sexta-feira, 9 de abril de 2010

SIMÓN DEL DESIERTO (LUIS BUÑUEL, 1965)





Em 1960, Luis Buñuel regressou a Espanha, após um longo exílio no México, para realizar Viridiana, uma das obras mais polémicas deste período, que denuncia a omnipresença do catolicismo na sociedade espanhola, numa sátira brutal e impiedosa aos conceitos de caridade e virtude cristãs. O filme ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes e escandalizou o Vaticano, bem como o governo espanhol, que aceitara ingenuamente subsidiá-lo e promovê-lo em Cannes, sem que qualquer dos responsáveis o tivesse visto, e Buñuel viu-se condenado a um novo exílio no México, onde realizou El Ángel Exterminador (1962), que, na linha do seu antecessor, tece um rol de críticas à religião, em particular, a católica. Simón del Desierto foi rodado em 1965, e constitui o último filme de uma trilogia que aborda directamente questões religiosas. Para a escrita do argumento, Buñuel ter-se-á inspirado na Legendae Sanctorum, um clássico da literatura religiosa que reúne as biografias de 153 santos, escritas por Jacopo de Varazze no séc. XIII, com a intenção de difundir valores morais edificantes e arregimentar um maior número de fiéis para a Igreja Católica. Nesta obra, que chegou a rivalizar em popularidade com a Bíblia, é traçado o trajecto de São Simeão, o Estilista (do grego sytilos, que significa coluna), um monge sírio do séc. IV, que, dizem, viveu várias décadas no topo de uma coluna, de onde pregava, convertia pecadores e dava orientação a todos os que desejavam ouvir os seus conselhos e discursos sobre os Evangelhos.

Em Simón del Desierto, Buñuel mostra-nos um asceta cristão que vive em cima de uma coluna erguida no meio de uma terra pobre, árida e seca, há seis anos, seis semanas e seis dias. Este homem, de nome Simón, está convencido de que só uma vida de sacrifícios e de penitências e de renúncia dos apetites carnais e das tentações e do pecado poderá provar a sua devoção a Deus e levá-lo ao Céu. Os crentes aglomeram-se à sua volta, outros homens santos vêm de longe para o reverenciar e adorar, e Simón partilha com todos eles os frutos da sua sabedoria. Entretanto, um rico benfeitor, grato por uma graça concedida, oferece-lhe um novo pedestal, mais alto e belo que o primeiro — uma recompensa terrena pela sua persistente busca da divindade. A fim de mudar de morada, Simón desce da sua pobre coluna para junto dos religiosos e camponeses que se juntaram para o aclamar e é surpreendido pela visita da sua mãe e pela oferta do ministério sacerdotal que lhe é feita por um dos monges. O asceta recusa a oferta, por se considerar indigno de tais honras, despede-se da sua mãe e sobe à nova coluna, onde continua a pregar e a realizar milagres para gáudio da multidão. Talvez devido à aceitação da oferta de uma nova morada ou devido ao número auspicioso que marca o tempo de vida do eremita naquele canto do deserto, o Diabo, transfigurado no corpo da actriz Silvia Pinal, decide tentar a sua sorte, investindo três vezes contra a persistência e a determinação de Simón. Na primeira, surge na pele de uma jovem inocente e sensual vestida com um uniforme escolar. Na segunda, aparece disfarçado de Jesus Cristo e, na sua última aparição, salta de dentro de um caixão que se arrasta pelo deserto e pára junto à coluna de Simón. Mas são debalde os seus esforços, pois Simón não só não cede aos intentos do Diabo como ganha um ânimo reforçado, tornando a sua vigília mais dura e jurando permanecer apoiado apenas numa perna.

Elemento recorrente na obra de Buñuel, que referiu amiúde ser culturalmente cristão, a religiosidade ocupa um lugar de destaque em Simón del Desierto. Mas é uma religiosidade que surge repleta de um humor negro desconcertante e eivada por um sarcasmo às vezes violento (um amputado alvo de uma cura miraculosa por parte de Simón apressa-se a utilizar a mão recém-recuperada para esbofetear a filha; durante uma oração sobre a coluna, Simón abençoa um insecto para que este continue a cantar as glórias do Senhor e pergunta-se a quem mais poderá benzer, pois se se trata de um Santo exercício que, para além de o manter ocupado não ofende a ninguém; noutra ocasião, é por pouco que não abençoa alguns restos de comida que retira da boca...).

