terça-feira, 8 de julho de 2008

ANATAHAN (JOSEF VON STERNBERG, 1953)

No início dos anos 50, a carreira de Josef von Sternberg em Hollywood encontrava-se num beco sem saída. Apesar dos enormes sucessos artísticos e financeiros que conseguiu nas décadas de 20 e de 30, muitos deles protagonizados por Marlene Dietrich (Morocco, 1930; Shangai Express, 1932; Blonde Venus, 1932; The Devil is a Woman, 1935), uma série de falhanços comerciais aliados à sua fama de realizador despótico e irascível inviabilizaram o desenvolvimento de novos projectos. Howard Hughes, o produtor dos seus dois últimos filmes americanos (Jet Pilot, lançado em 1957 mas rodado sete anos antes, e Macao, de 1952), substituiu-o por outros realizadores ainda durante o decorrer das filmagens, lançando o descrédito sobre as suas capacidades profissionais. Sem propostas de trabalho aliciantes nos Estados Unidos, Sternberg aceitou um convite para realizar um filme no Japão. O resultado foi Anatahan, a obra-prima com que se despediu de uma carreira portentosa como um dos maiores criadores da história da sétima arte.

Escrito, realizado e fotografado pelo próprio Sternberg, que também assumiu a voz off no filme, e interpretado por actores japoneses do Kabuki, uma das formas mais representativas das artes teatrais japonesas, Anatahan conta a história verídica de um barco de pesca ao serviço da Marinha Imperial Japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial. Em 1944, o barco é bombardeado pelos americanos e um grupo de sobreviventes consegue refugiar-se numa pequena ilha das Marianas Setentrionais, chamada Anatahan. Aí encontram apenas um homem de ar soturno e calado e uma enigmática e atraente mulher que tomam por marido e esposa.

Os náufragos vivem na esperança de um dia serem socorridos pela Marinha japonesa ou de que lhes seja concedida uma oportunidade para combaterem o inimigo americano. Mas, apesar das tentativas do oficial mais graduado para manter a disciplina dos seus homens, a pouco e pouco tudo se vai desagregando naquele microcosmos onde todas as paixões e alucinações são possíveis. E quando a mulher começa a suscitar o desejo sexual nos soldados, toda a bestialidade homicida do Homem emerge.

Depois de um ano de permanência na ilha, os soldados recebem as primeiras notícias do exterior, vindas de um navio americano que anuncia a rendição do Japão e o fim da guerra, mas preferem acreditar que o comunicado é um embuste criado pelos seus inimigos e, assim, continuar a sua obsessiva batalha pela submissão da mulher e o domínio da ilha, representado por duas pistolas encontradas entre os destroços de um avião americano.

Após cinco homicídios que, directa ou indirectamente, provocou, a mulher abandona a ilha e aquele mísero exército de homens desregrados. Os homens só serão salvos mais tarde. Ao fim de sete anos em Anatahan são recolhidos por um navio que os leva para o Japão, onde são recebidos como heróis que continuaram a lutar por uma causa perdida sem nunca admitirem a hipótese de rendição. Mas, na memória dos soldados perdura a recordação cruel daquela lasciva mulher e a humilhação da derrota numa guerra fratricida pelos seus favores sexuais.

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