segunda-feira, 8 de junho de 2009

SERGEANT RUTLEDGE (JOHN FORD, 1960)

Barxton Rutledge, Primeiro-sargento de um dos dois regimentos de cavalaria de negros formados a seguir à Guerra Civil, enfrenta num tribunal do Arizona um julgamento pelo alegado duplo homicídio de uma jovem e o seu pai, ambos brancos e o último, Comandante da Unidade. Através dos depoimentos das testemunhas e de uma série de flashbacks, toda a obscura história do Sargento Rutledge vai-se desenrolando perante os nossos olhos e os do público que enche a sala de audiências. Desde a altura em que Rutledge ensinava a pequena Lucy a montar até à reconstituição do crime e de tudo o que se passou a seguir, somos confrontados com um caso de imediata presunção de culpabilidade devido ao facto de o principal suspeito ser um negro. Tudo parece incriminar Rutledge, desde a sua atitude de pânico e fuga após o crime até à sua captura pelo Tenente Tom Cantrell, noivo de Mary Beecher, que Rutledge salvou da morte certa às mãos dos Apaches, e que se oferece para defender o réu de quem se reclama amigo. Porém, apesar do clima hostil, da confusão de sentimentos e da dificuldade em superar o ancestral racismo norte-americano, a verdade acaba por apanhar todos de surpresa.

Produzido em 1960, Sergeant Rutledge (O Sargento Negro, na versão portuguesa) é não só um dos mais admiráveis filmes de John Ford como um dos seus westerns menos característicos e simultaneamente mais fascinantes. Hábil combinação dos célebres filmes de tribunal da década de 50 e de toda a carga mitológica do western dos grandes espaços e da aventura, Sergeant Rutledge é uma obra de conflito e choque entre espaços, entre concepções de vida e conduta, entre a moral e a dignidade, entre a verdade e a mentira que a sala de tribunal e Monumental Valley de uma forma ou outra representam. Construído como um melodrama pungente e envolvente que acaba por deixar que a velha situação do falso culpado, tão cara a Hitckcock, comece a dominar os acontecimentos e todo o filme assente, como uma história policial, na resolução do crime e no desmascarar do culpado, a verdade é que a inteligência e o talento de Ford nunca deixam de aproveitar cada simulação, cada equívoco, cada evocação para converter o que não passaria, nas mãos de outro realizador menos hábil, de uma simples história de crime e castigo num filme assumidamente anti-racista e, ao mesmo tempo, num dos seus mais belos westerns sobre a cavalaria.