quarta-feira, 2 de julho de 2008

PARIS, TEXAS (WIM WENDERS, 1984)

Depois de ter sido considerado morto, após desaparecimento, Travis Anderson aparece em estado de exaustão na fronteira dos Estados Unidos com o México. O seu irmão Walt vai ao seu encontro e, na viagem de regresso até Los Angeles, fica a saber que Travis comprou um terreno em Paris, no Texas, onde supostamente os seus pais se conheceram e ele foi concebido. A pouco e pouco, em casa do irmão, onde vivem igualmente a mulher deste, de nacionalidade francesa, e o filho de Travis, Hunter, ao cuidado dos tios desde que a sua mãe, Jane, desapareceu, Travis reconquista Hunter e é informado de que ninguém sabe do paradeiro de Jane, embora todos os meses ela mande dinheiro de um banco em Houston. Travis e o filho decidem então partir à sua procura. Jane é localizada num peepshow, onde Travis a observa sem que ela saiba quem está do outro lado do vidro. Travis grava então uma cassete de despedida destinada ao filho, volta ao peepshow e tem uma longa confrontação com a mulher.

Paris, Texas (1984) foi o cartão de apresentação do realizador alemão Wim Wenders na indústria cinematográfica norte-americana e constituiu a recuperação de Harry Dean Staton, naquela que é considerada por muitos a melhor interpretação da sua carreira. Trata-se de uma metáfora sobre a perda e a memória, a solidão e a angústia, povoada por um conjunto de personagens que são fragmentos humanos dispersos num universo social marcado pela incomunicabilidade.

Paris, Texas é, antes de mais, um filme construído em torno de uma situação-chave, um longo e intenso confronto de sentimentos num local improvável, um peepshow subitamente transformado num confessionário de duas vidas. Wenders, para chegar até aí, faz reflectir ao longo de todo o filme o seu especial fascínio pelos Estados Unidos, pelo sonho americano, com uma portentosa carga de amargura e nostalgia.

Com a longa sequência do peepshow, onde Travis e Jane falam do seu passado e dos motivos que levaram à sua separação e ao abandono familiar de ambos, Wenders conseguiu criar um dos momentos dramáticos mais intensos do cinema contemporâneo. A força dramática desta cena baseia-se, sobretudo, na identificação do espectador com os sentimentos dos protagonistas e no mecanismo de transmissão do subtexto narrativo, ou seja, de tudo aquilo que os actores deixam transparecer da psicologia dos personagens através dos seus actos e que não é perceptível mediante as palavras.

A montagem em off — introdução de planos que mostram as reacções de um personagem ao mesmo tempo que se ouvem as palavras do seu interlocutor — tem aqui um papel fundamental. Um dos momentos mais arrebatadores do filme acontece quando Wenders nos mostra, num plano demorado, as reacções de Jane às palavras de Travis, momento culminante porquanto tem de revelador do personagem e pelo evidente dramatismo que se produz no seu interior. Jane não fala, apenas escuta, emocionada, as palavras daquele que foi seu marido e que um dia a abandonou, mas as suas reacções dizem muito mais que quaisquer palavras. As imagens sobrepostas dos rostos de Travis e Jane no vidro que os separa ilustram de forma soberba a maneira como um dia eles foram um só e, ao mesmo tempo, marca a impossibilidade do reencontro, a inevitabilidade da separação.

Do argumento de Sam Shepard, à música áspera e melancólica de Ry Cooder, passando pelas cores quentes da fotografia de Robby Müller e a forma lenta como são oferecidas as informações que permitem compreender as características psicológicas e a história dos personagens, Paris, Texas é, por mais de uma razão, um verdadeiro clássico do cinema moderno.

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