domingo, 24 de agosto de 2008

DREAMS THAT MONEY CAN BUY (HANS RICHTER, 1947)

Produzido nos Estados Unidos entre 1944 e 1946, Dreams That Money Can Buy é o projecto cinematográfico mais ambicioso do artista plástico e pioneiro do cinema experimental Hans Richter, que desde há muito ambicionava realizar um filme colectivo que reunisse alguns dos seus compagnon de route das aventuras dadaístas e surrealistas. Trata-se de uma história de sonhos misturados com a realidade, que nos transporta para o mundo onírico do inconsciente, através da história de Joe/Narcissus, um jovem cuja vida não corre da forma como ele gostaria, que descobre que tem a capacidade para criar sonhos. Decide, então, aproveitar este dom para ganhar a vida, passando a vender sonhos feitos à medida de toda a sorte de clientes frustrados e neuróticos.

As sequências oníricas do filme são fruto da imaginação de Richter (Narcissus) e dos artistas por si convidados: Max Ernst (Desire), Fernand Léger (The Girl with the Prefabricated Heart), Man Ray (Ruth, Roses and Revolvers), Marcel Duchamp (Discs) e Alexander Calder (Ballet e Circus). A música original foi composta por Louis Applebaum (Narcissus), Paul Bowles (Desire e Ballet), John Cage (Discs), David Diamond (Circus) e Darius Milhaud (Ruth, Roses and Revolvers). Por detrás da produção de Dreams That Money Can Buy esteve a The Art of This Century Gallery, de Peggy Guggenheim, além do próprio Richter e do escritor e cineasta Kenneth MacPherson, membro do colectivo Pool e um dos fundadores e editores da Close Up, a primeira revista de língua inglesa especializada em crítica e teoria cinematográfica.

Dreams That Money Can Buy combina o imaginário das primeiras vanguardas do século XX (Duchamp, por exemplo, constrói o episódio intitulado Discs a partir do seu famoso quadro Nu Descendant un Escalier n° 2, de 1912, e dos discos giratórios utilizados em Anémic Cinema, a sua única obra cinematográfica, realizada em 1926) com algumas referências e convenções genéricas do cinema clássico de Hollywood (desde a voz off do protagonista, muito comum nos film noir, até ao expressionismo fotográfico característico do cinema fantástico), utilizadas, o mais das vezes, com uma intenção paródica, sobretudo, nos segmentos escritos e realizados por Fernand Léger e Man Ray.

Com Dreams That Money Can Buy, Richter alcançou a forma mais elevada do poema cinematográfico a que se referiu em muitos dos escritos teóricos que publicou acerca do cinema — uma forma de expressão artística que, graças à sua natureza eminentemente visual, não se deve limitar a reproduzir ou imitar a realidade tal como esta se apresenta, mas sim reinventá-la através da representação simbólica abstracta.