domingo, 13 de fevereiro de 2011

LA FEMME DE L'AVIATEUR (ERIC ROHMER, 1981)

François, um jovem que trabalha de noite num posto de correios, tem uma relação amorosa com Anne, que trabalha de dia, o que significa que raramente se encontram. Um dia, François vê sair de casa de Anne um homem vestido de aviador. Fica furioso e faz-lhe uma cena. Embora Christian, o aviador, já nada tenha com Anne, esta deixa que a suspeita se instale. Nesse dia, François, em vez de ir dormir, erra tristemente pelas ruas de Paris e encontra o seu rival sentado num café com outra mulher. Entretanto, trava casualmente conhecimento com Lucie, uma jovem estudante que rapidamente se torna cúmplice de François, quando este decide seguir o aviador e a estranha mulher que o acompanha.

Após duas produções de elevado orçamento (La Marquise d'O, realizado em 1976, e Perceval le Gallois, de 1978), Eric Rohmer pareceu sentir a necessidade de regressar a um território mais familiar e mais fácil de controlar e, assim, recuperar uma certa liberdade de acção. La Femme de L'Aviateur (A Mulher do Aviador, na versão portuguesa), que marca o início de um novo ciclo de filmes, desta vez subordinados ao tema “Comédias e Provérbios” (de que fazem parte ainda Le Beau Mariage, 1982, Pauline à la Plage, 1983, Les Nuits de la Pleine Lune, 1984, Le Rayon Vert, 1986, e L’Ami de ma Amie, 1987), é, neste contexto, um passo em frente no caminho da simplificação, que recupera com um vigor inesperado o espírito da Nouvelle Vague, à data quase esquecido no panorama do cinema francês.

Esta mudança radical no campo da produção não resultou de um simples capricho do realizador nem de constrangimentos orçamentais. O que Rohmer procurava era, por um lado, aproximar-se o mais possível da textura visual do ambiente urbano e, por outro, a máxima liberdade para filmar na cidade quase incógnito. Tal opção respondeu também a critérios de ordem estética: «A originalidade de La Femme de L'Aviateur, se é que existe», dirá Rohmer, «não está na maneira sub-reptícia de captar as imagens, mas em fazer das ruas, com todos os seus imprevistos, o cenário de uma comédia, e em avançar tão livremente como se trabalhasse num estúdio.» Com uma espantosa economia de meios, Rohmer sai para a rua para se deleitar com a geografia parisiense, servindo-se das paisagens urbanas como um elemento fundamental da narrativa.

La Femme de L'Aviateur é, desde logo, um filme sobre a falsidade das aparências, um filme povoado por personagens que não só cometem o erro de confiar nas aparências mas também constroem mundos ficcionais a partir das situações reais experimentadas. Cada personagem constrói, à sua maneira, um mundo submetido às narrações que tem nas suas cabeças. Se François peca por ser demasiado ingénuo, o erro da inquieta Lucie consiste em reconstruir os dados da realidade à sua maneira e, na tentativa de interpretar aquilo que vê, não faz mais do que inventar uma realidade distinta. Trata-se da típica teia de auto-enganos em que vivem muitos dos personagens de Rohmer, mas, neste caso, vistos a partir de uma nova perspectiva: já não é o narrador que conta a sua história à sua maneira e se auto-justifica, como nos “Contos Morais”, agora são os personagens que pretendem inventar uma história, encenando-a a seu modo. As preocupações morais dão lugar a preocupações materiais. Nas “Comédias e Provérbios” os diálogos em torno da moral e da filosofia são mais comedidos; as especulações verbais passam a centrar-se, sobretudo, nas acções. Os personagens envolvem-se em situações de carácter prático e é a partir delas que, em última instância, se revelará uma moral. Como refere Rodrigues da Silva, «o tema predominante em quase toda a obra do cineasta francês é a moral. Não no sentido moralista, porque para Rohmer um conto moral não significa um conto com uma moral, mas uma história que descreve menos o que fazem as pessoas do que aquilo que se passa no seu espírito. Assim sendo, o que sobretudo lhe interessa, aquilo que sobremaneira o seu cinema mostra não são as acções, mas os estados de alma, como pensam e como sentem as personagens face a uma situação concreta.»

A destruição de um ideal, a discrepância entre a imagem projectada pela mente e a realidade que a desmente, no fundo são estas algumas das questões que o filme levanta. François equivoca-se na interpretação que faz da visita de Christian a Anne e errará de novo na leitura dos sentimentos de Lucie em relação a si. No fundo, o principal problema de François é o egoísmo. François é traído pela sua incapacidade de compreender os outros, de ter em conta que estes possam ter intenções, desejos ou interesses distintos ou, até mesmo, opostos aos seus. Neste sentido, pode-se afirmar que o cinema de Rohmer é um cinema marcado por um realismo cruel e avassalador que resulta da firme convicção de que toda a projecção idealizada, abstracta, é constantemente superada pela realidade material dos factos.

La Femme de L'Aviateur é um filme a um tempo cruel e divertido. Cruel, na medida em que o olhar do realizador não evita o lado mais ignaro dos personagens nem deixa de revelar os seus fracassos. Divertido, porque, ao invés de se enredar em dramatizações excessivas e enfadonhas, a abordagem de Rohmer é suficientemente lúcida para admitir esses fracassos, substituindo o hipotético escárnio pela compreensão dos devaneios dos personagens, abrindo, assim, caminho para outras perspectivas, incluindo, naturalmente, a cómica.

La Femme de L'Aviateur é uma obra lúcida e lúdica, um jogo delicioso de amor, desencontro, conversas cruzadas e situações equívocas, construído com inimitável sensibilidade, ironia, humor e inteligência, que faz da sobriedade floritura e da floritura sobriedade.

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