quinta-feira, 6 de agosto de 2009

LA BÊTE HUMAINE (JEAN RENOIR, 1938)

Um chefe de estação, Roubaud, desconfia que a sua jovem esposa, Séverine, foi seduzida pelo seu suposto padrinho, o rico Grandmorin. Assolado pelos ciúmes, Roubaud obriga Séverine a assistir ao assassinato de Grandmorin durante uma viagem de comboio. O assassinato é testemunhado por Jacques Lantier, um maquinista, que guarda silêncio, pois alimenta uma paixão secreta por Séverine. Séverine envolve-se sentimentalmente com Lantier e convence-o a matar Roubaud. Mas o que ela não sabe é que Lantier encerra consigo outro terrível segredo. O maquinista padece de uma doença mental que o pode transformar num homicida patológico.

La Bête Humaine, realizado por Jean Renoir quando este estava no auge da sua carreira — entre os célebres La Grande Illusion (1937) e La Règle du Jeu (1939) —, durante um dos períodos mais férteis do cinema francês, é um estudo profundo sobre o lado mais obscuro da natureza humana. De certa maneira, parece superar o realismo poético que estava em voga naquele período. Embora as histórias trágicas de amor fossem um tema recorrente do cinema francês da década de 1930, Renoir coloca a ênfase nos aspectos mais sombrios das relações amorosas, atingindo um vigor dramático sem precedentes até então.

Fernand Ledoux interpreta de forma magistral o marido ciumento, a um tempo sombrio e patético, que se deixa enredar num crime que destruirá, em última instância, a sua razão de viver. Simone Simon é a esposa atormentada, a vítima aparentemente desamparada, arrastada à força para um crime em que não deseja participar. O seu personagem, é de longe, o pior de todos. Séverine sente-se revoltada pelo assassinato de Grandmorin, mas tenta persuadir Lantier a matar o seu marido. Simone está soberba no papel de uma mulher amoral e sem escrúpulos e, quando contracena com Jean Gabin, denota uma doçura genuína que confere ao final do filme um tom ainda mais trágico e arrebatador. Mas é Jean Gabin que merece o maior destaque pela interpretação sublime de Jacques Lantier, o maquinista do malfadado comboio onde decorre o hediondo crime. Longe dos papéis de galã irresistível a que o público estava habituado, Gabin dá corpo a um personagem totalmente distinto, muito mais complexo e perturbador. As cenas onde sucumbe a um ataque que o transforma numa besta assassina são povoadas por uma fina penumbra e plenas de intensidade emocional. Trata-se de uma metamorfose à maneira de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, que não necessita de qualquer efeito especial ou caracterização mais arrojada, apenas um actor brilhante e um realizador competente.

A metáfora do comboio em andamento, um autêntico ser vivo e um veículo para descarregar as pulsões assassinas de Lantier, enquadra-se perfeitamente na estrutura narrativa do filme. O comboio é implacável, surgindo com um ímpeto avassalador, a par da força obscura e inumana que permanece adormecida em Lantier e que, quando acorda, também se torna incontrolável. Metáfora e realidade vão colidir de forma espectacular na conclusão trágica e pessimista do filme.

A moral de La Bête Humaine, se acaso existe, é ambígua, mas isto é provavelmente reflexo da ambiguidade do romance homónimo de Zola que constitui a matriz do argumento. Toda a sorte de razões que podem conduzir ao homicídio é equacionada sem qualquer preconceito ou parcialidade. Lantier é assaltado por um desejo incontrolável de matar mas, apesar das réplicas desesperadas da sua amante, consegue resistir. Em contrapartida, Séverine permanece chocada com o brutal assassinato de Grandmorin, mas não mostra qualquer remorso ou arrependimento pela morte do seu marido. As razões de Roubaud para matar afiguram-se mais compreensíveis, em termos humanos, uma vez que o que o move é o simples desejo de vingança e os ciúmes. O contraste entre os três personagens nunca deixa de nos intrigar, mas Renoir coloca-os num mesmo plano moral, permitindo ao espectador tirar as suas próprias conclusões.

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