terça-feira, 16 de março de 2010

YOUNG MARBLE GIANTS

A banda galesa Young Marble Giants conta apenas com dois trabalhos de estúdio lançados nos dois anos em que estiveram juntos (1979-1980): o EP Test Card e o seminal Colossal Youth. Este último constitui, a par de, por exemplo, Metal Box, dos Public Image Limited, Entertainment, dos Gang of Four, ou Playing with a Different Sex, dos Au Pairs, um dos álbuns mais marcantes do movimento post-punk. Numa época marcada pelo cinismo e a arrogância, o fascínio de Stuart Moxham pelas estruturas tradicionais da música pop, espelhado neste ciclo de canções acerca do amor e da traição, surge em claro contraste com a dissonância sonora de "Poptones", dos Public Image Limited, ou “Anthrax", dos Gang of Four. Ao contrário das paisagens sonoras densas e das experimentações sónicas de muitas das bandas post-punk, que foram perdendo ressonância ao longo dos anos 1980, a música dos Young Marble Giants permanece como um dos testemunhos mais vibrantes sobre as relações amorosas erráticas e doentias por entre as ruínas da era Reagan/Thatcher e mantém, ainda hoje, uma frescura e uma intemporalidade verdadeiramente admiráveis.

A música dos Young Marble Giants é construída em torno da instrumentação minimal e intimista de Stuart Moxham, na guitarra e órgão, e do seu irmão, Philip Moxham, no baixo. Em vez de um baterista, os Young Marble Giants optaram pela precisão metronómica de uma caixa de ritmos. Com uma produção marcada pelas gravações ao primeiro take, os temas de Colossal Youth são dominados por soluções harmónicas simples, sem arranjos complexos ou variações surpreendentes, deixando, no entanto transparecer uma espécie de brilho analógico que contamina todas as canções com uma fidelidade cristalina. Longe da rapidez e agressividade que caracterizaram a primeira vaga do punk britânico, a música composta por Stuart Moxham aproxima-se mais da pop atmosférica e melancólica de alguns dos temas dos Velvet Underground.

As letras das canções escritas por Stuart Moxham, tocadas por uma subtil ironia e uma sensibilidade vanguardista que, não raro, subvertem a tradição da pop a partir de dentro do seu próprio discurso, revelam um compositor meticuloso e um apurado sentido poético que impressiona pelas observações contundentes acerca da fragilidade dos relacionamentos humanos e a perda da inocência. A sua rica e constrangedora imagética filia-se, de alguma maneira, na tradição poética cultivada por um dos mais célebres autores galeses, o poeta Dylan Thomas.

Colossal Youth apresenta um conjunto de canções meticulosamente desenhadas, assentes numa crueza sonora sem rodeios e repletas de múltiplos significados. A melodia cadenciada da voz de Alison Statton é o contraponto perfeito para o profundo sentimento de alienação transmitido pelas canções de Stuart Moxham, transformando a sua audição numa experiência falsamente tranquila. É uma voz que não se exime a jogos de ironia com as letras agridoces de Stuart Moxham, através de toadas monótonas que mais parecem provir de uma criança aborrecida com o mundo. Dá a impressão que os Young Marble Giants estão constantemente a desconstruir a sua própria música e a desafiar o ouvinte para a descoberta da verdade que espreita nas entrelinhas.

No final de 1980, após uma atribulada digressão pelos Estados Unidos, as diferenças musicais entre os membros da banda acentuaram-se e os conflitos internos agudizaram-se, o que resultou no fim dos Young Marble Giants. Numa entrevista, Stuart Moxham chegou a afirmar que pretendia cantar as suas próprias canções, uma vez que estas tinham uma componente emocional muito forte, retratando, quase sempre, histórias do seu íntimo. Interpretadas por Alison Statton, acrescentou, as canções perdiam muito do pendor autobiográfico e toda a carga emocional que ele imprimia às letras.

Após o fim da banda, os três membros originais envolveram-se noutros projectos, com maior destaque para os Gist, que integrava Stuart Moxham e alguns amigos, e para os Weekend, que juntou Alison Statton aos guitarristas Simon Booth e Spike Williams. Depois dos Gist, extintos em 1983, Stuart Moxham, o único membro dos Young Marble Giants que vive apenas da música, conciliou uma carreira a solo com participações noutros projectos, entre os quais Jah Scouse, com os dois irmãos, e um tributo a António Carlos Jobim, no disco Modinha, gravado com Ana da Silva, membro fundadora da banda britânica The Raincoats. Por sua vez, Alison Statton participou em projectos com Ian Devine e Spike Williams.

A existência terrivelmente curta dos Young Marble Giants não impediu que o impacto das suas canções perdurasse no tempo. Dos Saint Etienne aos Portishead, dos Massive Attack a Aimee Mann, passando pelos Stereolab ou REM e até mesmo Kurt Cobain (numa entrevista à revista Melody Maker realizada em 1992, Cobain afirmou que Colossal Youth foi um dos cinco álbuns que mais o influenciaram) ou Bjork, muitos foram os nomes que reconheceram a importância dos Young Marble Giants e assumiram, de certa forma, o seu legado sonoro.

Em Maio de 2007, com a reedição de Colossal Youth, os Young Marble Giants regressaram ao palco, apresentando-se no Hay-on-Wye Festival, no País de Gales. Em 28 de Outubro de 2007, actuaram em Boulogne Billancourt, nos arredores de Paris, e, na Primavera/Verão de 2008, regressaram à estrada para uma digressão de três dias por Espanha e Portugal. Desde então, a banda tem actuado com alguma regularidade.

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