sábado, 25 de julho de 2009

DR. STRANGELOVE (STANLEY KUBRICK, 1964)

Convencido de que está em curso uma conspiração comunista para desmoralizar o mundo ocidental, através do controle das reservas de água potável norte-americanas, o General Jack D. Ripper, comandante da Base da Força Aérea de Burpelson, lança um ataque de bombardeiros B-52, com armas atómicas, sobre a União Soviética. Simultaneamente, sela a base, isolando-a de qualquer contacto com o mundo exterior. O Presidente dos Estados Unidos convoca uma reunião na sala de guerra do Pentágono, chama o embaixador soviético e, pela linha vermelha directa ao Kremlin, dá as terríveis notícias ao secretário-geral Kissova. Uma vez que é impossível comunicar com os bombardeiros, cujos rádios só respondem a um código conhecido apenas pelo General Ripper, o Presidente norte-americano coloca-se prontamente ao serviço dos soviéticos, no sentido de evitar o pior e tentar abater, tão depressa quanto possível, os seus próprios aviões, impedindo o holocausto nuclear. Mas o embaixador soviético revela a existência de uma arma terrível, o mecanismo do Dia do Juízo, que pode destruír todo o planeta no caso de haver uma deflagração nuclear. Entretanto, o Exército norte-americano toma de assalto a base do louco General Ripper, que acaba por se suicidar. Mandrake, um oficial da RAF, tenta descobrir o código a tempo de evitar o apocalipse. Mas um dos aviões consegue passar...

Dr. Strangelove (1964) é uma das primeiras obras-primas de Stanley Kubrick e num género tão difícil como a comédia. Farsa alucinante, envolta no espírito do desanuviamento pacifista de uma década que seria profundamente marcada por essa atitude, Dr. Strangelove é, por outro lado, uma demonstração fabulosa do grande virtuosismo de Kubrick, capaz, como poucos, de pegar em qualquer espécie de argumento e dar-lhe uma inconfundível, inimitável e pessoalíssima forma visual, estética e artística. O filme é baseado no romance Red Alert, de Peter Bryant, pseudónimo literário de Peter George, um antigo tenente da Royal Air Force. O livro, publicado originalmente em 1958 no Reino Unido com o título Two Hours to Doom, retrata um cenário de pesadelo na sequência de uma crise nuclear entre as duas grandes superpotências. Trata-se de um subgénero literário que remonta aos finais da década de 1950 e que teve como pioneiro o romance On the Beach (1957), do autor britânico Nevil Shute Norway. Kubrick tomou conhecimento deste romance sério e realista em 1961, comprou os direitos para a sua adaptação cinematográfica e, ajudado pelo argumentista Terry Southern, criou uma série de personagens grotescas cujas absurdas obsessões comprometem o cenário realista em que são colocadas. 


Poucos são os filmes que apresentam tantas réplicas cultas («Gentlemen, you can’t fight in here! This is the War Room.»), diálogos hilariantes (a teoria do Dr. Strangelove, que preconiza uma vida em bunkers subterrâneos, onde a proporção de mulheres para homens seria de dez para um) e situações divertidas e provocatórias num contexto altamente dramático (o lema da Base da Força Aérea de Burpelson, que Kubrick mostra insistentemente: «Peace Is Our Profession»).


O sucesso de Dr. Strangelove também deve muito ao génio multifacetado de Peter Sellers, que assume três papéis (o oficial da RAF, Lionel Mandrake, o Presidente dos Estados Unidos, Merkin Muffley, e o demente Dr. Strangelove, um ex-cientista nazi que, com o fim do III Reich, se torna conselheiro do Presidente norte-americano), e ao resto dos actores que, no seu conjunto, dão uma lição da arte de bem representar em postura exagerada e timing perfeito, protagonizando algumas das imagens mais inesquecíveis da história do cinema — o Major T. J. «King» Kong (Slim Pickens) em cima da bomba H lançada sobre a URSS, agitando o chapéu e gritando à cowboy como se estivesse a tentar domar um cavalo selvagem, ou o louco Dr. Strangelove, preso a uma cadeira de rodas e incapaz de impedir a prótese mecânica do seu braço direito de se erguer na saudação nazi.


Dr. Strangelove, que tem o irónico subtítulo de Or How I Learned To Stop Worrying And Love The Bomb, é a vários níveis, um filme prodigioso de inventiva, humor, veia satírica e alucinação inquietante e, ao mesmo tempo, um grande espectáculo da grandiosa arte de bem filmar de Kubrick, que definiu este filme como uma comédia de pesadelo. Nunca antes e nem sequer depois se filmou com esta inteligência e inspiração o frágil equilíbrio de terror que marcou as relações Leste-Oeste desde o pós-guerra até à queda do Muro do Berlim e a desintegração da União Soviética.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

L’ARGENT DE POCHE (FRANÇOIS TRUFFAUT, 1976)

Na pequena cidade de Thiers, no sudoeste da França, está-se no último mês de aulas de duas turmas de uma escola elementar. Com a chegada das férias grandes vamos conhecer melhor alguns daqueles garotos, sobretudo dois: Patrick e Julien. Patrick vive com o seu pai, inválido, e a sua vida está longe de ser emocionante. Aliás, vive no constante desejo de ter o seu primeiro caso de amor e, por fim, lá consegue o seu primeiro beijo. Julien, ao contrário dos seus colegas de escola, vive numa casa miserável e a sua mãe, uma mulher tenebrosa e alcoólica, bate-lhe e abusa dele a toda a hora. E a sua avó não é melhor. O director da escola encara-o como um caso especial. Julien, para sobreviver num mundo que o hostiliza, vai mesmo tornar-se num ladrão, num mentiroso e num delinquente.

Para além da história destes dois garotos, François Truffaut traça ainda outros retratos quotidianos de uma pequena cidade francesa durante o Verão de 1976 como, por exemplo, a da menina fechada num apartamento que é alimentada pelos vizinhos, ou a do garoto que tem de assobiar para se entender com o pai e a mãe.

L’Argent de Poche (Na Idade da Inocência, na versão portuguesa) não é um dos melhores filmes de Truffaut, mas é de longe uma das sua obras mais queridas e simpáticas. Um misto de comédia, drama e fantasia, filmado com tremenda simplicidade, com inteligente sensibilidade.