quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CHELOVEK S KINOAPPARATOM/MAN WITH THE MOVIE CAMERA (DZIGA VERTOV, 1929)

Chelovek S Kinoapparatom (O Homem da Câmara de Filmar, na versão portuguesa), a obra mais extraordinária de Dziga Vertov, é uma narrativa não linear que celebra o novo Estado soviético, constituindo um dos mais espantosos tributos a tudo o que o cinema pode ser. O filme utiliza técnicas radicais de edição e montagem e recursos estilísticos inovadores para retratar um dia típico na cidade moderna, desde a madrugada até ao anoitecer. Mas Vertov não se limitou a mostrar a realidade tal qual ela é, ele reinventou-a através do poder do Kino-Glaz — o olho do cinema —, transcendendo as limitações do nosso modo quotidiano de ver.

Chelovek abre com um manifesto, uma série de intertítulos que nos informam que o filme é uma experiência, uma busca de uma linguagem absoluta do cinema baseada na separação total da linguagem cinematográfica das tradições literária e teatral. Algumas destas ideias já haviam sido expressas por Vertov num manifesto redigido em 1922, no qual o realizador repudia os filmes de D. W. Griffith, considerando-os simples dramas psicológicos excessivamente dependentes da tradição literária e das convenções teatrais. O objectivo de Vertov era criar um cinema que tivesse a sua própria dinâmica, um cinema erigido numa terra de ninguém que só se podia encontrar no ritmo presente no movimento das coisas e das pessoas. Desenvolve, então, o ponto de vista da captação da vida de improviso, para tornar visível o invisível, límpido o suave, evidente o que é escondido, manifesto o que é mascarado. A câmara, subordinada ao mundo aleatório da realidade, passa a mostrar as pessoas sem máscara, sem maquilhagem, no momento em que não representam.

Para Vertov, a carga psicológica do cinema convencional interferia com o desejo do trabalhador moderno de se fundir com a máquina. Na qualidade de artista do povo, considerava que o cinema devia criar um vínculo entre a máquina e o trabalhador, reflectir a alegria criativa do trabalho mecanizado e, assim, ajudar a forjar um homem novo. Segundo as suas palavras, ao cinema caberia revelar a alma da máquina, aproximando o operário do seu instrumento de trabalho. O tema dos filmes deveria ser o homem e a mulher, o operário, a camponesa e o maquinista, dotados dos movimentos precisos e suaves das máquinas.

Chelovek está dividido em nove partes que se assemelham a andamentos de tipo orquestral onde, através de uma montagem frenética e de exposições múltiplas, Vertov mistura máquinas e trabalhadores, materializando os princípios marxistas num ritual de reverência e celebração. Ao mesmo tempo que enaltece a velocidade, a eficiência e a alegria do labor realizado em linha de montagem, o cineasta procura demonstrar que o trabalho cinematográfico é uma componente da realidade que perpassa pelas imagens. Numa das sequências, enquanto se engraxam sapatos e uma mulher arranja as unhas e o cabelo, Vertov mostra a sua mulher, a montadora Yelizavela Svilova, a remover a emulsão da película cinematográfica, sugerindo que o apuramento estético do cinema pode ser equiparado a um tratamento de beleza num salão de cabeleireiro. Outra sequência, onde o trabalho de tecelagem se mistura com imagens de Svilova a cortar e a colar as cenas filmadas, deixa transparecer que o acto de fazer cinema é uma analogia perfeita para o trabalho operário.

Num manifesto redigido em 1923, Vertov refere que ele próprio é o olho cinematográfico, um olho mecânico, uma máquina que mostra o mundo como só ele o pode ver, acrescentando, logo a seguir, que a sua abordagem conduz à criação de uma nova percepção do mundo que permite descobrir uma realidade até então desconhecida. A câmara de Vertov, nas mãos do seu irmão Mikhail Kaufman, desloca-se para locais inusitados e, através de um vasto leque de técnicas de montagem e de filmagem, que vão desde a câmara lenta à animação, passando por zooms, zooms invertidos, ecrã dividido, até às imagens múltiplas e desfocadas, opera uma transformação, não só na realidade, mas também nas estruturas narrativas tradicionais. A câmara sai do estúdio e vai ao encontro da cidade, captando as imagens do dia-a-dia de modo espontâneo, sem a ajuda de cenários, actores, guarda-roupa, legendas ou qualquer outro elemento que simulasse a verdade. O olhar atento e enérgico do operador de câmara testemunha o parto de uma criança a partir do ponto de vista do médico, acompanha uma ambulância que transporta a vítima de um acidente, mostra um grupo de crianças encantadas com um mágico de rua, revela as reacções e os comportamentos de um casal que entra no registo civil para formalizar o divórcio… O olho da câmara, mais perfeito que o olho humano, regista as acções e os comportamentos das pessoas nas suas rotinas diárias de trabalho e de lazer, muitas vezes sem que estas se apercebam, mostrando uma nova atitude de participação com o real e a verdade.

Com o decorrer do tempo, Dziga Vertov, um homem que tanto se empenhou em mostrar o potencial revolucionário da sétima arte, foi dando mostras de não conseguir adaptar-se ao Realismo Socialista e, como consequência, a sua carreira começa a decair. No entanto, com Chelovek S Kinoapparatom, o cineasta logrou afastar-se da tradição hollywoodiana, aproximando-se de uma linguagem absoluta do cinema que era, afinal, o seu grande objectivo.

1 comentário:

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Um extraordinário filme de um grande cineasta.