante uma excursão realizada no dia de S. Valentim de 1900, três alunas (Miranda, Irma e Marion) e uma professora (Miss McCraw) do Colégio Appleyard desaparecem, sem deixar rasto, em Hanging Rock, uma caprichosa formação rochosa do Estado de Victoria, no sudeste da Austrália. Este acontecimento, envolto numa aura de mistério, comove a opinião pública, que acompanha através da imprensa os progressos da investigação policial.

«What we see and what we seem are but a dream; a dream within a dream.» Esta frase, proferida por Miranda na sequência inicial do filme, encerra em si mesma grande parte do enigma insondável que domina Picnic at Hanging Rock (1975), a terceira longa-metragem do australiano Peter Weir, cujo início de carreira foi marcado por uma espécie de obsessão: a revelação dos contrastes entre a cultura aborígene australiana e os costumes assimilados pelos colonos ingleses.

O choque entre estes dois pontos de vista é bem visível, desde logo, no confronto que opõe a tímida e sensível Sara, apaixonada por Miranda e incapaz de superar a sua perda, à rígida e autoritária Mrs. Appleyard, a directora do Colégio. A tortura tenaz que esta inflige a Sara reflecte o poder asfixiante dos códigos de conduta moral ingleses sobre os nativos australianos. Mas, uma visão mais optimista dos modos de vida britânicos também é perceptível, designadamente, através da figura de Michael Fritzhubert, um jovem de ascendência nobre que conhece Miranda no dia do seu desaparecimento e, fascinado pela sua imagem, decide encontrá-la a todo o custo. Apesar do fracasso das buscas levadas a cabo pela polícia, Michael consegue penetrar no rochedo e resgatar, com vida, Irma.

Picnic at Hanging Rock pode ser encarado como um filme de contrastes. Além do choque entre culturas, sobressai a oposição entre o Homem e a Natureza: o Homem pensa controlar a Natureza mas, no fim, é a Natureza que sai vitoriosa. Os contrastes de índole social estão patentes na interacção de personagens pertencentes a diferentes classes socioeconómicas. Por último, pode observar-se um profundo desejo de liberdade mesclado com uma espécie de pulsão erótica que choca constantemente com a rigidez moral dos últimos anos da época vitoriana, período histórico que o filme retrata de forma brilhante.

A carga sexual, nunca explícita, parece ser outro dos pontos-chave do filme. O desejo não consumado é o que faz mover muitos dos personagens — o amor de Michael e de Sara por Miranda, o de Mrs. Appleyard por Miss McCraw… — num mundo onde o sexo é brutalmente reprimido.

Há algo no filme que desafia a razão. Com efeito, como explicar o desaparecimento de várias pessoas num ambiente natural e sob o sol do meio-dia? Neste contexto, a Natureza assume um papel preponderante no desenrolar da acção. A paisagem agreste do sudeste australiano encarna um pensamento de carácter mágico, animista, que se reflecte, por exemplo, na cosmogonia aborígene. Que esconde o labirinto rochoso de Hanging Rock? Será uma espécie de portal entre o mundo físico e o mundo espiritual? Na base do rochedo, o calor, a vegetação e o crepitar dos insectos funcionam como uma espécie de véu protector, isolando as jovens do resto do mundo. As conversas que mantêm versam sobre questões metafísicas, como a transmigração das almas, a predestinação e os universos paralelos. E talvez seja aqui, na questão dos universos paralelos, que reside a chave do mistério de Hanging Rock. A este respeito vale a pena recordar a relação que existe entre Sara e Albert, um jovem lacaio. Os dois jamais se encontram em toda a história, mas, através de algumas recordações comuns deduz-se que são irmãos que o destino colocou em dimensões distintas, separando-os desde tenra idade.

Os dados do filme não chegam para satisfazer a curiosidade dos espectadores. Weir não oferece uma solução definitiva, preferindo formular novas perguntas que só contribuem para aprofundar o mistério. Numa entrevista à revista do British Film Institute, Sight & Sound, Weir referiu que a equipa de filmagens «worked very hard at creating an hallucinatory, mesmeric rhythm, so that you lost awareness of facts, you stopped adding things up, and got into this enclosed atmosphere. I did everything in my power to hypnotize the audience away from the possibility of solutions.» Na versão Director’s Cut, lançada em 1998, Weir ampliou esta estratégia de ocultação, reduzindo a duração do filme em sete minutos.

Picnic at Hanging Rock foi lançado como um filme baseado em factos reais, apesar de não haver testemunhos que atestem a veracidade dos acontecimentos descritos no romance homónimo de Joan Lindsay, no qual se baseia o argumento. A autora manteve sempre um total silêncio a este respeito, pelo que nunca se chegou a saber, de todo, que factos concretos inspiraram a história. Quando o livro foi editado, em 1967, Lindsay deixou de fora, por sugestão do seu editor, o capítulo final onde desvelava o mistério de Hanging Rock. As cerca de seis páginas deste capítulo mítico permaneceram desconhecidas do público até à sua publicação póstuma, em 1987, sob o título The Secret of Hanging Rock.

Uma sensação de sonho e irrealidade atravessa todo o filme, reflexo da perplexidade que invade os colonos ingleses perante aquilo que não conseguem explicar. Este sentimento de estranheza face a algo ancestral, inerente à própria terra e incapaz de ser descrito, foi reforçado por um poético tratamento da fotografia e pela esplêndida banda sonora, onde se destacam a flauta de Pã de Gheorghe Zamfir e o órgão de Marcel Cellier.

1 comentário:

Anónimo disse...

Avaliação perfeita, parábens.