segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ONCE UPON A TIME IN THE WEST (SERGIO LEONE, 1968)

Quando Jill McBain chega à remota quinta de Sweetwater, vinda de Nova Orleães e de um passado enterrado, para conhecer o seu marido, com quem casara por correspondência, encontra os quatro membros da sua nova família mortos a tiro, nesse mesmo dia. O assassínio colectivo tinha sido cometido por um grupo de pistoleiros liderados por Frank, a soldo de um administrador da companhia dos caminhos-de-ferro, cujos interesses colidiam com os da família McBain. A jovem viúva está, porém, disposta a resistir a tudo para manter o seu rancho, agora particularmente valioso para os caminhos-de-ferro. E se sozinha jamais conseguiria sobreviver, com a ajuda de dois aventureiros das pradarias, Cheyenne e Harmonica, vai tornar-se numa mulher rica.

Western barroco e grandioso, realizado por um italiano, Once Upon a Time in the West (Aconteceu no Oeste, na versão portuguesa) ao contrário da cristalização dos estereótipos e dos lugares comuns de um género de que foi acusado, é uma admirável reconversão dos modelos hollywoodescos, fundidos com uma certa veracidade histórica ao serviço de um cinema romântico e espectacular, simultaneamente sardónico e evocativo.

Sergio Leone passou, com este filme, a gozar de um estatuto de verdadeiro autor cinematográfico que Once Upon a Time in America, dezasseis anos depois, confirmaria para além de qualquer dúvida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

ZABRISKIE POINT (MICHELANGELO ANTONIONI, 1970)

Mark é um individualista que pretende demonstrar a sua rebeldia. Em Los Angeles, na universidade, tem desafiado as autoridades por sua conta e risco. Quando os seus colegas forçam a direcção da faculdade a encerrar o estabelecimento, começam as desordens e Mark, que consegue comprar uma arma ilegalmente, prepara-se para os apoiar — a tiro, se for preciso. Mas nunca chega a fazer uso da arma porque, na sequência da morte de um polícia com a qual nada teve a ver, torna-se, devido a uma série de acasos, no principal suspeito. A bordo de um pequeno avião roubado, Mark atravessa o deserto do Arizona sem qualquer destino especial. O acaso leva-o a sobrevoar o carro de Daria, uma rapariga despreocupada que trabalha quando lhe apetece e que, nessa altura, se dirige a um encontro. Mark abandona o aparelho roubado e segue viagem com Daria. Em Death Valley, Mark e Daria passeiam, brincam e fazem amor no meio das dunas. Por fim, Mark decide regressar com o avião e enfrentar as consequências, mas é morto pela polícia à chegada. Daria sabe da sua morte pela rádio e segue para o seu destino, uma fabulosa casa na orla do deserto, onde terá lugar uma reunião de negócios. Quando vem embora vê, com um sorriso, a casa ir pelos ares…

Zabriskie Point (Deserto de Almas, na versão portuguesa) é, provavelmente, um dos mais insólitos e desencantados filmes de Michelangelo Antonioni. Produzido nos Estados Unidos, é uma bizarra visão daquele país, algures entre a perplexidade frenética e fantástica de uma sociedade opulenta e o choque da angústia, da aridez e do vazio das trajectórias humanas.

Centrando-se na viagem de dois jovens desenraizados e perdidos num país em confusão de valores, num paralelo envolvente onde os personagens se definem pela ausência de um enredo dramático e no insólito realismo de um quotidiano intencionalmente subvertido, Zabriskie Point é, desde a fotografia à música dos Rolling Stones e dos Pink Floyd, uma fascinante e arrebatadora experiência de puro surrealismo poético e visual, que contém uma das cenas mais bizarras e insólitas alguma vez filmadas: a da explosão da casa, vista de múltiplos ângulos de câmara e de uma surpreendente variação de perspectivas que penetram gradativamente na própria explosão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

LA BÊTE HUMAINE (JEAN RENOIR, 1938)

Um chefe de estação, Roubaud, desconfia que a sua jovem esposa, Séverine, foi seduzida pelo seu suposto padrinho, o rico Grandmorin. Assolado pelos ciúmes, Roubaud obriga Séverine a assistir ao assassinato de Grandmorin durante uma viagem de comboio. O assassinato é testemunhado por Jacques Lantier, um maquinista, que guarda silêncio, pois alimenta uma paixão secreta por Séverine. Séverine envolve-se sentimentalmente com Lantier e convence-o a matar Roubaud. Mas o que ela não sabe é que Lantier encerra consigo outro terrível segredo. O maquinista padece de uma doença mental que o pode transformar num homicida patológico.

La Bête Humaine, realizado por Jean Renoir quando este estava no auge da sua carreira — entre os célebres La Grande Illusion (1937) e La Règle du Jeu (1939) —, durante um dos períodos mais férteis do cinema francês, é um estudo profundo sobre o lado mais obscuro da natureza humana. De certa maneira, parece superar o realismo poético que estava em voga naquele período. Embora as histórias trágicas de amor fossem um tema recorrente do cinema francês da década de 1930, Renoir coloca a ênfase nos aspectos mais sombrios das relações amorosas, atingindo um vigor dramático sem precedentes até então.

