segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ÉL (LUIS BUÑUEL, 1952)

Francisco Galván de Montemayor aparenta ser um homem tranquilo, conservador e religioso, dono de uma conduta irrepreensível. Uma manhã, ao assistir à missa, conhece Gloria, a namorada de um amigo, e apaixona-se perdidamente. Daí em diante tudo faz para conseguir casar com a jovem e, quando logra o seu objectivo, o seu comportamento sofre uma alteração radical, transformando-se num homem ciumento e paranóico.

Baseado no romance parcialmente autobiográfico de Mercedes Pinto, Él é um retrato, carregado de humor negro, da degradação emocional de um homem assolado pela paranóia e a esquizofrenia e um relato implacável dos efeitos desastrosos que os seus ciúmes provocam em todos aqueles que o rodeiam, em especial a sua mulher. Trata-se de um dos filmes favoritos de Luis Buñuel e um dos melhores da sua fase mexicana. Segundo o realizador, Francisco Gálvan é um homem que procura, a todo o custo, libertar-se dos seus fantasmas, mas sem saber como; é alguém com uma necessidade extrema e absurda de que todos o considerem o melhor dos homens.

Na sua única colaboração com Buñuel, Arturo de Córdova, o protagonista, consegue uma das melhores interpretações da sua carreira. O seu personagem incorpora uma série de gestos e comportamentos próprios do realizador, sobretudo a sua maneira típica de andar, convertendo Él num dos filmes mais reveladores da personalidade do mestre aragonês.

A obsessão de Buñuel pelo estudo dos insectos manifesta-se em diferentes momentos do filme, que pode ser visto como um estudo entomológico de uma personalidade patológica, como se Buñuel observasse Francisco através de um microscópio. Francisco Gálvan faz alusão a este facto quando, do alto de um campanário, compara as pessoas a insectos, acrescentando que gostava de ser Deus para as esmagar.

Uma construção narrativa elegante e delicada, sublinhada pelos movimentos fluidos e subtis da câmara de Buñuel, a esplêndida cenografia art nouveau de Edward Fitzgerald e o excelente trabalho de fotografia de Gabriel Figueroa (que colaborou, entre outros, com nomes como John Ford e John Huston) conferem a Él um carácter onírico e inquietante.

Considerada hoje uma das dez melhores obras do cinema mexicano de todos os tempos, Él não foi, porém, bem recebida pelo público aquando da sua estreia, permanecendo em cena apenas três semanas. Redescoberto mais tarde pelo público e a crítica, Él impôs-se como um dos filmes mais respeitados da filmografia de Buñuel, que gostava de afirmar que os médicos o exibiam nas aulas de psiquiatria para ilustrar os casos de paranóia.

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