sábado, 5 de fevereiro de 2011

NIKUTAI NO MON (SEIJUN SUZUKI, 1964)

Seijun Suzuki nasceu em Tóquio em 1923. Com 20 anos, ainda estudante, foi mobilizado pela marinha imperial japonesa, combatendo em Taiwan e nas Filipinas. De volta ao Japão, retomou os seus estudos na Universidade de Hirosaki e foi recusado no exame de admissão à Universidade de Tóquio, onde pretendia estudar comércio. Voltou-se então para o cinema, e depois de breves estudos na academia de cinema de Kamakura, entrou como assistente de realização no estúdio Shochiku. Em 1954, mudou-se para os estúdios Nikkatsu. Em 1956 realizou o seu primeiro filme, Minato no kanpai: Shori wo wagate ni. Durante os doze anos que trabalhou para a Nikkatsu realizou perto de 40 filmes de série B. Naquele tempo as salas de cinema japonesas projectavam dois filmes por sessão, o primeiro dos quais de série B. Eram filmes de baixo orçamento, com muito pouco tempo de preparação, rodagem e pós-produção, em que os realizadores tinham que obedecer a estritas condições impostas pela produtora. Os géneros mais comuns eram filmes de gangsters, sobre a Máfia japonesa, chamados Yakusa, e os pinku eiga, um subgénero especificamente japonês marcado pela violência e o erotismo. A pouco e pouco, Suzuki ia transmitindo aos seus filmes um estilo cada vez mais pessoal, progressivamente marcado por um humor absurdo, uma realização surrealista e experimentações visuais desconcertantes que lhe valeram a admiração e o apoio de um público de cinéfilos e de realizadores como Nagisa Oshima. Tokyo nagaremono, realizado em 1966, é um dos expoentes desta fase. Com o filme seguinte, Koroshi no rankin (1967), entrou em conflito com Hori Kyusaku, o presidente da Nikkatsu, e foi despedido. Suzuki processou a produtora e acabou por receber uma indemnização, mas ficou na lista negra dos estúdios, deixando de filmar durante dez anos. Neste período, dedicou-se à escrita, realizou filmes para televisão, séries e filmes publicitários e participou como actor em vários filmes. Em 1977 regressou ao cinema com Hishu monogatari. Entre esse ano e 2005, realizou nove filmes. O seu reconhecimento internacional só ocorreu depois de uma retrospectiva, em 1988, no Festival de Edimburgo, e de outra, em 1991, no Festival de Roterdão. Em 2006, anunciou o abandono devido a problemas de saúde. No entanto, em 2008 submeteu um novo projecto cinematográfico ao Tokyo Project Gathering, intitulado Mitsu no Aware.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, muitas das grandes cidades japonesas jaziam em ruínas e, apesar da reconstrução se ter iniciado quase imediatamente após o final do conflito, grande parte da população foi obrigada a procurar abrigo temporário no que restava dos edifícios destruídos. Devido à falta de alimentos, o mercado negro entrou num período de franca expansão pois, embora ilegal, era para muitos a única fonte de provisões. Além disso, um grande número de mulheres, cujos pais, irmãos e filhos foram mortos durante a guerra, foi forçado a prostituir-se para sobreviver. Com dezenas de milhares de ex-soldados japoneses desmobilizados e hordas de militares norte-americanos que ocupavam o país, havia definitivamente um vasto mercado a explorar.

Nikutai no mon (A Porta da Carne, na versão portuguesa) oferece uma perspectiva sombria do ambiente do pós-guerra na cidade de Tóquio, através do retrato de cinco prostitutas que se unem sob um estrito código: não admitir chulos, atacar qualquer transeunte que entrasse no seu território, defender o prédio abandonado a que chamam casa, e punir quem quer que seja que ofereça os seus serviços sexuais sem a devida compensação monetária. Maya, uma jovem devastada pela morte do irmão, junta-se ao grupo. Entretanto, aparece Shintaro, um ladrão que matou um soldado americano. As mulheres permitem que se esconda enquanto recupera dos ferimentos, mas a sua estadia acaba por durar mais tempo do que o previsto.