Fernand Ledoux interpreta de forma magistral o marido ciumento, a um tempo sombrio e patético, que se deixa enredar num crime que destruirá, em última instância, a sua razão de viver. Simone Simon é a esposa atormentada, a vítima aparentemente desamparada, arrastada à força para um crime em que não deseja participar. O seu personagem, é de longe, o pior de todos. Séverine sente-se revoltada pelo assassinato de Grandmorin, mas tenta persuadir Lantier a matar o seu marido. Simone está soberba no papel de uma mulher amoral e sem escrúpulos e, quando contracena com Jean Gabin, denota uma doçura genuína que confere ao final do filme um tom ainda mais trágico e arrebatador. Mas é Jean Gabin que merece o maior destaque pela interpretação sublime de Jacques Lantier, o maquinista do malfadado comboio onde decorre o hediondo crime. Longe dos papéis de galã irresistível a que o público estava habituado, Gabin dá corpo a um personagem totalmente distinto, muito mais complexo e perturbador. As cenas onde sucumbe a um ataque que o transforma numa besta assassina são povoadas por uma fina penumbra e plenas de intensidade emocional. Trata-se de uma metamorfose à maneira de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, que não necessita de qualquer efeito especial ou caracterização mais arrojada, apenas um actor brilhante e um realizador competente.

A metáfora do comboio em andamento, um autêntico ser vivo e um veículo para descarregar as pulsões assassinas de Lantier, enquadra-se perfeitamente na estrutura narrativa do filme. O comboio é implacável, surgindo com um ímpeto avassalador, a par da força obscura e inumana que permanece adormecida em Lantier e que, quando acorda, também se torna incontrolável. Metáfora e realidade vão colidir de forma espectacular na conclusão trágica e pessimista do filme.

A moral de La Bête Humaine, se acaso existe, é ambígua, mas isto é provavelmente reflexo da ambiguidade do romance homónimo de Zola que constitui a matriz do argumento. Toda a sorte de razões que podem conduzir ao homicídio é equacionada sem qualquer preconceito ou parcialidade. Lantier é assaltado por um desejo incontrolável de matar mas, apesar das réplicas desesperadas da sua amante, consegue resistir. Em contrapartida, Séverine permanece chocada com o brutal assassinato de Grandmorin, mas não mostra qualquer remorso ou arrependimento pela morte do seu marido. As razões de Roubaud para matar afiguram-se mais compreensíveis, em termos humanos, uma vez que o que o move é o simples desejo de vingança e os ciúmes. O contraste entre os três personagens nunca deixa de nos intrigar, mas Renoir coloca-os num mesmo plano moral, permitindo ao espectador tirar as suas próprias conclusões.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ÉL (LUIS BUÑUEL, 1952)

Francisco Galván de Montemayor aparenta ser um homem tranquilo, conservador e religioso, dono de uma conduta irrepreensível. Uma manhã, ao assistir à missa, conhece Gloria, a namorada de um amigo, e apaixona-se perdidamente. Daí em diante tudo faz para conseguir casar com a jovem e, quando logra o seu objectivo, o seu comportamento sofre uma alteração radical, transformando-se num homem ciumento e paranóico.

Baseado no romance parcialmente autobiográfico de Mercedes Pinto, Él é um retrato, carregado de humor negro, da degradação emocional de um homem assolado pela paranóia e a esquizofrenia e um relato implacável dos efeitos desastrosos que os seus ciúmes provocam em todos aqueles que o rodeiam, em especial a sua mulher. Trata-se de um dos filmes favoritos de Luis Buñuel e um dos melhores da sua fase mexicana. Segundo o realizador, Francisco Gálvan é um homem que procura, a todo o custo, libertar-se dos seus fantasmas, mas sem saber como; é alguém com uma necessidade extrema e absurda de que todos o considerem o melhor dos homens.

Na sua única colaboração com Buñuel, Arturo de Córdova, o protagonista, consegue uma das melhores interpretações da sua carreira. O seu personagem incorpora uma série de gestos e comportamentos próprios do realizador, sobretudo a sua maneira típica de andar, convertendo Él num dos filmes mais reveladores da personalidade do mestre aragonês.

A obsessão de Buñuel pelo estudo dos insectos manifesta-se em diferentes momentos do filme, que pode ser visto como um estudo entomológico de uma personalidade patológica, como se Buñuel observasse Francisco através de um microscópio. Francisco Gálvan faz alusão a este facto quando, do alto de um campanário, compara as pessoas a insectos, acrescentando que gostava de ser Deus para as esmagar.

Uma construção narrativa elegante e delicada, sublinhada pelos movimentos fluidos e subtis da câmara de Buñuel, a esplêndida cenografia art nouveau de Edward Fitzgerald e o excelente trabalho de fotografia de Gabriel Figueroa (que colaborou, entre outros, com nomes como John Ford e John Huston) conferem a Él um carácter onírico e inquietante.

Considerada hoje uma das dez melhores obras do cinema mexicano de todos os tempos, Él não foi, porém, bem recebida pelo público aquando da sua estreia, permanecendo em cena apenas três semanas. Redescoberto mais tarde pelo público e a crítica, Él impôs-se como um dos filmes mais respeitados da filmografia de Buñuel, que gostava de afirmar que os médicos o exibiam nas aulas de psiquiatria para ilustrar os casos de paranóia.