sexta-feira, 4 de julho de 2008

ONIBABA (KANETO SHINDO, 1964)

No período Sengoku, uma das fases mais conturbadas da história do Japão, marcada por constantes guerras, duas mulheres, a esposa e a mãe de um homem que partiu para a guerra, vivem numa cabana no meio de um canavial, junto a um rio. A guerra trouxe sofrimento e miséria e, para sobreviverem, as duas mulheres tornam-se assassinas impiedosas, matando os soldados feridos e moribundos que se aventuram por aquelas paragens, para posteriormente trocarem as suas armas e armaduras por arroz e outros bens essenciais.

Certo dia, Hachi, um vizinho que tinha partido para a guerra com o marido da mulher mais jovem, deserta e regressa à aldeia vazia, revelando às mulheres que aquele a quem esperam pereceu na frente de batalha. A jovem apaixona-se pelo vizinho e, sem o consentimento da sogra, encontra-se, noite após noite, com o seu amante. Temendo a solidão e o fim da sociedade que a une à sua nora, a astuta idosa tenta, a todo o custo, impedir os encontros nocturnos dos dois amantes, fingindo ser um demónio por detrás de uma máscara aterrorizadora de um samurai que ela mesma assassinou.

Onibaba (1964) abarca vários géneros cinematográficos sem se deter em nenhum deles. Embora Kaneto Shindo seja um nome reverenciado pelos adeptos do cinema fantástico e de terror japonês, a sua filmografia não se inscreve, de todo, no género. Pelo contrário, a sua obra, que ganhou reconhecimento internacional em 1961 quando venceu o Grande Prémio do Festival Internacional de Cinema de Moscovo com Hadaka no shima, inclui filmes de temática social, como Shukuzu (1953) ou Okami (1957), e evocações líricas de acontecimentos aterradores, como Gembaku no ko (1952). As dificuldades que enfrentou para desenvolver o seu tipo particular de cinema, levaram-no a aceitar propostas mais comerciais, como Yabu no naka no kuroneko (1968).

Ao contrário de outros cineastas da mesma geração, Shindo revelou uma predisposição muito particular para trabalhar com orçamentos reduzidos. Embora a acção de Onibaba esteja ambientada na Idade Média, as referências ao período são quase inexistentes, resumindo-se quase só às espadas e armaduras envergadas pelos guerreiros. Na realidade, Onibaba é um filme intemporal, que funciona sobretudo como um estudo dos recantos mais obscuros da alma humana. Neste sentido, está mais próximo do cinema de Mizoguchi do que de Kurosawa. Não são apresentadas grandes batalhas épicas, apenas se sentem os ecos de uma guerra longínqua cujas motivações permanecem relativamente obscuras. Shindo prefere revelar os bastidores da guerra, a vida das mães e das esposas cujos filhos e maridos partiram para a frente de batalha.

Grande parte do filme desenvolve-se segundo os padrões do cinema de costumes, quando não neo-realista. Shindo mostra as condições infrahumanas em que vivem os camponeses, entre colheitas arruinadas pelas intempéries e campos devastados pelo fragor das batalhas.

A acção de Onibaba tem lugar num microcosmos muito peculiar, dominado por ervas, canas e juncos enormes, debaixo dos quais pululam desejos ocultos e paixões reprimidas e brotam torrentes de instintos turvos e obscuros. Trata-se de um universo onde não se distinguem as fronteiras entre o bem e o mal e os escassos vestígios de civilização que se conseguem vislumbrar estão condenados à putrefacção, à destruição total.

Os personagens de Onibaba são amorais e primitivos. Guiados por instintos básicos (sobrevivência, sexo, sentido de posse, medo), chegam mesmo a prescindir do uso da fala à medida que sucumbem às necessidades mais primárias. O filme está repleto de imagens subliminares e simbologia oculta que escapam a um primeiro olhar, devido à sobreposição de níveis narrativos. A sequência inicial é, neste contexto, paradigmática, com a vegetação batida pelo vento, incapaz de deter as pulsões vitais dos personagens. Essa mesma vegetação que se quebrará mais tarde com extrema docilidade ao ritmo dos jogos amorosos do casal apaixonado. Outra cena inesquecível é aquela onde a velha mulher descobre a nora e o vizinho juntos no canavial e, assaltada por uma fúria e desejo incontidos, abraça o tronco seco e solitário de uma árvore que não é senão ela mesma, privada de companhia humana e incapaz de amar.

Um dos aspectos mais fascinantes de Onibaba é que não contém demónios ou espíritos iracundos, tão frequentes nas produções orientais do género. São os demónios internos que atormentam os personagens. A velha mulher controla os passos da nora através do medo, falando-lhe do pecado e do Inferno como destino para as mulheres solteiras que se relacionam sexualmente com homens e mascarando-se de demónio e perseguindo-a de noite por entre a vegetação. Mas, apesar das ameaças da sua sogra e da presença ameaçadora do suposto demónio, a jovem conseguirá vencer o medo e juntar-se ao seu amante. Ora, é precisamente a atitude da velha mulher que provoca o desenlace sobrenatural do relato e o seu trágico final. Após assumir, desolada, que o seu plano está votado ao fracasso, apercebe-se que a máscara que usara para censurar o desejo sexual da sua nora não consegue sair da sua face, presa que está a uma velha maldição.

Ao longo do filme o mal surge implicitamente no perverso movimento da vegetação, na cavidade sinistra onde as mulheres acumulam os despojos saqueados dos soldados mortos, no aspecto lúgubre do casebre onde se trocam os objectos roubados, na alma enferma da velha mulher. É um mal que não se pode corporizar, mas que está presente nos elementos físicos que aparecem em cena e que adquirem, assim, um carácter onírico, quase mítico.

Para reforçar este ambiente de ameaça oculta, Shindo apostou numa fotografia áspera, seca, repleta de pretos e brancos inquietantes e tonalidades obscuras, que transmitem uma sensação de angústia e desassossego. O resultado é de uma beleza plástica comparável a algumas obras-primas do cinema expressionista, como Das Cabinet des Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920). A compor o cenário claustrofóbico de Onibaba temos ainda uma música hipnótica, de inspiração tribal, que se repete uma e outra vez até à náusea nas cenas de maior intensidade dramática. Não menos importantes que a música são os longos silêncios do filme, que criam uma atmosfera densa e irrespirável nos momentos de calma tensa que antecedem a irrupção das paixões reprimidas. Shindo já tinha levado ao extremo esta estratégia narrativa em Hadaka no shima, filme que não tem quaisquer diálogos.

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