Uma das características mais marcantes do filme reside no uso da cor. Embora Suzuki tenha afirmado que vestiu as protagonistas com roupas de cores distintas apenas para tornar mais evidentes as diferenças entre elas, algumas leituras do filme viram neste facto um sistema de percepção da personalidade de cada uma das prostitutas. Em todo o caso, cada uma das prostitutas oferece um retrato das diferentes reacções emocionais da sociedade japonesa do pós-guerra. As roupas vermelhas de Sen evocarão o sentimento de pertença e o medo e a impulsividade que muitos japoneses experimentaram durante a guerra. Oroku, vestida de amarelo, representará a paz, a tranquilidade e a compreensão. O vestuário roxo de Omino poderá ser um símbolo da solidão, da ansiedade e da vergonha causada pela honra perdida na guerra e a posterior ocupação do Japão pelas forças aliadas. O verde das roupas de Maya evocará, para uns, a paz e a tranquilidade, e, para outros, é o sinal de uma alma corrupta que se adensa no abismo à medida que a sua propensão para a paixão carnal se intensifica. Ao apaixonar-se por Shintaro, Maya vai descobrindo que é outra vez capaz de sentir; ela é agora mais completa como ser humano, mas ao mesmo tempo pôs-se em perigo, a si própria e à sua sobrevivência. Machiko, que usa vestes de uma cor neutra, o branco, tem uma personalidade mais complexa e difícil de fixar. Com efeito, Machiko, que perdeu o marido na guerra, é uma alma à deriva que procura um novo amor para substituir o antigo. É alguém que acaba por cair em desgraça quando infringe uma das regras mais básicas do grupo: sexo sem dinheiro. O tradicional quimono e as sandálias de madeira de Machiko poderão representar também o passado e a rígida disciplina do período anterior à guerra, ao mesmo tempo que leva o público a pensar nos erros do passado.

Estas mulheres voluntariosas e independentes vivem sob um rígido código ético, que lhes garante a satisfação das necessidades fundamentais: a segurança física e material, a territorialidade, a permanência e o sentimento de pertença a um grupo. Elas parecem ter criado uma espécie de nova ordem social, na medida em que se libertaram das amarras da sociedade patriarcal e da figura do intermediário — o proxeneta. Sen ajuda Maya a entender os meandros do negócio, e esta aprende, desde logo, que o sexo é um negócio e que os seus corpos não passam de mercadorias. Até à chegada de Shintaro tudo parece funcionar sem grandes problemas dentro do pequeno império carnal gerido pelas cinco prostitutas. Mas, a pouco e pouco, o medo, a inveja e a luxúria começam a tomar conta das mulheres, ameaçando destruir o frágil equilíbrio que tornava as suas vidas suportáveis.

Do ponto de vista histórico, a tendência para a afirmação de um comportamento territorial é transversal à existência humana, permitindo, em condições de vida excepcionalmente difíceis, garantir a satisfação das necessidades mais básicas. No início do século XX, o Japão, já livre das rígidas estruturas feudais, procura estabelecer as bases da modernização económica e social do país. Sem recursos energéticos que garantissem um crescimento económico rápido e sustentável e estando fora de questão o pedido de fundos ou empréstimos a países estrangeiros, o Japão lança-se numa agressiva campanha de expansão territorial que conduzirá à guerra russo-japonesa, à conquista da Coreia e das ilhas de Taiwan e de Sacalina, à anexação da Manchúria e ao envolvimento do Japão na Segunda Guerra Mundial. O expansionismo encontra muitas vezes o seu fundamento na procura de riqueza e na ganância dos povos. Frequentemente, os ganhos acumulados atiçam o desejo de ganhar mais e implicam a necessidade de preservar aquilo que já se conquistou. Suzuki transpõe para o filme esta noção, explorando o modo como cada um dos protagonistas luta pelo poder e tenta estender a sua influência sobre os outros através da imposição de regras dogmáticas e da manipulação sexual. Neste contexto, a dominação que Shintaro exerce sobre as prostitutas pode ser encarada como uma crítica à presença norte-americana em território japonês.

Esta micro-sociedade oferece uma perspectiva espiritual dos pecados carnais que governam a vida das mulheres, que se estende muito para além do que é tangível. Através das vidas atribuladas de Shintaro e das cinco mulheres, somos confrontados com a experiência-limite da morte e do sofrimento, descemos ao inferno de uma comunidade daqueles que são sem comunidade, profundamente empenhada na sua sobrevivência e autoconservação, e transformamo-nos em testemunhas involuntárias do drama da sua lenta conflagração.

O ano de lançamento do filme coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio, um evento que deu a conhecer ao mundo uma nova perspectiva sobre uma nação outrora derrotada, mas que aprendeu com as consequências da derrota e renasceu das cinzas para se tornar um dos pólos económicos do mundo. Não obstante, a visão de Suzuki dirige-se para uma época profundamente caótica, anárquica e fragmentada, e enreda-se nas experiências mais íntimas e reveladoras da humanidade, aproximando-se do exacto momento em que esta atinge o seu ponto mais baixo, em que a compaixão desaparece num vórtice de ganância e egoísmo.

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