A religiosidade é analisada com um profundo sentido de humor e a partir de um ponto de vista assumidamente crítico, mas sempre com o cuidado de evitar o ridículo ou os ataques soezes e vulgares, o que não deixa de ser peculiar num homem que sempre disse ser simpatizante do comunismo e, até mesmo, do anarquismo, declarando-se ateu e materialista. Ao mesmo tempo que retrata a missão espiritual de Simón com um misto de humor e simpatia, Buñuel não se coíbe de criticar os falsos adoradores usam o nome de Deus em vão, mostrando como a multidão se aproveita desbragadamente dos milagres de Simón e como muitos dos monges só ali acorrem para manter as aparências. Segundo Buñuel, os charlatães superam em muito o número de homens verdadeiros e íntegros, e Simón, podemos vê-lo, faz parte deste último grupo: assolado por inúmeros desejos e tentações mundanas, a sua vontade férrea e a fortaleza da sua virtude não o deixam desviar dos seus objectivos.

Há quem sustente que, após L' Age d'Or (1930), a atitude de Buñuel face à iconografia da Igreja se foi tornando cada vez mais branda até aos seus últimos filmes do período francês. Apetece perguntar se, com o passar dos anos, Buñuel refreou a sua audácia crítica ou se há outras causas para esta transformação progressiva? A resposta a esta questão pode ser encontrada na sequência final do filme que, embora não seja a que Buñuel tinha previsto, é de uma eloquência ímpar e avassaladora. O Diabo leva Simón num avião que cruza o céu medieval (anacronismo que alimenta a confusão do espectador) até à década de 1960, mais concretamente, até um clube nocturno de Nova Iorque, onde um grupo de jovens dança freneticamente ao som de uma música jocosamente intitulada “Carne Radioactiva”. Aí, Simón mantém-se alheio a tudo o que se passa em seu redor, sentado a uma mesa e fumando paulatinamente um cachimbo. O Diabo convida-o para uma dança, mas Simón recusa com um gesto de desprezo e permanece, impassível, no seu lugar. O mundo actual é um mundo sem sagrado. Nos anos 1920 e 1930, Buñuel podia atacar a Igreja como uma instituição repressora da natureza humana, no entanto, com o passar do tempo, a influência da Igreja foi-se tornando cada vez menor, sobretudo, entre as gerações mais jovens. O cineasta parece acusar uma certa nostalgia por uma época em que era mais fácil provocar o escândalo e a polémica, algo que hoje se afigura muito mais difícil, na medida em que a moral, tanto a religiosa como a racional, entraram num processo de firme e contínua degradação. A atitude do asceta que renuncia a tudo e a todos e se entrega de corpo e alma ao sofrimento e à penitência já não tem qualquer valor ou, mais ainda, é encarada como uma opção de vida de alguém que não sabe desfrutar as maravilhas da vida.

De facto, a religiosidade foi-se diluindo ou passou a ser apenas mais um bem de consumo na grande feira das vaidades que é o tempo presente. Como bem nota o cineasta, o sagrado hoje tem muito pouca importância e, mesmo que não sejamos crentes, podemos senti-lo com um sentimento de perda. Os homens humildes da Idade Média sentiam que as suas vidas, por mais duras que fossem, tinham um sentido e eram parte de uma ordem espiritual. Para esses homens, a vontade de Deus estava em toda a parte. Eles viviam com Deus, não eram órfãos. Buñuel construía a partir da destruição. Em certa ocasião, disse que adoraria entrar num museu só para ter o prazer de o destruir. Noutra, afirmou que não alimentava o sonho da vida eterna, mas que gostaria de se erguer, de quando em vez, do seu túmulo, para pegar num jornal e ver como, a pouco e pouco, tudo se vai consumido e reduzindo a cinzas. O mestre aragonês necessitava, portanto, de um ordem instituída para subverter, e quando esta ordem começou a ruir, foi obrigado a reconstruí-la nas suas obras cinematográficas, com a serenidade de quem observa uma realidade onde nenhum acto é levado a sério ou se reveste de qualquer tipo de transcendência, com a sensação calorosa de quem se apercebe que os despojos de uma humanidade perdida caminham irremediavelmente para a destruição completa. A sua visão sobre a decadência da sociedade ocidental e a perda de referências espirituais do homem do século XX é, portanto, uma das mais cépticas, lúcidas e bem-humoradas que nos é dado conhecer.

3 comentários:

Adriano Drummond disse...

Eugénio,

tomei conhecimento de seu blog, hoje, numa aula de pós-graduação sobre literatura de testemunho e violência. Impressionou-me muito seu investimento intelectual neste espaço. Não sou propriamente cinéfilo, e aqui vou aprender bastante sobre cinema, com certeza.

Muito obrigado pela iniciativa!

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Belo texto sobre um dos meus realizadores preferidos de sempre. Parabéns.

Flávio Gonçalves disse...

Excelente este blog! Muitos parabéns!