quinta-feira, 4 de março de 2010

LA CHUTE DE LA MAISON USHER (JEAN EPSTEIN, 1928)

The Fall of the House of Usher,conto que Edgar Allan Poe publicou pela primeira vez em Setembro de 1839 na Burton's Gentleman's Magazine, é uma das suas obras mais conhecidas e mais adaptadas não só ao cinema, mas também a outras formas de produção artística como a televisão, o teatro, a música ou a ópera. No cinema, as primeiras versões conhecidas remontam ao longínquo ano de 1928. A primeira é uma curta-metragem realizada nos Estados Unidos pela dupla James Sibley Watson e Melville Webber e a segunda, La Chute de la Maison Usher, é da autoria de um dos maiores precursores da teoria cinematográfica, o francês Jean Epstein. A versão francesa tem argumento de Jean Epstein e Luis Buñuel (que também foi assistente de realização) e foi protagonizada por Jean Debucourt (Sir Roderick Usher), Marguerite Gance (Madeleine Usher) e Charles Lamy (Allan). De entre as versões surgidas posteriormente destacam-se House of Usher, de 1960, com a direcção de Roger Corman, argumento de David Matheson e Vincent Prince à frente do elenco, El Hundimiento de la Casa de Usher (1983), uma adaptação de Jesus Franco, e The House of Usher (2006) de Hayley Cloake e argumento de Collin Chang.

As semelhanças entre o argumento da versão de Jean Epstein e o conto homónimo de Edgar Allan Poe são tão difusas e cruzadas como as que podemos encontrar na versão realizada por Roger Corman. De facto, La Chute de la Maison Usher é, em muitos aspectos, uma adaptação literal da obra de Poe, desde as paisagens sombrias e desoladas («…as paredes soturnas, as janelas vazias, semelhando olhos, uns poucos canteiros de caniços e uns poucos troncos brancos de árvores mortas, com extrema depressão de alma…) à irreparável sensação de sufocamento que parece ensombrar os personagens («…ao primeiro olhar sobre o edifício invadiu-me a alma um sentimento de angústia insuportável, digo insuportável porque o sentimento não era aliviado por qualquer dessas semi-agradáveis, porque poéticas, sensações com que a mente recebe comummente até mesmo as mais cruéis imagens naturais de desolação e de terror.»). Tanto Roderick Usher como Madeleine são personagens doentias, obsessivas, fascinadas pela morte, dominadas por maldições hereditárias, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe, como os seus congéneres literários. A estrutura narrativa básica do conto de Poe foi mantida e, pese embora La Chute de La Maison Usher seja um filme de vanguarda que promove uma certa atitude inconformista perante a sociedade claramente irradiada por Luis Buñuel nos clássicos Un Chien Andalou (1928) e L'Âge d'Or (1930), parece ter havido uma nítida preocupação de não ferir susceptibilidades, uma vez que o realizador optou por eliminar todos os vestígios de uma relação incestuosa existentes na história original, transformando os irmãos Roderick e Madeleine em marido e mulher. Além disso, Epstein constrói um final feliz, com os amantes escapando ao perigo nos últimos instantes enquanto a imensa mansão dos Usher se afunda em chamas.

Se bem que Jean Epstein assuma como ponto de partida um conjunto de postulados expressionistas, é notória a sua intenção de se afastar das experimentações e inovações radicais das vanguardas cinematográficas dos anos 1920 e o desejo de pôr em evidência os problemas existenciais de Roderick Usher a partir de uma óptica diametralmente oposta, nitidamente influenciada por um realismo mais naturalista. Epstein mostra-nos imagens da natureza através das suas representações pictóricas ou mesmo espirituais. Somos confrontados com a árvore genealógica da família Usher traçada em retratos que mostram uma árvore luxuriante, símbolo do início de uma geração e de toda uma família, e, depois, com a mesma árvore já decrépita e sem viço que, a par do incêndio na sinistra mansão, assinala o fim da linhagem dos Usher. O expressionismo cinematográfico emerge a espaços nalguns aspectos formais do filme, mas acaba por se diluir quando, por exemplo, Epstein opta por apresentar uma profusão de planos gerais da paisagem que rodeia a mansão dos Usher: os rios, os vales e o céu nublado que se confunde com os estados de alma dos membros daquela malfadada família.

Em La Chute de la Maison Usher convivem traços e elementos das duas correntes cinematográficas, que ora se misturam, ora se distanciam. Roderick Usher é bem o retrato deste confronto, como podemos ver na cena em que o protagonista, perante o dilema de escolher entre uma das suas paixões, a música e a pintura, acaba por escolher a arte dos pincéis por ser, na sua opinião, a única forma de expressão artística capaz de perpetuar a vida e vencer a morte. Em última instância, o propósito do artista genuíno, seja ele expressionista ou naturalista, é lançar à eternidade a sua obra de modo a imortalizar a sua própria vida. Após a morte de Madeleine, a angústia existencial e a inquietação permanente que resulta da dolorosa ignorância a respeito do futuro, conduzem Roderick Usher até ao limiar da loucura, a ponto de tentar desvendar os mistérios do tempo. O realismo e o naturalismo atingem o auge, levando a um desejo materialista tão manifesto que Epstein não hesita em mostrar as engrenagens de um relógio, bem como o movimento periódico de um enorme pêndulo, para assinalar o momento em que o protagonista assume a consciência da sua finitude, o momento em que Roderick decide buscar um modo para que a sua existência não se consuma nunca. Trata-se de uma proposta visual arrojada que revela bem o génio de Epstein, constituindo, ao mesmo tempo, uma espantosa homenagem a Metropolis (Fritz Lang, 1927), um clássico absoluto do cinema mundial e uma das pedras fundamentais do expressionismo alemão. Epstein deita mão a outros recursos cinematográficos inovadores para a época, como os grandes planos filmados com a câmara ao ombro e o uso desmesurado da montagem acelerada.

A sequência mais marcante do filme é talvez aquela que nos mostra Sir Roderick Usher a pintar o retrato de Madeleine, sobretudo, pelo modo como tira partido do sofrimento de ambos. A mulher é obrigada a posar ao lado de um candelabro repleto de velas acesas, suportando estoicamente o calor do fogo. O sofrimento do casal, em particular o de Madeleine, cuja vida é literalmente sugada pelas pinceladas do marido, é uma espécie de epítome do filme, para onde convergem o triste paroxismo que é o desejo de imortalidade (a perpetuação do indivíduo através da representação da sua imagem) e a marcha inexorável em direcção à morte (a extinção das velas e a agonia e morte da mulher).

La Chute de la Maison Usher costuma ser catalogado no género de terror, muito por culpa da obra literária que lhe serviu de base e de algumas cenas que remetem para a estética dos filmes de vampiros. No início do filme, quando o personagem interpretado por Charles Lamy é recebido na destroçada casa dos Usher pelo semblante vampírico de Roderick Usher, é difícil não nos recordarmos da chegada de Jonathan Harker ao castelo do Conde Drácula, uma das cenas mais dramáticas da novela de Bram Stoker e da maior parte das suas adaptações cinematográficas. Noutra cena, a profanação do corpo da falecida esposa de Roderick com um martelo e uma estaca, uma alusão figurada da cópula, pode muito bem ter servido de inspiração a Jimmy Sangster para a escrita da cena de violação da vampira hammeriana, no clássico Dracula: Prince of Darkness (Terence Fisher, 1966). Mais à frente, o regresso do mundo dos mortos de Madeleine, uma ressurreição que se afasta em definitivo do naturalismo que permeia todo o filme, para além de nos situar no terreno do fantástico, fecha o círculo do significado global do filme, esse sentimento tão profundamente cristão que crê que o sofrimento em vida é a única via para atingir o paraíso na eternidade.

La Chute de la Maison Usher permanece como uma das melhores adaptações cinematográficas do universo de Edgar Allan Poe, seja pela criatividade expressa no estilo figurativo e abstracto da narração, seja pela prodigiosa utilização da imagem, da iluminação, dos enquadramentos ou dos jogos de montagem, que conferem ao filme uma atmosfera poética admirável, carregada de surrealismo e onirismo psicológico.

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